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Projeto vai monitorar crise climática em quilombolas

Fonte: valor.globo.com | Data: 16/03/2026 15:23:48

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Um projeto inédito do Ministério da Saúde e do Einstein vai monitorar a qualidade do ar, solo e água em lugares onde vivem populações quilombolas nos seis biomas brasileiros. A ideia é gerar uma base de dados para entender como a mudança climática e vulnerabilidades socioambientais impactam de modo desigual essas populações, além de apoiar respostas mais direcionadas do Sistema Único de Saúde, o SUS.

“Elegemos a comunidade quilombola pela vulnerabilidade aos impactos climáticos e falta de acesso à saúde”, diz o cirurgião Sidney Klajner, presidente do Einstein. É parte do projeto Veracis (Vulnerabilidades Étnico-Raciais, Ambiente, Clima e Impacto na Saúde), parceria do Einstein com o Programa de Apoio e Desenvolvimento Institucional (Proadi) do SUS.

A pesquisa prevê impacto direto em quatro mil pessoas que vivem em mil domicílios quilombolas na Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pantanal e Pampa. O impacto indireto é estimado em um milhão de quilombolas.

Uma das frentes é a instalação de 27 microestações de monitoramento do clima e da qualidade do ar nas comunidades quilombolas. Outros 12 sensores móveis serão instalados em ônibus e 240 sensores de qualidade do ar, dentro de residências. Ali são coletados dados, em tempo real, da poluição do ar, qualidade da água e solo, presença de metais pesados e agrotóxicos. O Einstein já instalou seis microestações nos biomas. Há também coleta de dados biológicos com técnicas como a transcriptômica (que analisa genes ativos no organismo) e metagenômica (identifica microorganismos presentes no ambiente).

A abordagem procura entender como mudanças do clima e ambiente afetam microbiomas e as respostas biológicas humanas. O projeto cruzará informações de internações hospitalares, desfechos clínicos, dados ambientais (como ondas de calor), renda e infraestrutura de saúde ao longo dos últimos 10 a 20 anos. A análise permitirá a construção de mapas de vulnerabilidade territorial.

A premissa da iniciativa é que dados, inteligência artificial e soluções digitais podem ajudar sistemas de saúde a encontrar respostas de adaptação e resiliência diante de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes. Essa foi a fala de Sidney Klajner, presidente do Einstein, no sábado, no painel “Clima em crise, saúde em risco: Tecnologia como elemento vital” no South by Southwest, festival global de tecnologia realizado em Austin, nos Estados Unidos.

“Os efeitos da crise climática sobre a saúde deixaram de ser projeções. Nos últimos anos foi crescente o número de atendimentos relacionados a ondas de calor, doenças respiratórias agravadas pela qualidade do ar e a expansão de vetores para áreas onde antes não existiam”, diz Klajner ao Valor. “A nossa preocupação com clima e saúde vem da observação que diante dos extremos climáticos, a saúde da população é extremamente atingida no Brasil e no mundo inteiro”.

Ele destaca que diante dos desastres com chuvas e deslizamentos no Rio Grande do Sul, em São Sebastião, em Minas Gerais e em outras partes, os impactos vão além das pessoas diretamente afetadas. “Aquelas com condições crônicas de saúde e que precisavam continuar a ser atendidas, de repente deixaram de ser. As unidades de saúde não estavam preparadas e não tinham como atender”. Dos três hospitais atingidos pelas chuvas em Canoas (RS), por exemplo, um ficou totalmente inundado e deixou de operar. “A falta de adaptação climática faz com que o gerador dos hospitais fique no subsolo. No caso de enchente, perde-se o gerador e o hospital”, diz. “Os extremos climáticos já estão aí e não vão deixar de acontecer. O sistema de saúde tem que estar preparado para tudo isso.”

De todo o financiamento climático multilateral, só 2% são destinados à saúde. Klajner cita estudos que estimam que entre 2030 e 2050 os impactos da crise climática aumentarão em 250 mil o número de mortes/ano relacionadas à malária, diarreia e doenças decorrentes do clima. “Temos que ter dados para entender em que situação estamos, e, especialmente, os mais vulneráveis”, explica.