Como grupo de trabalho descobriu que BRB era passado para trás pelo Master
Fonte: metropoles.com | Data: 25/04/2026 02:16:17
O BRB recebia indícios, desde o final de 2024, que parte das carteiras de crédito que vinha comprando do Banco Master não tinha lastro. Mas as áreas técnicas só conseguiram entender que o banco estava sendo passado para trás entre abril e maio de 2025.
O Metrópoles teve acesso exclusivo à íntegra do relatório sigiloso produzido por um grupo de trabalho (GT) constituído pelo BRB para analisar a qualidade daquelas carteiras. O documento mostra, passo a passo, como o grupo foi percebendo a enrascada em que o BRB havia se metido.
O GT foi criado formalmente em 26 de fevereiro de 2025, mas só passou a cobrar explicações do Master em 2 de abril, três dias úteis depois de o BRB anunciar a compra de 58% das ações do Banco Master. Logo, os fatos tratados a seguir aconteceram enquanto a incorporação de um pelo outro já estava definida, faltando o aval do Banco Central – que rejeitaria o negócio.
Uma primeira reunião online foi marcada para o dia 4 de abril e adiada, a pedido do Master, para o dia 8. A proposta era comprovar a qualidade dos créditos consultando por CPFs selecionados.
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Ao questionar sobre os contratos de uma pessoa em específico, o grupo de trabalho ouviu pela primeira vez a palavra “associação”. “Aí tem a operação que o banco (Master) comprou da Associação e cedeu para o BRB, que aí são outros valores. Mas aí a averbação é feita pela Associação, não pelo Banco (Master)”, disse um representante do Master.
Em todos os contratos de venda de carteiras para o BRB, o Master assegurava que só estava vendendo cédulas de crédito bancário (CCB) originadas pelo próprio banco. Ali, o BRB descobria que na verdade havia uma “associação” gerando os contratos.
Spoiler: era a Tirreno. Mas o GT ainda não sabia.
Na mesma reunião, em 8 de abril de 2025, o GT também descobriu que nem todas as consignações se referiam ao cartão benefício do Credcesta, como dizia o Master.
O encontro foi suspenso depois de 45 minutos, pelo Master. Até ali, haviam sido consultados 47 contratos, de 15 pessoas distintas. Oito existiam, mas o banco de Daniel Vorcaro não tinha qualquer informação sobre os outros 39. O GT anotou:

Reclamações ligam sinal de alerta
Em 11 de abril a equipe da Gerência de Cessão de Carteira de Crédito (Gecec) comunicou formalmente aos seus gestores, por e-mail, sobre um aumento expressivo nas reclamações de clientes relacionadas ao não reconhecimento de contratos originados pelo Banco Master e posteriormente adquiridos pelo BRB.
Já havia acontecido o mesmo no fim de 2024, quando a situação foi resolvida com o Master formalmente pedindo de volta carteiras negociadas com o BRB e oferecendo outras para substituí-las. Isso aconteceu ao menos três vezes entre janeiro e fevereiro de 2025, conforme outro conjunto de documentos obtido pela coluna.
Na ocasião, segundo o GT, ainda que tenha sido identificado um padrão recorrente nos contratos que geravam as reclamações, não foram adotadas medidas efetivas para apuração detalhada do ocorrido, tampouco iniciativas de tratativa imediata junto ao Master.
Desta vez, a persistência de dois clientes em específico – Neide Pereira Simões e Eronildes Biserra de Lima – fez com que a situação “ganhasse contornos preocupantes”, conforme escreveu o GT. Ambos relataram, por diversos canais de atendimento, que o BRB estava cobrando deles dívidas que eles não haviam contratado.
Eronildes, por exemplo, abriu 12 reclamações dizendo que havia firmado dois contratos com o Credcesta mas não reconhecia outros três, que vinham sendo cobrados pelo BRB, cada um com mais de 90 parcelas e desconto total de R$ 825 por mês.
Sendo verdade a queixa deles, o BRB havia comprado créditos inexistentes e estava fazendo cobranças irregulares de pessoas que não tinham nada a ver com isso.
Quem é a tal associação?
Uma nova reunião foi marcada para o dia seguinte, 9 de abril, e diversas vezes adiada com o Master dizendo que estava com dificuldades de contatar as “associações”.
Só em 17 de abril, quando um gerente foi até a sede do Master, é que o banco topou nova “consulta assistida”, avisando que não tinha acesso aos contratos gerados pela “associação”, já que a área jurídica da “associação” não permitia esse tipo de consulta.
Neste encontro, o BRB verificou que os valores averbados em todos os quatro benefícios de INSS consultados eram inferiores aos valores somados das parcelas dos contratos que havia adquirido. Ou seja: o BRB havia pagado mais do que receberia por eles.
Depois de quase 80 minutos de reunião, o BRB solicitou o nome da “associação” com a qual o Banco Master realizou a compra das operações. “Porém a equipe não soube confirmar essa informação.”
Já as duas visitas realizadas à sede do Master serviram apenas para acertar pendências marginais já identificadas, como um repasse de R$ 15,5 milhões que o banco de Vorcaro estava devendo ao BRB. Mas a equipe do GT voltou com má impressão:

