Melasma recorrente vira um dos maiores desafios da dermatologia no Brasil
Fonte: gazetadevotorantim.com.br | Data: 30/04/2026 17:17:53
Fonte: Freepik / Divulgação
Quem mora em cidades como Votorantim e na região de Sorocaba conhece bem a cena: a paciente sai do consultório com a pele clareada após meses de tratamento, fica satisfeita por algumas semanas e, no primeiro feriado prolongado de sol, percebe as manchas voltando exatamente nos mesmos lugares.
Bochechas, testa, lábio superior. A frustração, segundo dermatologistas que atuam na área de pigmentação, costuma ser tão intensa quanto a própria mancha.
O melasma é uma condição de pele crônica, multifatorial e marcada pela recorrência. Não tem cura definitiva. Esse é o ponto que mais surpreende as pacientes na primeira consulta.
E é também o que explica por que a doença se transformou em um dos campos mais ativos de pesquisa e desenvolvimento de tecnologia dentro da dermatologia mundial.
Um problema de saúde pública pouco discutido
Os números brasileiros impressionam pela magnitude. Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia, estima-se que aproximadamente 35% das mulheres em idade fértil no país apresentem algum grau de melasma.
Um estudo transversal publicado em 2024, citado em repositório acadêmico da Unesp, encontrou prevalência ainda maior entre mulheres brasileiras adultas examinadas clinicamente: 36,3%, com maior frequência em fototipos escuros e em mulheres que tiveram mais de uma gestação.
Pesquisa publicada nos Anais Brasileiros de Dermatologia, com inquérito a 1.878 mulheres adultas, identificou que os principais fatores associados à gravidade do melasma facial são exposição ao sol, exposição ao calor e estresse psicológico.
A mesma análise destacou alta prevalência de transtornos de ansiedade, depressão e comprometimento da qualidade do sono entre as participantes, indicando que o impacto da doença vai muito além da queixa estética.
O Brasil concentra fatores que ajudam a explicar essa prevalência elevada. A miscigenação populacional resulta em uma proporção significativa de mulheres com fototipos intermediários, justamente o grupo mais vulnerável.
A latitude tropical e subtropical do território expõe a pele a uma radiação solar intensa durante quase todo o ano. E o uso de contraceptivos hormonais, gestações e a influência do calor completam o quadro de gatilhos.
Por que o interior paulista tem um fator agravante
Quem vive em Votorantim, Sorocaba e região metropolitana convive com uma realidade climática específica. O Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Inpe registra com frequência índices ultravioleta classificados como muito alto e extremo no estado de São Paulo, principalmente no período de setembro a março.
A Organização Mundial da Saúde considera extremo qualquer índice UV acima de 11, faixa em que a pele desprotegida pode sofrer queimadura em menos de dez minutos.
A combinação entre clima quente, rotina ao ar livre e exposição prolongada ao calor gera um cenário particularmente desafiador para quem tem predisposição ao melasma. Não se trata apenas do sol direto.
O calor irradiado pelo asfalto, pelo motor do carro parado em engarrafamento e até pelo fogão durante o preparo da comida ativa os melanócitos, as células responsáveis pela produção de pigmento. Para uma mulher com melasma, esse estímulo térmico pode anular semanas de tratamento.
Como observa Dra. Mariana Cabral, médica dermatologista em Goiânia, a questão é que o cuidado preventivo, embora indispensável, raramente resolve o problema sozinho quando as manchas já se instalaram.
O fotoenvelhecimento acumulado ao longo de décadas, a herança genética e os ciclos hormonais formam uma equação que exige intervenção ativa. É nesse ponto que o tipo de tecnologia disponível na clínica passa a fazer diferença concreta no resultado.
A geração mais recente de tratamentos a laser
Durante anos, o tratamento do melasma se restringiu a ácidos despigmentantes, peelings químicos e formulações tópicas que clareiam progressivamente a melanina superficial.
Esses recursos continuam sendo a base do tratamento, mas têm limitações conhecidas. Em casos de melasma mais resistente, especialmente nos quadros mistos ou dérmicos, os resultados são lentos e a recidiva é praticamente regra.
A entrada dos lasers de pulso ultracurto mudou a discussão. Pesquisa publicada no periódico Dermatologic Surgery, citada em reportagem do jornal Estado de Minas, apontou o laser de picossegundos como a tecnologia mais eficaz no tratamento do melasma, especialmente quando combinado com ácido tranexâmico oral.
A diferença em relação às gerações anteriores está na velocidade do pulso, medida em trilionésimos de segundo, capaz de fragmentar o pigmento sem aquecer significativamente o tecido ao redor.
Entre as plataformas disponíveis no Brasil, o laser de picossegundos HandPico tem se consolidado como uma das opções mais utilizadas por dermatologistas que tratam pigmentação em pacientes de fototipos intermediários e altos, perfil predominante entre as brasileiras com melasma.
