Irmã de suplente de senador recebeu ‘recursos expressivos’ de clínica usada para inflar Banco Master
Fonte: estadao.com.br | Data: 14/03/2026 20:34:40
BRASÍLIA – Uma clínica médica citada na investigação do escândalo do Banco Master como empresa de fachada usada para inflar patrimônio da instituição financeira do banqueiro Daniel Vorcaro “enviou recursos expressivos” para a irmã e sócia do ex-senador Castellar Neto (PP-MG), suplente do senador Carlos Viana (Podemos-MG), presidente da CPI do INSS.
Os pagamentos, que somam R$ 519.547,00 em 43 transferências, aparecem em um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) enviado à CPI do Crime Organizado, do Senado. A informação liga a empresária e advogada Carolina Modesto Guimarães a uma empresa aberta por “laranja” e suspeita de servir de passagem de dinheiro do Master.
Procurada para esclarecer a origem do pagamento, Carolina Guimarães afirmou que, em maio de 2022, investiu R$ 420 mil em debêntures da clínica junto à GFS Investimentos e, desde então, recebe R$ 12 mil mensais. As prcelas, segundo ela, são a soma de R$7 mil de amortização e R$ 5 mil de juros. “Foi um investimento regular, dentro das normas da CVM”, disse ao Estadão.
A defesa de Vorcaro disse que “não cabe comentar conteúdos que decorrem de vazamentos ilegais de material sigiloso”(leia mais abaixo).

Fachada da Clínica Mais Médicos, em Contagem (MG). PF apontou que empresa recebeu aporte financeiro de R$ 360 milhões do banco de Vorcaro mediante emissão de notas comerciais
Foto: Washington Alves/Estadão
Irmão de Carolina, Castellar Neto assumiu o mandato de senador em 2024, quando Carlos Viana se licenciou para concorrer a prefeito de Belo Horizonte. Procurado, o suplente de Viana não foi localizado. Viana, por sua vez, foi procurado por meio da assessoria, que não deu retorno até esta publicação.
Os documentos do Coaf aos quais o Estadão teve acesso trazem uma análise sobre a movimentação da clínica e indicam recebimentos suspeitos, pagamentos a fornecedores que não apresentam ligação com o negócio e recebimento de créditos com débitos imediatos.
Leia mais
O Coaf analisou a movimentação financeira da clínica entre janeiro de 2020 e dezembro de 2025. Nesse intervalo, as entradas e saídas somaram quase o mesmo valor, de R$ 508.424.572,75 em créditos e R$ 508.424.571,75 em débitos.
Entre as principais transações no período, o Coaf disse que a clínica recebeu R$ 366 milhões do Fundo City, ligado ao Master, e fez repasses para fundos como o Astralo 95, administrado pela Reag, de R$ 67 milhões, e para o Fundo Duas Rodas, administrado pela Sefer, de R$ 2,4 milhões. Ambas as gestoras são ligadas a operações de Vorcaro e investigadas pela Polícia Federal. Além destes fundos, o Coaf incluiu Carolina como alguém que recebeu “recursos expressivos” da clínica.
Como revelou o Estadão, investigação da Polícia Federal apontou que a Clínica Mais Médicos recebeu aporte financeiro de R$ 360 milhões do banco de Vorcaro mediante emissão de notas comerciais, uma espécie de título de dívida em que a empresa se compromete a pagar um valor pré-acordado no vencimento do contrato.
Os valores chamaram a atenção de investigadores porque a firma não tinha capital social integralizado e nem receitas condizentes com uma operação desta monta. Em 2023, ano anterior à relação com os fundos, a clínica registrou receita operacional de R$ 54 mil.

CVM apontou que a fachada da clínica tem uma estrutura ‘demasiadamente rudimentar’ e não reflete os aportes milionários recebidos
Foto: Washington Alves/Estadão
Aberta em Contagem (MG), na região de Belo Horizonte, em 2018, a Clínica Mais Médicos foi registrada em nome de uma mulher que recorreu ao auxílio emergencial na pandemia de covid-19. Uma inspeção da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) constatou se tratar de uma “laranja”.
A empresa ganhou destaque na decisão judicial que autorizou a operação da Polícia Federal contra o Master, em novembro. Segundo o juiz Ricardo Soares Leite, da 10ª Vara Federal do DF, o Master investiu na clínica porque ela tinha relação com outros negócios do conglomerado, o que elevaria o patrimônio do banco.
“É possível extrair do caso em exame que determinados emissores, supostamente, vinham emitindo notas comerciais em valores significativamente superiores à sua própria receita bruta, prática que pode mascarar a real condição econômico-financeira da instituição. Assim, essa distorção contábil compromete a adequada precificação dos títulos emitidos, podendo induzir investidores em erro quanto ao risco efetivo dessas operações”, diz a decisão.
A investigação também apontou que a “laranja” da clínica tinha vínculo com o Hospital São José, outra empresa sob suspeita por causa da emissão de outros R$ 372 milhões em notas comerciais adquiridas pelo Master.
Em nota, a defesa de Vorcaro disse que “não cabe comentar conteúdos que decorrem de vazamentos ilegais de material sigiloso”.
“Trata-se, inclusive, de fatos que já são objeto de investigação criminal determinada pelo ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. Qualquer manifestação sobre informações obtidas dessa forma apenas reforçaria a disseminação de conteúdos cuja divulgação é, em si, objeto de apuração. Além disso, a comunicação entre cliente e advogado é protegida por prerrogativa legal e constitui garantia essencial do direito de defesa”, diz o texto.