Surge a Tirreno
Novas visitas à sede do Master em São Paulo ocorreram nos dias 29 e 30 de abril. Na primeira delas, Alberto Felix, da tesouraria do Master, confirmou que parte dos contratos havia sido originada em outra instituição, sem dar nome às tais “associações”.
O GT também se reuniu com Allan Machado, responsável pela conciliação dos repasses no Banco Master, que barrou qualquer interação com a equipe de conciliadores do banco.
Foi entre 29 e 30 de abril que o BRB descobriu que só as transações feitas com o Master em 2024 eram de carteiras originadas pelo banco de Vorcaro. A “quase a totalidade” do que o BRB havia adquirido até ali em 2025 eram operações originadas por terceiros, as tais “associações”.
Até aquela data, as compras – tratadas como parte de um “objetivo estratégico” pela diretoria do BRB – já ultrapassavam R$ 10,7 bilhões.
Ao menos para o grupo de trabalho, a palavra “Tirreno” só apareceu pela primeira vez em 2 de maio, quando Alberto Felix enfim respondeu, por e-mail, qual era a instituição originadora das carteiras que o BRB havia comprado.
Paralelamente, conforme mostrou nesta segunda-feira (22/4) a coluna Grande Angular, Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB (e preso sob a acusação de negociar receber R$ 167 milhões em propina) cobrava Vorcaro do envio de documentos.
“Amigo, precisamos dos documentos. A operação não vai sair sem eles. Estamos correndo um risco desnecessário. Na minha avaliação, as equipes deveriam ter feito isso ontem. Bacen está me perguntando do outro lado, se está tudo certo. Precisávamos ter recebido e concluído a análise hoje. A operação não tem mais condições de sair na primeira hora. Precisamos receber, revistar documentos, ter parecer jurídico interno…”, escreveu em 4 de maio.
No dia seguinte, em 5 de maio, o Master disponibilizou, em pasta compartilhada, os contratos firmados com a Tirreno. Em consulta ao Banco Central, o grupo de trabalho descobriu que a empresa não era autorizada a operar como instituição financeira. Logo, não poderia ter gerado os empréstimos que “vendeu” ao Master para este repassá-los ao BRB.
O GT então passou a cobrar cópias dos contratos devidamente registrados em cartório e pedindo uma reunião, que, o Master negou até nova intervenção do presidente do BRB, que disse a Vorcaro que não tinha qualquer possibilidade de o BRB fazer mais negócios relacionados às carteiras de crédito “sem resolver os assuntos”: “Zero chance”.
O grupo de trabalho saiu do encontro realizado no dia 15 de maio listando “nuances operacionais e jurídicas que impactam diretamente a conformidade e a transparência dos processos” (vide abaixo)

Naquele encontro, o Master revelou que comprava carteiras da Tirreno “exclusivamente” para depois revendê-las ao BRB. Também contou que tais operações não eram registradas no balanço patrimonial do Master.
Depois que o Master já estava liquidado, Daniel Vorcaro revelou ao STF que o BRB nunca pagou pelas “carteiras”, que na verdade eram vento.
Documentos mostram que BRB era passado para trás
No papel, a história contada ao grupo de trabalho do BRB era outra. Documentos encaminhados pelo Master em 15 de maio mostravam que, entre 24 de dezembro de 2024 e 24 de abril de 2025 o banco de Vorcaro havia firmado 26 contratos com a Tirreno, com “preço de aquisição” que somavam R$ 6,347 bilhões.

Apesar do enorme volume de dinheiro envolvido, as assinaturas haviam sido registradas apenas manualmente, com firma reconhecida somente em 13 de maio, após pedido do BRB. “A assinatura física e o reconhecimento posterior podem levantar questionamentos quanto à tempestividade e à formalização adequada dos documentos, sobretudo considerando o volume e a relevância financeira das operações envolvidas”, apontou o grupo de trabalho.
O GT percebeu a fraude: “A assinatura física e o reconhecimento posterior podem levantar questionamentos quanto à tempestividade e à formalização adequada dos documentos, sobretudo considerando o volume e a relevância financeira das operações envolvidas”.
Além disso, ao comparar datas e valores dos contratos entre Tirreno, Master e BRB, o grupo de trabalho observou um padrão.
Por exemplo, o mês de abril. No dia 3, o Master comprou uma carteira da Tirreno por R$ 252 milhões. No dia seguinte, vendeu-a para o BRB por R$ 450 milhões. No dia 10, pagou R$ 422 milhões à Tirreno. No dia seguinte, recebeu R$ 749 milhões do BRB (no limite do que a diretoria do BRB podia aprovar sem passar pelo Conselho de Administração).
No dia 11 (sexta), pagou R$ 329 milhões à Tirreno. No dia 14 (segunda), recebeu R$ 585 milhões do BRB. No dia 14, pagou R$ 72 milhões à Tirreno. No dia seguinte, recebeu R$ 128 milhões do BRB. No dia 24, pagou R$ 390 milhões. No dia seguinte, recebeu R$ 800 milhões. Veja em detalhes abaixo:

No total, a Tirreno havia recebido (no papel) R$ 6,347 bilhões do Master por carteiras fictícias que o Master depois vendeu ao BRB por R$ 11,530 bilhões.
O relatório foi concluído em 19 de maio, assinado por Susana Alvarenga Ofugi, como coordenadora, e outros quatro membros.
Enquanto aguardava o relatório do GT, em 5 de maio (logo depois de o BRB descobrir sobre a Tirreno) a diretoria colegiada do BRB aprovou a opção de não acionar pelos próximos 120 dias a cláusula de recompra de carteiras – que obrigaria o Master a, na prática, devolver o dinheiro recebido pelas carteiras fraudulentas. A coluna já mostrou que a opção foi para não melar a tentativa de compra do Master.
Ato contínuo, a diretoria determinou a compra de mais R$ 750 milhões em carteiras do Master.