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Filme ‘Papagaios’ reflete sobre fama ao mostrar vida de ‘papagaios de pirata’

Fonte: estadao.com.br | Data: 28/04/2026 18:32:49

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Há uma figura que qualquer brasileiro que cresceu assistindo telejornal vai reconhecer: o sujeito que aparece em todo velório de famoso, em todo acidente, em toda tragédia televisionada, sempre bem posicionado atrás do repórter. É o chamado “papagaio de pirata”. É essa figura — ao mesmo tempo cômica, patética e estranhamente fascinante — que Douglas Soares colocou no centro de seu primeiro longa de ficção, Papagaios, em cartaz nos cinemas brasileiros após uma passagem vitoriosa pelos festivais.

No 53º Festival de Cinema de Gramado, saiu com quatro prêmios, incluindo o Kikito de Melhor Ator para Gero Camilo e o troféu do Júri Popular de Melhor Longa-Metragem — um sinal de que a obra encontrou não apenas o aval da crítica, mas uma comunicação genuína com o público. Antes de Gramado, já havia passado pelo Bravo Film Festival, em Los Angeles, onde Camilo levou o prêmio de Melhor Atuação, e acumulou reconhecimentos no Festival Iberoamericano de Cinema de Sergipe.

O papagaio como espelho

A ideia nasceu de uma memória afetiva. Soares cresceu na Maré e no Méier, e se lembra de reconhecer no mercado os mesmos rostos que via todos os dias no telejornal da tarde. “Tinha um homem que vivia com óculos escuros, aparecia sempre na TV com esse óculos porque dizia que lia a aura das pessoas”, conta o diretor ao Estadão. “E eu encontrava ele no mercado”. Lá na Maré havia também o Índio Maré, uma personalidade local que chegou até a se candidatar a um cargo político. Essas figuras, explica Soares, eram uma espécie de celebridade periférica — a versão suburbana do artista global que se esbarra na Zona Sul.

Gero Camilo e Ruan Aguiar em ‘Papagaios’, de Douglas Soares

 

Foto: Olhar Filmes/Divulgação

Em 2015, revendo filmes de gênero, ele se lembrou dessas figuras da infância. O Abutre, de Dan Gilroy, foi o gatilho: um thriller seco e perturbador sobre um freelancer sem escrúpulos que filma cenas de crime para vender a emissoras de TV. A comparação não é forçada — Papagaios bebe da mesma fonte de desconforto, aquele mal-estar que vem de acompanhar alguém cujas motivações nunca se consegue acessar por completo.

Soares passou dez anos desenvolvendo o projeto, entre laboratórios de roteiro, consultorias e reescritas, até chegar à versão que hoje protagonizam Gero Camilo e Ruan Aguiar.

Tunico e Beto

No filme, Camilo interpreta Tunico, o mais famoso papagaio de pirata do Rio. Ele é o tipo de presença que domina o quadro mesmo sem ser o foco da câmera. Depois de cobrir um grave acidente em um parque de diversões, ele conhece Beto (Ruan Aguiar), um jovem misterioso que começa a segui-lo e aprende com ele os truques do ofício. A partir daí, o suspense se instala e não larga mais o espectador.

Para Camilo, foi um território novo. “Foi mergulhar num gênero de cinema que não estava acostumado”, diz o ator. “Ruan Aguiar foi fundamental nessa construção dual de personagens que constroem juntos uma atmosfera de suspense”. O resultado é uma das grandes atuações do ano: Camilo constrói um personagem que hipnotiza pelo carisma ao mesmo tempo em que inquieta pela opacidade. O público ri de Tunico, simpatiza com ele, e nunca para de desconfiar.

Soares conta que sempre soube que o papel seria de Camilo. “Eu sempre fui muito fã dos filmes dele, da participação dele em Bicho de Sete Cabeças, Carandiru. Eu sabia que o Tunico tinha que conquistar o espectador de primeira”, afirma. Sem opção B na cabeça, o diretor foi escrevendo boa parte do roteiro já com a voz de Camilo no ouvido.

A construção do personagem foi coletiva e processual. A preparadora Tati Muniz conduziu ensaios que não eram leituras do roteiro, mas exercícios de intimidade, de chegar ao personagem pelo sentimento. Soares acompanhou tudo, páginas abertas, pescando o que surgisse para reescrever. Uma das cenas mais marcantes do filme — os dois personagens dançando na frente de um espelho ao som de Nelson Gonçalves — nasceu exatamente desse processo. “A cena já existia, sempre teve essa coisa do espelho, esse balé de se posicionar, de roubar lugar”, lembra o diretor. “Mas a música veio das conversas, desses questionamentos sobre a relação entre Beto e Tunico, que pode ser de interesse sexual, de dependência afetiva, ou paternal”.

Diretor Douglas Soares dirige seu primeiro longa de ficção, ‘Papagaios’

 

Foto: Iuri Sorokin/Divulgação

Desconforto intencional

Papagaios se passa no início dos anos 2000 — celulares tijolão, TVs de tubo dividindo espaço com as primeiras telas de LCD, o Instagram ainda inexistente. Mas o filme fala diretamente sobre agora. Soares enxerga nos influenciadores de hoje os herdeiros diretos dos papagaios de ontem: figuras que tomaram as rédeas da própria imagem, que se colocam em primeiro plano sem a mediação do repórter, e que levantam as mesmas questões éticas que o filme explora.

“Sempre existiu essa busca desenfreada por fama, porque o desejo de ser validado pelo outro, de ser visto, de existir é uma coisa que está para além do que a gente conhece”, diz Soares. Camilo vai na mesma direção, mas sem generalizações fáceis. “Hoje qualquer um pode ser famoso a qualquer instante, de qualquer forma. Fica difícil fazer uma análise generalizada. Mas no caso dos que só buscam a fama e não mergulham profundo em suas experiências, aí eu discordo do personagem Tunico [na postura]”, diz.

O filme não diagnostica nem julga seus personagens — o próprio Soares faz questão de deixar isso claro. Os papagaios de pirata reais que ele conheceu eram figuras de bom caráter, excêntricas e fascinantes. A ficção lhe deu liberdade de ir além: Beto carrega indícios de sociopatia que o roteiro trabalha com cuidado. As ambiguidades são intencionais. As zonas escuras são o objetivo.

Para Camilo, esse tipo de obra é insubstituível. “Cada obra de arte carrega em si um mistério, uma linguagem, uma estética”, diz. “Quanto mais explorarmos linguagens e gêneros, melhor para o cinema e para a democracia de conteúdos”.