O equipamento atua por dois mecanismos complementares: a fragmentação fotoacústica da melanina, que reduz a intensidade das manchas, e a formação dos chamados LIOBs, vacúolos intradérmicos microscópicos que estimulam a produção de colágeno tipo I de forma controlada.
O ponto técnico que torna a tecnologia interessante no contexto brasileiro é a possibilidade de tratamento em qualquer época do ano, inclusive em pacientes com fototipos mais escuros.
Lasers anteriores, especialmente os ablativos, exigiam cautela redobrada nesses casos pelo risco de hiperpigmentação pós-inflamatória, justamente o efeito contrário ao desejado. A geração de picossegundos reduz esse risco ao trabalhar com pulsos tão curtos que praticamente não geram calor residual.
O que esperar de um tratamento bem conduzido
A literatura disponível e os relatos clínicos mais consistentes apontam que o tratamento do melasma com laser de picossegundos costuma exigir entre três e seis sessões, com intervalo de quatro a oito semanas entre elas.
A resposta varia conforme o tipo de melasma, o tempo de evolução, o fototipo e a aderência da paciente ao protocolo de cuidados domiciliares.
Esse último ponto talvez seja o mais subestimado. Nenhum laser, por mais avançado que seja, sustenta resultado em paciente que abandona o protetor solar, dispensa o uso de ativos clareadores prescritos para casa ou ignora a necessidade de evitar fontes de calor intenso.
O tratamento eficaz combina tecnologia de consultório com rotina disciplinada em casa. Quando esse equilíbrio é quebrado, a mancha volta.
Outro aspecto importante é o realismo das expectativas. O melasma não desaparece como uma simples mancha solar. Ele se atenua, se uniformiza, perde intensidade.
Em casos bem conduzidos, fica imperceptível ao olhar comum. Mas a tendência à recidiva permanece, o que torna o acompanhamento médico contínuo, e não pontual, parte do próprio tratamento.
A escolha do profissional define o resultado
Como qualquer tecnologia médica, o laser de picossegundos não produz resultado pelo equipamento isolado. Quem maneja o aparelho, ajusta os parâmetros para o tipo de pele, define a sequência de sessões e prescreve os cuidados associados é quem determina, na prática, o sucesso ou o fracasso do tratamento.
Essa observação se torna especialmente relevante diante do crescimento de procedimentos estéticos oferecidos por profissionais sem formação médica específica em dermatologia, fenômeno alertado de forma recorrente pelas sociedades médicas brasileiras.
Verificar a formação do profissional antes de iniciar qualquer tratamento de pigmentação evita problemas que, em muitos casos, são mais difíceis de corrigir do que o quadro original.
Pacientes do interior paulista que procuram os melhores dermatologistas especialistas em pigmentação devem confirmar três pontos básicos: registro ativo no Conselho Regional de Medicina, título de especialista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (com RQE registrado) e experiência clínica documentada com a tecnologia específica que será utilizada. Equipamentos de laser exigem treinamento dedicado, e o histórico de casos tratados conta tanto quanto a titulação acadêmica.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia mantém em seu site uma busca pública de especialistas por cidade, recurso que permite à paciente confirmar se o profissional tem o título reconhecido.
O Conselho Federal de Medicina também disponibiliza consulta ao CRM. São verificações rápidas, gratuitas e que protegem o paciente de procedimentos conduzidos de forma inadequada.
Quando procurar avaliação especializada
Manchas escurecidas que aparecem nas bochechas, na testa, no buço ou no queixo, principalmente em mulheres entre 20 e 45 anos, merecem avaliação dermatológica antes de qualquer tentativa de tratamento por conta própria.
O que parece ser melasma pode ser, em alguns casos, hiperpigmentação pós-inflamatória, melanose solar, líquen plano pigmentoso ou até manifestação dermatológica de condição sistêmica. O diagnóstico correto define o tratamento e evita anos de procedimentos malsucedidos sobre uma hipótese errada.
A boa notícia, frente a um problema tão prevalente, é que a dermatologia atravessa um período de avanços técnicos significativos. As ferramentas disponíveis hoje, quando bem indicadas e bem conduzidas, oferecem resultados que eram inalcançáveis há uma década.
A combinação entre diagnóstico preciso, tecnologia adequada e disciplina nos cuidados domiciliares transforma a relação da paciente com a própria pele.
Para a mulher de Votorantim, Sorocaba ou de qualquer cidade do interior paulista que convive há anos com manchas que retornam, o caminho começa em uma consulta com profissional qualificado.
O melasma não tem cura, mas tem controle. E o controle, quando bem estruturado, devolve algo que vai muito além do espelho.