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Cigarros prejudicam 3 a cada 10 adolescentes em MG: ‘Voltou a ser moda’, advertem especialistas

Fonte: otempo.com.br | Data: 27/04/2026 07:25:23

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Foi durante um intervalo do colégio que Maria* experimentou um cigarro de palha pela primeira vez. Ela tinha 15 anos e cursava o primeiro ano do ensino médio. Entre o seu grupo de amigas, o hábito já era comum, principalmente na pausa para o almoço. Na época, a adolescente acreditava que seria “imune” ao vício e pensava poder parar de fumar quando quisesse. Mas a situação que se apresentou nos anos seguintes não foi essa. Do cigarro de palha, ela passou a consumir cigarro eletrônico. A realidade vivida por Maria é a mesma de três em cada dez adolescentes em Minas Gerais, conforme a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE). Para especialistas, o consumo de cigarro tem deixado de ser um hábito socialmente reprovável. Eles alertam, ainda, que os riscos à saúde provocados pelo tabagismo são potencializados durante a adolescência e início da vida adulta, já que o sistema neurológico ainda está em desenvolvimento.

O estudo conduzido pelo Ministério da Educação em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2024, e divulgado no fim de março deste ano, separa o cigarro comum do cigarro eletrônico, embora ambos tenham nicotina. No caso do vape, 29,9% dos adolescentes de 13 a 17 anos já o experimentaram. Em Belo Horizonte, o indicador é de 31%. Já o percentual dos que fumaram o cigarro tradicional alguma vez na vida é de 21,9%, acima da média nacional, de 18,5%. Outra pesquisa do Ministério da Saúde apontou que o consumo de cigarro aumentou significativamente pela primeira vez em 20 anos: saltou de 9,2%, em 2023, para 11,5%, em 2024. A faixa etária mais jovem mapeada pelo estudo foi a que apresentou maior alta. Entre o público de 18 a 24 anos, o índice passou de 6,6% para 13,2%.

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Esse é o caso da estudante Anna Laura Gomes, de 25 anos. O hábito de fumar frequentemente surgiu aos 21, quando ela começou a ter mais contato com outros tabagistas. No entanto, o primeiro trago aconteceu aos 17, em encontros com os amigos. O uso, “eventual” durou quatro anos. “O consumo de bebida alcoólica também influenciou bastante, porque geralmente acabava me estimulando. Com o tempo, surgiu a necessidade de fumar durante a semana também, até que o uso se tornou diário, o que acontece há cerca de três meses”.

Dois fatores explicam o aumento de fumantes no Brasil, conforme a professora Deborah Carvalho Malta, da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O primeiro é a estabilização do preço do cigarro ao longo dos últimos anos. O segundo é a propagação do cigarro eletrônico. Na visão da especialista, houve redução das campanhas de conscientização sobre os malefícios do cigarro, o que fez o hábito voltar a ser socialmente aceito. “O que estava fora de moda, voltou a ser. E agora com uma nova roupagem, distante daquele cigarro branco comum, mas com impactos que podem ser até maiores”, afirma.

No caso de Maria, ela conta que queria fazer parte do grupo de amigas e, por isso, começou a fumar. Depois do primeiro trago, percebeu que o hábito funcionava como um “atestado social”. Para ela, não existia diversão sem cigarro. “Eu não achava que seria excluída, mas, na minha cabeça, queria pertencer ao grupo. Em festas, o fumódromo era o ambiente mais ‘cool’ que tinha, onde aconteciam os papos legais”, detalha. A migração do cigarro de palha para o eletrônico começou após três anos de tabagismo. A facilidade de não precisar de um isqueiro nem de se afastar das pessoas para fumar agradou. Depois disso, ela passou a gastar cerca de R$ 150 por mês. O ponto crítico chegou quando Maria passou a dormir com o cigarro eletrônico ao lado da cama. Ela conta que, durante a noite, era comum acordar para fumar. Os sintomas do vício eram visíveis.

“Eu sentia os efeitos da abstinência muito forte. Tenho um irmão que, na época, estava entrando na adolescência. Lembro que, quando ele entrava no meu quarto, eu tentava esconder, para que ele não visse nada”, relata.

