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Aneurisma: silencioso, mas potencialmente fatal, problema atinge mais de 10 pessoas por dia em BH

Fonte: otempo.com.br | Data: 16/03/2026 08:08:24

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A morte da sambista mineira Adriana Araújo, aos 49 anos, após sofrer um Acidente vascular cerebral (AVC) provocado pelo rompimento de um aneurisma cerebral, fez soar o alerta sobre uma condição que muitas vezes permanece silenciosa até evoluir para situações extremas. A artista passou mal em casa, desmaiou e foi levada inicialmente a uma Unidade de Pronto Atendimento, sendo posteriormente transferida para o Hospital Odilon Behrens, em Belo Horizonte, onde os médicos identificaram uma hemorragia cerebral extensa. O quadro foi considerado irreversível, e ela morreu dois dias depois, no dia 2 de março, uma segunda-feira.

Embora casos como o da cantora pareçam raros ou inesperados, os números indicam que o problema é mais frequente do que se imagina. Dados da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte (SMS) mostram que, em 2025, foram registrados 3.734 atendimentos relacionados a aneurisma, o que representa um aumento de 7,5% em relação aos 3.472 casos contabilizados em 2024. Na prática, isso significa que uma pessoa sofre aneurisma na capital mineira a cada duas horas, totalizando mais de dez ocorrências por dia.

No ano passado, 69 pessoas morreram em decorrência da doença. Em 2024, haviam sido registradas 76 mortes. A maior concentração de casos ocorre entre pessoas de 60 a 79 anos, faixa etária que somou 1.976 registros em 2025 – um aumento de 13% em comparação ao ano anterior. Entre pessoas de 40 a 59 anos, grupo no qual se encontrava Adriana Araújo, foram 913 ocorrências.

Especialistas destacam que um dos principais desafios é justamente o caráter silencioso do problema. “Na maioria das vezes, a ruptura é a única demonstração da existência de um aneurisma – que é uma lesão no aparelho da artéria, geralmente na sua bifurcação, que se assemelha a uma pequena bolha adjacente ao vaso sanguíneo”, explica o neurologista Rogério Darwich.

O aneurisma ocorre quando há um enfraquecimento na parede de uma artéria, permitindo que a região se dilate gradualmente com a pressão do fluxo sanguíneo. No caso do aneurisma cerebral, essa dilatação pode crescer ao longo de anos até se romper, provocando sangramento dentro do cérebro. Quando isso acontece, ocorre um tipo grave de Acidente vascular cerebral hemorrágico, caracterizado pelo extravasamento de sangue nas estruturas cerebrais.

Segundo especialistas, a estrutura pode ser comparada a um balão sendo inflado. Com o tempo, a pressão constante do sangue torna a parede cada vez mais frágil, até que o rompimento aconteça.

Sintomas que exigem atenção

Quando ocorre a ruptura de um aneurisma cerebral, o sintoma mais característico é uma dor de cabeça abrupta e extremamente intensa. “Um dos principais sinais é uma dor de cabeça súbita e intensa, geralmente a pior que o paciente já apresentou em sua vida”, afirma Darwich.

Além da dor, outros sintomas podem surgir rapidamente, como náuseas, vômitos, desmaio, rigidez na nuca, alterações de visão, confusão mental e dificuldade de fala ou compreensão. Em situações mais graves, o paciente pode entrar em coma, como ocorreu no caso da sambista mineira.

O neurocirurgião Cássio Vinícius Correia dos Reis, em entrevista anterior a O TEMPO, destaca que o tempo de resposta é determinante para as chances de sobrevivência. “Procurar ajuda rapidamente é algo que aumenta as chances de sobrevivência”, afirma, detalhando que cerca de 10% das pessoas que sofrem ruptura de aneurisma morrem antes mesmo de chegar ao hospital. Entre aquelas que conseguem atendimento médico, de 30% a 40% não resistem, mesmo após tratamento.

Problema muitas vezes invisível

Uma das razões para a gravidade da condição é que muitos aneurismas não apresentam sintomas antes da ruptura. Estudos indicam que uma em cada 50 pessoas pode ter aneurisma cerebral não rompido, muitas vezes descoberto apenas durante exames realizados por outros motivos. Isso significa que muitas pessoas convivem com o problema durante anos sem saber. “Só quando há rompimento e, consequentemente, sangramento é que o problema passa a ser conhecido”, explica Darwich. 

Entre os fatores que aumentam o risco de desenvolver aneurismas estão histórico familiar, tabagismo, hipertensão, diabetes e idade acima de 40 anos. Mulheres também apresentam maior incidência da condição. Quando há histórico familiar, o cuidado deve ser redobrado. Na população geral, a chance de ter aneurisma cerebral é estimada em cerca de 3%. Entre pessoas com familiares de primeiro grau diagnosticados com o problema, esse risco pode chegar a 8%.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico depende principalmente de exames de imagem vascular. Entre os principais estão a Tomografia computadorizada, a Ressonância magnética e exames específicos como angiotomografia ou angiorressonância. O exame considerado padrão-ouro para confirmação é a Angiografia cerebral, que permite visualizar com maior precisão a anatomia das artérias cerebrais.

Na rede pública de Belo Horizonte, o atendimento é organizado de forma integrada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A identificação inicial geralmente ocorre nos centros de saúde, onde profissionais avaliam sintomas, investigam fatores de risco e encaminham o paciente para exames ou avaliação especializada quando necessário.

Caso seja confirmada ou suspeita a presença de aneurisma, o paciente é encaminhado para a atenção especializada, onde pode ser avaliado por angiologistas ou neurologistas e submetido a exames complementares. Dependendo da gravidade, o encaminhamento é feito para hospitais de referência, onde podem ser realizados procedimentos cirúrgicos ou endovasculares.

O tratamento pode variar bastante de acordo com características do aneurisma, como tamanho, formato e localização, além de fatores clínicos do paciente.

Segundo especialistas, alguns aneurismas pequenos podem ser apenas acompanhados com exames periódicos. Em outros casos, a abordagem é intervencionista. “Indicamos o tratamento – a menos que o paciente tenha quadros de morbidade ou que o aneurisma esteja em uma região de acesso difícil”, explica o neurocirurgião Cássio Vinícius Correia dos Reis.

Os procedimentos podem ser realizados por cirurgia aberta, com colocação de um clipe metálico no vaso, ou por técnica endovascular, feita por cateter dentro da artéria. Em ambos os casos, o objetivo é impedir que o sangue continue circulando na área dilatada da artéria.

Prevenção e controle de riscos

Embora nem todos os aneurismas possam ser evitados, especialistas destacam que algumas medidas ajudam a reduzir o risco de problemas vasculares cerebrais. 

Controlar pressão arterial, diabetes e colesterol, manter peso saudável, evitar o tabagismo e praticar atividade física regularmente são algumas das recomendações. A realização de exames periódicos também ajuda a identificar fatores de risco. Para médicos, o principal alerta é reconhecer sinais de emergência e buscar atendimento imediato. Em situações de ruptura, cada minuto pode ser decisivo.

(Com Janaína Veloso)