Mês de conscientização sobre o autismo: identificação precoce dos sinais e inclusão
Fonte: correiodopovo.com.br | Data: 27/04/2026 07:23:12
O mês de abril é marcado pela conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), em referência ao Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado em 2 de abril. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2007, com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre a condição neurológica, incentivando o diagnóstico precoce, além de combater o preconceito e incentivar políticas de inclusão e apoio.
Por isso, o mês conta com campanhas que visam a promover a conscientização do transtorno, para que ele seja acolhido na sociedade mas, também, que auxilie na formação de políticas públicas para as pessoas que têm o espectro. O Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que 2,4 milhões de pessoas têm o diagnóstico de TEA no Brasil, o que corresponde a 1,2% da população.
Abril Azul é comemorado todos os anos como um mês dedicado à conscientização do autismo
| Foto: Alina Souza
O que é o TEA
A condição do neurodesenvolvimento é caracterizada, principalmente, por diferenças na comunicação e na interação social, além da presença de comportamentos repetitivos e interesses restritos. “É um cérebro que pensa um pouquinho diferente”, resume Luciana Kael, fonoaudióloga da Clínica Estudo Desenvolvimento Infanto Juvenil (Cedij), um centro especializado no atendimento interdisciplinar de crianças com TEA em Porto Alegre. “Mas o autismo não se cura, até por não ser doença”. Ela lembra que, nesse escopo, o espectro abrange diferentes características de gravidade e de comprometimentos de pessoa para pessoa, exigindo que ele seja acolhido e entendido.
Apesar de ainda não ser evidente uma única causa para o TEA, diversos estudos indicam que a condição está associada a uma combinação de fatores genéticos e ambientais que influenciam o desenvolvimento do cérebro. A partir do primeiro ano de vida, há sinais que podem identificar a existência do transtorno. Entre eles, se o bebê não sorri de forma espontânea, não responde ao ser chamado pelo nome e não faz contato visual consistente. “Ele não balbucia, como a gente chama, não emite nenhum som para se comunicar, não aponta, não mostra interesse em algo”, explica Luciana. Nessa idade, já é normal, por exemplo, dizer as primeiras palavras e apontar para algo que lhe interessa. Qualquer ação diferente já é um sinal de alerta.
Na Clínica Estudo Desenvolvimento Infanto Juvenil (Cedij), é realizado atendimento interdisciplinar de crianças com TEA em Porto Alegre
| Foto: Mauro Schaefer
A partir dos três anos, é necessário atenção caso a criança não consiga formar frases, brincar sozinha, e costume repetir palavras ou frases fora de contexto. Além disso, que tenha reações mais intensas a mudanças de rotina e uma sensibilidade exagerada com barulhos altos, como colocar a mão no ouvido, e demonstrar incômodo com luz, textura ou toque.
Na vida adulta, em que o diagnóstico é feito de forma tardia, o transtorno é manifestado de maneira que traga algum tipo de prejuízo no dia a dia da pessoa. Entre os comportamentos, há dificuldades com hierarquias implícitas ou regras não ditas, e dificuldades para entender sutilezas na linguagem, em que alguma regra não está clara. Por exemplo, a ironia. Além disso, há também um interesse maior em algum tema ou assunto específico, com hiperfoco.
“Tem autistas adultos, principalmente sem os diagnósticos, que são inseridos na sociedade e acabam tendo dificuldades, mas com o tempo vão aprendendo” como agir, diz Luciana. Isso tem um nome: chama-se masking. O mascaramento é feito para que a pessoa possa ser inserida em algum ciclo social, mascarando a sua dificuldade. No entanto, essa ação gera uma fadiga social, lembra a fonoaudióloga.
Esse cenário é mais visto em mulheres. São com elas, também, que o comportamento relacionado ao autismo é mais “aceito”, lembra a profissional. “As mulheres aprendem desde cedo a imitar comportamentos sociais para se encaixar. Muitas vezes, quando tem uma dificuldade maior, são chamadas de tímidas, são sensíveis demais, são muito perfeccionistas”, diz.
