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Eu e meu fígado num papo reto e intimista

Fonte: folhape.com.br | Data: 30/04/2026 07:07:12

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Dias atrás, no silêncio da noite e no auge das minhas reflexões, vivi um momento inusitado. Acho até que meio transcendental, fora do meu padrão de entendimento sobre os aspectos “kantianos” da metafísica. E não foi que me vi num papo orgânico, que considerei como o maior e mais verdadeiro registro em linha reta do mundo?  O assunto tem lá sua seriedade, porque envolve uma relação minha com meu fígado. No bojo dos 65 anos que hoje comemoro, está por trás a superação do maior desafio que a vida me impôs. Apesar desse contexto difícil, coube-me esse diálogo franco, com quem me parecia o alvo mais intangível: meu fígado.

Dito isso, ensaio meu relato sobre esse fato. Passei a reconhecê-lo como uma experiência meio pirada, como se fosse um devaneio realista. Se é que isso exista para mim, diante da minha carga de racionalidade, muitas vezes “careta”. Sem compromissos místicos.

Eu – E ai, meu velho companheiro, acho que pintou uma decisão, sobre sua hora. Você terá que ceder seu espaço para outro órgão.

Fígado – Oxente, isso é uma ordem de despejo? 

Eu – Sim, é como se assim fosse. Mas, a decisão não foi minha. Partiu de quem avaliou esse seu jeito silencioso e perigoso de agir, que começou a devastar minha barriga. 

Fígado – Como assim? Tô aqui resistindo. E você vai permitir que eu saia do meu canto?
Apesar dos maltratos recebidos, sempre fui fiel e fiquei do seu lado.

Eu – Calma aí com esse discurso de transferência de culpa. Nunca lhe dei motivos. Sequer um porre. E poupei você do contágio de outras doenças.

Fígado – Você esquece que me engordurou? Seus hábitos alimentaram me fragilizaram. E, de qualquer forma, consegui proteger uma parte minha, que lhe pôs  na ativa, sem restrições. Só agora que seres estranhos me invadiram e lhe pôs sob ameaça. 

Eu – Daqui de fora, pude ver um retrato daí de dentro. A banda apagada lhe tirou a luz que lhe colocava livre para funcionar  plenamente..A usina orgânica que você representa, entrou em colapso. E eu tenho ainda muito que contar com sua energia, para seguir minha trajetória. 

Fígado – Entendo. Parece que chegou a dura realidade para nós dois. Lá atrás, no ciclo do tempo, fui ignorado com relação ao meu papel aqui dentro. Se hoje você está assim, foi porque não me avaliou bem. Você me encheu de gorduras e outras porcarias. Ou não foi?

Eu – Ate que entendo essa sua reação meio ríspida. Só que não foi bem assim. Você alcançou o abismo da fragilidade e sequer me avisou. Ficou quieto e silencioso.  Fez justiça para um ditado popular exaltado aqui fora, que diz sobre o modo de se “agir e reagir com o fígado”, como se fosse pura vingança.

Fígado – Não foi isso. Pense no contrário. “Agir com o fígado” pode também explicar atos de coragem. Dei motivos para você encarar essa realidade, resistir e não desistir. Se isso é para quem tem “fígado”, acho que meu lado produtivo passou essa lição. 

Eu – Pode ser. Por isso, agradeço essa reação da sua banda boa. Foi um teste de resistência. Agora, chegamos no limite. Esses invasores são perigosos e não há mais como seguirmos juntos.

Fígado –  O que tenho a dizer é que lutei, segurei a onda até onde deu. Só me resta mesmo passar o bastão e torcer por vc. E que esse substituto chegue com minhas melhores características.

Eu – Há de chegar. Obrigado.

Que essa conversa natural e despretensiosa, capaz de ter mexido com minha vida, possa trazer outros ensinamentos importantes e diferentes. Quero falar sobre políticas públicas, estímulos às doações e acolhimentos. Sem esses elementos, muitos pacientes como eu estariam numa fila bem indesejada. Por trás do compromisso de salvar vidas, há uma cadeia integrada de conexões interdisciplinares, que precisa ser mais difundida e publicizada. 

Essa fase de vida que agora atravesso, pode até ser a mais difícil, mas representa mais um dos tantos desafios que já enfrentei e superei. Sempre com fé, coragem e resiliência. Com essa trajetória, entendo que, por esse momento, tenho que cumprir alguma missão. Buscar meios de retribuição. Por isso mesmo, aproveito esse ensejo para trazer à cena alguns pontos, daquelas conexões que citei acima e que dizem respeito ao valor que precisa ser dado ao transplantes de órgãos. 

De imediato, vale enaltecer o trabalho sério e eficiente do SUS que, nessa condução das ações executivas em favor da saúde de todos, parece que transforma uma política pública numa genuína questão de Estado. O SUS, apesar de maltratado pela crítica ácida de quem não o conhece, representa um referencial de saúde pública para o mundo. Mérito derivado de valores como esse, assim como, as vacinações e tantos outros serviços de competência. 

Em adição, vale o destaque, ainda, para a decisão governamental de ter estabelecido que todos são doadores em potencial, exceto quando a discordância tenha sido registrada em vida pelo doador, ou pelo impedimento familiar. Essa medida aumentou a oferta de órgãos e, consequentemente, reduziu o nível da ansiedade e expectativa de quem aguarda sua vez na fila.

Por fim, ressalto uma particularidade bem pernambucana agregada à política pública, que foi a criação de uma estrutura de acolhimento aos pacientes da fila ou em tratamento. Assim, a APAF (Associação Pernambucana de Apoio aos Doentes de Fígado) foi constituída, enquanto ideia tornada real pelo Dr. Cláudio Lacerda e sua extensa equipe. O modelo agrega aos hepatopatas que esperam ou se tratam, um recanto que serve de conforto e apoio logístico, justo para os que têm dificuldades materiais e financeiras para se tratarem.

Diante do exposto, minha nova missão pública é mostrar a importância da doação e dos transplantes. Uma preocupação que também passei a considerar diz respeito à atenção que as crianças enfermas merecem, posto que tem maiores dificuldades para acessar os órgãos que necessitam.

A vida é ensino e aprendizado. O tempo que me vale hoje é o que tenho para celebrá-la, intensamente. Não só a minha. Mas, principalmente, as que fazem tantos outros enfermos contarem com a possibilidade de celebrarem a superação dos seus respectivos desafios. 

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