Selic cai para 14,5% com Copom sinalizando cautela diante de incertezas
Fonte: mixvale.com.br | Data: 30/04/2026 10:58:46
O Banco Central reduziu a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, levando a Selic de 14,75% para 14,5% ao ano. A decisão foi unânime entre os membros do Comitê de Política Monetária e segue a expectativa de 87% dos agentes que negociam opções de Copom na B3. O comunicado, porém, manteve tom cauteloso. O comitê ressaltou que os próximos passos dependerão dos impactos econômicos provocados pelo conflito no Oriente Médio sobre a inflação brasileira.
O corte faz parte do ciclo de afrouxamento monetário iniciado em março, quando a taxa saiu de 15% para 14,75%. Essa é a segunda redução após quase dois anos de elevação contínua dos juros. O Banco Central havia iniciado a subida em setembro de 2024, partindo de 10,5% ao ano, como resposta ao cenário inflacionário. O movimento atual está tirando a taxa do maior patamar em quase duas décadas.
Inflação em patamar mais alto que o previsto

A projeção do Banco Central para a inflação acumulada de 2026 subiu significativamente. O IPCA, principal índice de preços, é agora estimado em 4,6%, ante previsão anterior de 3,9% feita em março. Esse novo patamar supera a taxa de 4,5%, que é o teto da meta de tolerância perseguida pelo órgão. O centro da meta permanece em 3%, com intervalo de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Para o quarto trimestre de 2027, o Copom projeta IPCA de 3,5%.
O índice oficial vinha oscilando acima do teto estabelecido. Em abril de 2025, o IPCA tinha chegado a 5,53% ao ano. Em fevereiro deste ano recuou para 3,81%, mas voltou a subir em março para 4,14% no acumulado em 12 meses. O IPCA-15, prévia da inflação oficial, registrou em abril a maior variação desde 2022, puxada pelos aumentos do diesel (16%), gasolina (6,23%) e etanol (2,17%).
Guerra pressiona preços de combustíveis
A escalada das tensões no Oriente Médio afeta diretamente a economia brasileira pelo lado dos combustíveis. O Brasil importa cerca de 30% do petróleo consumido internamente. Embora o país produza mais barris do que consome, as refinarias dependem de importação para complementar a produção nacional no processamento. Aproximadamente 20% da demanda interna de diesel também vem de compras externas.
O Banco Central identificou dois níveis de risco. O comunicado menciona tanto os efeitos diretos do choque de petróleo quanto impactos de segunda ordem, sobre custos de insumos na cadeia de suprimentos global, com potencial de desancoragem das expectativas em horizontes mais longos.
Próximas movimentações ainda incertas
O Copom não sinalizou novos cortes automáticos para as próximas reuniões. O comunicado reafirma que o comitê agirá com “serenidade e cautela”, deixando em aberto a possibilidade de pausas no ciclo de redução. Economistas avaliam que o tamanho dos cortes pode ser menor neste ano comparado ao originalmente esperado.
Instituições de pesquisa divergem sobre o cenário à frente:
- Genial Investimentos: projeta Selic em 13,25% ao fim de 2026, com redução de 0,25 p.p. a cada reunião, mas alerta que uma pausa pode ocorrer se os dados continuarem piorando
- Forum Investimentos: avalia que o comunicado alerta sobre distanciamento da inflação da meta e sinaliza disposição para prolongar o ciclo, mas de forma mais gradual
- Suno Research: destaca a preocupação com impactos de segunda ordem do choque de petróleo sobre a cadeia de suprimentos global
- One Investimentos: interpreta o comunicado como reconhecimento de um choque inflacionário de curto prazo com duração potencialmente menor que previsto
- Daycoval: entende que a sinalização de possível pausa já nas próximas reuniões não está descartada
Contexto de atividade econômica
O primeiro trimestre de 2025 mostrou atividade acima das expectativas. Esse cenário reforça a cautela do comitê, que monitora simultaneamente a pressão inflacionária e o desempenho da economia real. A inflação vinha passando pela desancoragem das expectativas, fenômeno que preocupa as autoridades monetárias.
O período prolongado de manutenção da Selic em patamares elevados, durante o final de 2025 e início de 2026, colocou o comitê em posição em que os cortes atuais constituem ajuste no grau de contração da política monetária. A transmissão dos movimentos da taxa básica para a economia real ocorre de forma gradual ao longo do tempo.