Produtora do filme ‘O Riso e a Faca’ explica como funciona uma coprodução | VEJA
Fonte: veja.abril.com.br | Data: 30/04/2026 09:23:19

Forasteiro em uma metrópole da Guiné-Bissau, o engenheiro ambiental português Sérgio (Sérgio Coragem) deve realizar uma breve análise para que a construção de uma rodovia entre a selva e o deserto do país seja iniciada. O urbanismo, porém, é só uma das preocupações em sua mente — todas entrelaçadas às consequências de seu encontro com dois habitantes locais: o brasileiro Gui (Jonathan Guilherme) e a enigmática Diara (Cleo Diára), que é meio guineense, meio cabo-verdiana. Do triângulo amoroso peculiar, surge o drama que preenche as mais de 3 horas e meia de O Riso e a Faca, filme que recebeu o prêmio de melhor atuação feminina dentro da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2025. Desde então, vem percorrendo festivais internacionais e se consagra exemplo da arte que pode ser realizada a partir da colaboração entre múltiplos países. Nesta quinta-feira, 30, ele enfim chega ao circuito exibidor do Brasil, com distribuição da Vitrine Filmes.
O longa, afinal, é uma coprodução entre produtoras de Portugal, França, Romênia e Brasil, além de ter sido filmado na Guiné. Em entrevista a VEJA, a produtora Tatiana Leite, criadora da empresa Bubbles Project, explica como se deu o trabalho com o cineasta lusitano Pedro Pinho, o funcionamento das engrenagens de uma produção do tipo e o que o Brasil tem a ganhar apoiando este modelo de trabalho, aderido por múltiplas nações europeias, Além disso, comenta o único filme com nacionalidade brasileira que participa do Un Certain Regard 2026: o nepalês Elefantes na Névoa:
O Riso e a Faca saiu premiado de Cannes em 2025, um ano em que o festival se voltou fortemente à produção brasileira. Doze meses depois, o único representante do país nas competições principais é Elefantes na Névoa. Por que você acha que o número caiu? Não é todo ano que uma cinematografia não europeia consegue uma apresentação no Festival de Cannes. Isso não tem absolutamente nada a ver com a qualidade do que está sendo produzido, e sim com a cultura dos festivais hegemônicos do mundo do cinema autoral. Eles têm cotas para filmes do próprio continente porque têm subsídios de instituições europeias. Sobram poucas vagas para filmes de fora e, sobretudo, filmes latino-americanos, do sudeste asiático ou da África. As descobertas ocorrem às vezes. O Elefante na Névoa é o primeiro filme nepalês na história do Festival em Cannes. É circunstancial, e acredito que teremos muitos filmes majoritariamente brasileiros no line-up ao longo dos próximos anos. Também é óbvio que Kleber Mendonça Filho está para Cannes assim como Jim Jarmusch ou James Gray. É muito provável que seus filmes futuros sempre sejam lançados lá, porque a organização é muito fiel. Nesse ano, temos também La Perra [coprodução entre Brasil e Chile estrelada por Selton Mello, a ser exibida na Quinzena dos Diretores], da Dominga Sotomayor, e Paper Tiger, do próprio Gray, produzido pelo Rodrigo Teixeira. Acho que não há nada a se temer. O cinema brasileiro está super efusivo e está participando da cena internacional como nunca antes.
Como foi a colaboração com brasileiros por trás de O Riso e a Faca? A própria Europa inventou uma coisa muito interessante, rica e efetiva, que é a coprodução. No modelo minoritário, podemos participar artística e tecnicamente de filmes cujas ideias originais vêm de outros países. Isso não deixa de ser uma colaboração brasileira. Em O Riso e a Faca, vários artistas e técnicos brasileiros trabalharam ao lado do diretor Pedro Pinho desde o início. O meu convite chegou há 10 anos e, logo em seguida, ele começou a escrever o roteiro com ajuda do Miguel Seabra Lopes, que é luso-brasileiro. Com o tempo, outros colaboradores surgiram, como a montadora Karen Akerman. Coproduções assim não só levam o Brasil como símbolo, mas também proporcionam essa troca para talentos do país.

No frisson em torno do Brasil provocado pelo Oscar e por Cannes, parece que o cinema nacional só ganha se impressionar o mundo ocidental, especialmente Hollywood. O que você acha que o Brasil tem a ganhar colaborando com projetos e locações fora desse eixo, como a Guiné e o Nepal? O Riso e a Faca, para mim, é um filme que ficará na história do cinema. Ele não foi ao Oscar, mas quem o vê, guarda para sempre. Está aí um exemplo de colaboração. É extremamente original, ousado e pertinente. Há anos não via um filme ser recebido com tamanha euforia e agraciamento na França.
Pelo lado prático, você pode explicar como funciona uma coprodução? Primeiro, veio o convite de Portugal, que para mim foi irrecusável, porque tinha ficado apaixonada por outro filme do Pedro, A Fábrica do Nada (2017). Depois, ganhamos um edital público do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e também fomos contemplados por alguns adicionais, inclusive da nossa distribuidora, que tinha interesse em ver o filme realizado. Cada acordo entre países é um pouco diferente. Seguimos as regras dos termos Brasil-Portugal, que exige determinados números de chefes de equipe brasileiros e da participação de elenco. O Riso e a Faca é excepcional, porque contou com uma participação brasileira muito maior do que o normal para uma coprodução.
A porta de entrada é sempre a mesma? Com O Riso e a Faca, foi o convite. Já com Elefantes na Névoa, me apaixonei porque tive acesso ao roteiro ainda em sua primeira versão. Encontrei os meninos e manifestei meu interesse. O filme foi inteiramente feito no Nepal, mas tem um técnico de som brasileiro. O diretor Abinash Bikram Shah está em São Paulo para a pós do filme. O tema em si também é pertinente para os brasileiros. Essas coproduções são mais orgânicas quando há um interesse em comum por uma história. Por fim, no momento em que cumpro todas as regras do tratado em questão, eu ganho um certificado de produto brasileiro, o filme ganha essa nacionalidade e representa nosso país mundo afora. Esse é o resumo básico e curto.
Como o Brasil pode se transformar em um atrativo ainda maior para esse setor? A coisa mais importante, sem dúvidas, é dar estabilidade e regularidade para nossos editais. Isso cria uma credibilidade internacional. Em países como Chile e Colômbia, editais de coprodução minoritária existem há muitos anos, então são mais usados. Outros exemplos são o Aide aux Cinémas du Monde (ACM), que talvez seja o mais importante dos editais internacionais, e o World Cinema Fund, da Alemanha. Se conseguirmos criar um calendário, isso sem dúvida atrai muito mais interesse por trabalhos com o Brasil.
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