Marketing impulsiona consumo de ‘vape’

Proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) há quase duas décadas, os cigarros eletrônicos, com odores por vezes agradáveis, são atrativos, especialmente entre os jovens. No entanto, são ainda mais prejudiciais que o cigarro tradicional, adverte a professora Erika Gisseth Leon Ramirez, do Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de Enfermagem da UFMG. Com isso, os efeitos da dependência e da abstinência são ainda mais nocivos. Isso acontece porque a quantidade de nicotina nesses dispositivos é maior do que em um cigarro convencional. “Nesses dispositivos, a nicotina tem uma composição diferente, que causa efeitos mais intensos em um espaço de tempo muito curto”, explica.

A autônoma Renata Gomes, de 32 anos, sente na pele a dificuldade de abandonar o dispositivo. Ela fumou cigarro pela primeira vez aos 15 anos. No entanto, o que era esporádico virou rotina à medida que os problemas da vida apareciam. “Eu acho que tem muita relação com ansiedade e estresse. Acaba sendo uma válvula de escape”, diz. Atualmente, ela gasta cerca de R$ 100 por mês com cigarro eletrônico. Recentemente, chegou a ficar cinco meses sem fumar, mas voltou. A tentativa de parar, no entanto, ainda faz parte dos planos. “Eu quero parar. Estou em um momento de cuidar mais da minha vida”, afirma.

Na visão da professora Erika Gisseth Leon Ramirez, a Política Nacional de Controle do Tabaco investiu em campanhas de prevenção e no controle de impostos relacionados ao cigarro tradicional. No entanto, é necessário criar mecanismos, principalmente fiscalizatórios, para frear o consumo dos dispositivos eletrônicos. “A nossa preocupação agora é essa: são as cores, os sabores, o cheiro. A moda é usar vape. É achar que, por não ter fumaça e não ter cheiro, ele é menos danoso do que o cigarro branco”, afirma. Ela também defende o reforço em campanhas de conscientização. “Muitas pessoas não sabem dos prejuízos causados pelo vape”, diz.

A professora Deborah Carvalho Malta também aponta a atuação da indústria do cigarro na promoção de estratégias de marketing em torno do vape, inclusive com o uso de influenciadores. “São figuras públicas propagando informações falsas de que o cigarro eletrônico é seguro. É preciso ampliar as campanhas educativas, fechar perfis e estabelecer multas para quem vende um produto que é proibido e deve continuar sendo”, afirma.

A especialista acrescenta que o vape, além dos impactos na saúde, também representa um problema ambiental. Por conter bateria de íon-lítio, considerada de difícil controle em caso de incêndio, o dispositivo pode agravar situações de risco. “Essas baterias podem explodir. O acúmulo desses equipamentos tem preocupado autoridades em várias partes do mundo”, diz.

Políticas internacionais

O parlamento do Reino Unido aprovou um projeto de lei que proíbe a compra de cigarros e vapes por pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009. A restrição é permanente e impede que, quem hoje tem 17 anos ou menos, possa adquirir os produtos ao longo da vida, mesmo após atingir a maioridade. As regras também abrangem a compra desses produtos em nome de terceiros, a exibição irregular de produtos ou preços e irregularidades no licenciamento do varejo. 

A multa prevista é de 200 libras (cerca de R$ 1.340). Os recursos arrecadados com as penalidades serão alocados em ações de fiscalização da própria lei de tabaco e vapes ou em atividades relacionadas à saúde pública. A aplicação da lei ficará a cargo das autoridades locais assim que receber a sanção real. Além disso, o texto dará ao governo poderes para ampliar a proibição de espaços interiores para áreas externas, como parques infantis e locais próximos de escolas e hospitais. 

Em relação aos dispositivos eletrônicos de fumar, as autoridades também poderão restringir os sabores e embalagens, além de proibir os equipamentos em lugares onde fumar seja proibido. Segundo o Serviço Nacional de Saúde britânico, por ano, 75 mil pessoas morrem por ano por causas relacionadas ao tabagismo.

Com informações de Folha Press

*nome fictício