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Ainda há esperança no combate contra o Alzheimer: o rigor científico

Fonte: www1.folha.uol.com.br | Data: 04/05/2026 23:16:46

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As duas últimas décadas foram marcadas pelo maior avanço sobre a doença de Alzheimer do último século, provavelmente desde que a doença foi descrita pelo médico alemão Alois Alzheimer em 1906. Embora ainda não tenhamos a cura desta doença neurodegenerativa tão temida —principal causa de demência no Brasil e no mundo— contamos hoje com um arsenal científico inimaginável poucos anos atrás.

No arsenal atual contra o Alzheimer incluem-se biomarcadores que identificam a doença via um simples exame de sangue (além de exames de neuroimagem) facilitando a detecção de características da doença antes da memória ser comprometida. Também evoluímos em identificar melhor os fatores de risco genéticos e de estilo de vida ou ambientais, que interagem de forma complexa modificando o risco individual. Conhecer melhor a doença tem nos permitido monitorar sua evolução, o impacto de modificações no estilo de vida e o efeito de novas medicações, com enorme potencial de alterar trajetórias de vida de pacientes e familiares.

A última semana foi marcada por um polêmico estudo de revisão sistemática, alvo de críticas pela comunidade científica global, pois questionou a validade clínica das novas drogas “anti-amilóide”, os anticorpos monoclonais que têm como alvo limpar a proteína beta-amilóide do cérebro, um feito inovador na luta contra a doença. O estudo questionou o quanto estas medicações de fato desaceleram a progressão da doença e impactam na vida real dos pacientes. Entretanto, a revisão considerou todas as drogas anti-amilóide como um bloco genérico, diluindo o efeito positivo de algumas delas, o que criou um viés sobre as evidências atuais.

O estudo publicado em abril de 2026 analisou 17 ensaios clínicos aleatorizados (20.432 participantes) conduzidos entre 2014 e 2024. Todos os participantes receberam algum medicamento anti-amilóide em comparação a um placebo. Esta revisão utilizou o prestigioso método Cochrane, uma abordagem rigorosa para conduzir revisões sistemáticas em saúde e apoiar decisões clínicas, entretanto os resultados devem ser interpretados com muita cautela devido a vieses metodológicos.

Na pirâmide do que é evidência científica, revisões (ou metanálises) de ensaios clínicos aleatorizados estão no topo do que consideramos uma evidência científica de qualidade capaz de guiar recomendações de saúde pública. O viés de que pouco se fala sobre as revisões de literatura científica é que elas passam por um filtro de decisões, por exemplo, de como se agrupam e analisam os dados, o que pode gerar resultados equivocados, subestimar resultados positivos ou superestimar resultados negativos.

Nesta revisão da Cochrane, os pesquisadores fizeram uma escolha metodológica bastante discutível: agruparam diferentes moléculas com perfis distintos de eficácia, mecanismo e dose. Foram analisados 15 fármacos com efeitos negativos e dois com efeitos positivos: o lecanemabe e o donanemabe, ambos aprovados pelo Food and Drug Administration (FDA) nos EUA e pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no Brasil. Muitas das drogas anti-amilóide com efeitos negativos eram medicamentos mais antigos, alguns descontinuados, e outros que nunca chegaram à prática clínica.

É como se quiséssemos fazer um suco com várias frutas estragadas e um pouco de frutas frescas: o resultado só poderia ser suco meio azedo. Uma revisão que inclui fármacos que não são eficazes com outros sim eficazes reduz significativamente o efeito das poucas medicações com resultado positivo. Ao se diluir o resultado positivo, faz-se uma generalização distorcida que pode alterar a percepção pública do que há de evidências, e diminuir a adesão a tratamentos benéficos.

Além disso, outro problema metodológico na revisão foi a população-alvo, pois a revisão misturou participantes em fase pré-demência com demência. Avaliar a eficácia de uma medicação em pacientes já com demência devido ao Alzheimer seria semelhante a testar uma medicação para câncer em pacientes já apresentando metástase. Estamos falando de estadiamento da doença e identificar precocemente é o ponto fundamental para tentar reduzir a progressão da doença de Alzheimer, que invariavelmente progride. Das 17 medicações testadas contra Alzheimer, 15 foram com estágios demenciais já avançados —e não surpreendentemente— as duas que funcionaram foram para estágios precoces. Novamente, somar e dividir, neste caso, é minimizar a eficácia, distorcer a evidência e, por consequência, desinformar a população.

Apesar da complexidade da doença de Alzheimer, a lógica ao estudá-la deve ser similar à de outras doenças. Por exemplo, uma revisão Cochrane (2021) com medicamentos para diabetes e colesterol excluiu medicações com efeitos negativos como o aleglitazar e evacetrapib (que muitos de nós nunca ouviram falar). Apesar dos resultados negativos destas drogas, ninguém duvida do efeito positivo de outras medicações para redução de glicemia, como os análogos GLP-1, ou dos benefícios clínicos das estatinas para colesterol. Para a doença de Alzheimer, o raciocínio é o mesmo: a falta de benefício de certas drogas anti-amilóide não deve subestimar o efeito positivo de outras medicações anti-amilóide.

No caso da doença de Alzheimer, o ponto crítico é que a grande maioria das medicações desenvolvidas até hoje não foram eficazes em reduzir a progressão da doença: dentre mais de 200 ensaios clínicos (em fases 2 e 3), apenas o lecanemabe e donanemabe apresentaram algum resultado positivo. Isto torna a batalha contra o Alzheimer frustrante e cansativa para a sociedade, cientistas e sobretudo pacientes e familiares.

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Embora o lecanemabe e donanemabe sejam as melhores armas de que dispomos no momento no combate ao Alzheimer, temos que reconhecer que são medicações que envolvem riscos para alguns pacientes, particularmente em apresentar a ARIA (do inglês “amyloid-related imaging abnormalities”), associada a edema cerebral e micro-hemorragias. Assim, o risco-benefício destas medicações exige protocolos de seleção cuidadosos, monitoramento com neuroimagem, e acompanhamento especializado.

Apesar das perguntas ainda em aberto sobre a doença de Alzheimer, nunca caminhamos tanto e pela primeira vez podemos desacelerar, mesmo que de forma modesta, a progressão da doença em certos casos. Isto não deve ser negligenciado, mas visto como uma pequena vitória diante de uma grande guerra. Desconsiderar evidências positivas recentes por interpretações excessivamente generalistas distorce a ciência e as recomendações em saúde, além de negligenciar o acolhimento e cuidado. O tratamento contra a doença de Alzheimer exige responsabilidade ética, constante atualização, nuance metodológica, e letramento científico da sociedade. Embora imperfeitos, a ciência e o debate democrático ainda são as melhores armas contra a doença de Alzheimer.