Desenhos de crianças na Clínica Estudo Desenvolvimento Infanto Juvenil (Cedij)
| Foto: Mauro Schaefer
Luciana explica que os diagnósticos devem ser feitos a partir de uma avaliação neuropsicológica. O atendimento com psiquiatra também é importante, principalmente porque, hoje em dia, ela lembra que há muitas características que se assemelham ao TEA, mas que podem ter relação com outros transtornos, como Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
Com a popularização dos vídeos curtos nas redes sociais, muitas postagens tratam dos sintomas relacionados ao autismo. Luciana destaca que é necessário ter cuidado com o autodiagnóstico. “Não existe um auto diagnóstico sem o médico. A internet vai ajudar para ter a informação inicial, mas a busca tem que passar para equipe especializada”, destaca.
O diagnóstico na vida adulta
O aumento da discussão sobre o transtorno também começou a levar outras pessoas a irem atrás dos seus diagnósticos, mesmo que tardiamente. É o caso de Yuki Moralles, de 26 anos. Quando criança, já tinha suspeita de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), e na pré-adolescência, também de Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD). Descobriu o TEA aos 25 anos. “Conforme fui crescendo, foi me trazendo alguns tipos de prejuízos, e na vida adulta decidi ir atrás do diagnóstico”, disse.
Sua busca foi, primeiramente, por meio de psiquiatras, mas o transtorno não foi identificado no início. O resultado veio ao buscar um neuropsicólogo. Sempre mascarando comportamentos e gestos, enquanto crescia sem diagnóstico, Yuki, hoje, descreve como um “misto de sentimentos” saber o que tem. “É finalmente uma explicação para alguns comportamentos, pensamentos, sentimentos, e também um alívio para poder buscar o atendimento correto, as maneiras adaptativas para o trabalho, para o estudo, o cotidiano geral, medicação e outros tipos de terapia. Foi difícil chegar nesse resultado por tantos anos tentando e buscando”, disse.
Campanha promove conscientização
Para Yuki, a conscientização sobre o transtorno é importante para que os pais, principalmente, possam fazer com que o diagnóstico chegue ainda na infância. “Para elas se entenderem no mundo mesmo. Quando tu tens uma neurodivergência, é importante que tu saiba se adaptar a esse meio”, disse.
“A conscientização traz a possibilidade da criança receber esse diagnóstico mais cedo e também de outros adultos conseguirem se entender buscando esse diagnóstico, conseguirem fazer suas adaptações na vida, no trabalho, na socialização, para que não cause tanto sintoma negativo, tanto prejuízo”, complementa.

Abril Azul é comemorado todos os anos como um mês dedicado à conscientização do autismo
| Foto: Alina Souza
Mais da metade dos atendimentos em neuropediatria em Hospital de Porto Alegre é de pacientes com autismo
O aumento no número de diagnósticos de pessoas com autismo tem mudado a rotina dos serviços de saúde. No Hospital Criança Conceição (HCC), em Porto Alegre, que integra o Grupo Hospitalar Conceição, pacientes com TEA já representam mais da metade dos atendimentos em neuropediatria.
O cenário reflete a pressão crescente sobre a rede pública de saúde, especialmente porque mais da metade das pessoas com autismo no estado depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS). Os dados são da 5ª edição da pesquisa sobre as características da população com TEA, divulgada pela Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência e Altas Habilidades no RS (Faders).
No Hospital Criança Conceição, uma das principais portas de entrada para esses casos é justamente a neuropediatria, onde atuam especialistas dedicados ao atendimento ambulatorial infantil. Para a neurologista infantil Michele Becker, doutora em saúde da criança e do adolescente, o aumento da demanda está relacionado à maior identificação dos casos. Ainda assim, o diagnóstico precoce segue como um dos principais desafios.
Os casos são direcionados via sistema de regulação do SUS, que define o nível de atendimento — secundário ou terciário — de acordo com a complexidade. Após o diagnóstico, o cuidado passa a ser contínuo e articulado dentro do próprio Grupo Hospitalar Conceição, com acompanhamento multiprofissional. As crianças podem ser atendidas por diferentes áreas, conforme a necessidade clínica, incluindo terapia ocupacional, neurologia pediátrica, fonoaudiologia, apoio nutricional, psicologia e psiquiatria, a partir de um plano terapêutico individualizado.
Para responder ao aumento da demanda, o Grupo Hospitalar Conceição tem estruturado uma linha de cuidado que vai do acesso inicial ao acompanhamento contínuo. Um dos avanços é a criação de protocolos voltados ao atendimento de pessoas com deficiências ocultas, como o autismo, que garantem prioridade e adaptação dos ambientes, com redução de estímulos sensoriais.
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