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Quanto vale o Oscar para o cinema brasileiro?

Fonte: www1.folha.uol.com.br | Data: 14/03/2026 22:20:16

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As quatro indicações ao Oscar de “O Agente Secreto” reativaram um clima de torcida semelhante ao do ano passado, quando “Ainda Estou Aqui” ganhou a estatueta de melhor filme internacional. Milhares de brasileiros se manifestam nas redes como se estivessem em um torneio esportivo. Nenhum outro país se mobiliza assim.

O entusiasmo com a premiação, cujos laureados conheceremos neste domingo (15), tem algo de militância política. A direita, que adora os EUA, detesta o filme. A esquerda o comemora, como se o cinema brasileiro chegasse ao auge pelo Oscar —prêmio que sempre foi uma expressão do poder cultural americano.

Não são de hoje essas contradições. A dificuldade do cinema brasileiro de enfrentar o domínio americano no mercado interno influenciou, desde cedo, as políticas públicas do setor. Como mostra José Mário Ortiz Ramos em “Cinema, Estado e Lutas Culturais”, a imitação dos estúdios de Hollywood era a solução buscada para o Brasil já nos anos 1940 e 1950. O Oscar soa para nós, ainda hoje, como um atestado de sucesso —mesmo que o contexto seja outro.

Frente ao engajamento do público, o diretor Kleber Mendonça Filho disse que “a população do nosso país passa a se ver”. Será? A frase toca em um ponto sensível, pois um cinema nacional não vem só de prêmios, mas de espectadores. O público dos filmes brasileiros, porém, sempre foi diferente do que os artistas progressistas gostariam.

Um caso conhecido é o do Cinema Novo. Inspirados pelos romancistas de 1930, os cinemanovistas produziram representações modernistas do povo brasileiro nos anos 1960, mas esbarraram na dificuldade de comunicação com o público. Nunca tiveram o apelo popular das chanchadas —um alvo da crítica severa de Glauber Rocha.

Segundo dados levantados em pesquisa da Unicamp por Sandra Ciocci, a chanchada “Nem Sansão nem Dalila” (1954) vendeu 10 milhões de ingressos; “O Homem do Sputnik” (1959) chegou a 15 milhões. “O Cangaceiro” (1953), produção de grande sucesso no exterior, teve muito menos espectadores no país, cerca de 800 mil. Nos seus sucessos, a chanchada venceu em um cenário de concorrência brutal, quando as salas exibiam 15 vezes mais filmes estrangeiros que brasileiros.

Em tempos recentes, um filme religioso como “Os Dez Mandamentos” teve 11 milhões de espectadores; “Minha Mãe é uma Peça 3”, mais de 10 milhões; “Tropa de Elite 2”, outros 11 milhões. Esses números são, em média, cinco vezes maiores que os de “O Agente Secreto” (2,46 milhões até agora) e também superam os cerca de 5,7 milhões de “Ainda Estou Aqui”.

Em todo caso, o público brasileiro não é mais uma entidade óbvia. Os festivais formam um circuito de consagração simbólica desvinculado da popularidade real —só no país, eles saltaram de aproximadamente 100 para 300 em duas décadas. No mundo pós-global, os “filmes de festival” mostram o Brasil que os júris internacionais gostam de ver.

O avanço do streaming, com seus algoritmos, cria bolhas de consumo que são nichos estéticos. A recepção polarizada de “O Agente Secreto” —estimulada pelo próprio maniqueísmo do filme— evidencia que os correligionários políticos estão no lugar do “povo brasileiro”. Mesmo assim, a velha figura do povo é invocada para legitimar políticas de fomento, hoje transformadas em alvo da direita na guerra cultural.

Prêmios são distinções importantes, e é claro que devem ser comemorados. Mas o fetiche pelo Oscar não pode camuflar as nossas divisões internas nem a complexidade do que se entende hoje por cinema brasileiro.

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