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Quando se trata de vírus, jamais se pode baixar a guarda’, diz especialista em hantaviroses da Fiocruz

Fonte: oglobo.globo.com | Data: 09/05/2026 00:09:29

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Elba Lemos, coordenadora do serviço regional de referência em Hantaviroses e Rickettsioses pelo Ministério da Saúde, pesquisa hantaviroses desde a década de 1990


A pesquisadora Elba Lemos
A pesquisadora Elba Lemos — Foto: Divulgação

RESUMO

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GERADO EM: 08/05/2026 – 12:20

Surto de Hantavírus em Navio: Especialista Alerta para Riscos no Brasil

A especialista Elba Lemos, da Fiocruz, alerta sobre a importância de manter a guarda alta contra vírus, destacando o recente surto de hantavírus identificados em um navio com bandeira holandesa. Com três mortes e oito casos relatados, a transmissão do vírus Andes, geralmente rara entre humanos, chama atenção para o risco de contágio em ambientes confinados. Lemos ressalta a necessidade de vigilância e diagnóstico rápido, especialmente no Brasil, onde as hantaviroses são subnotificadas e muitas vezes confundidas com outras doenças.

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O caso do navio de bandeira holandesa afetado por hantavírus é uma história de mistério médico. E também um recado de que, quando se trata de vírus, jamais se pode baixar a guarda. Quem alerta é a cientista Elba Lemos, pesquisadora titular do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e coordenadora do serviço regional de referência em Hantaviroses e Rickettsioses pelo Ministério da Saúde. Lemos pesquisa hantaviroses desde a década de 1990 e esteve à frente do grupo que desenvolveu o primeiro teste rápido para elas no Brasil.

Há três mortes e oito casos identificados de hantavírus — três confirmados e cinco suspeitos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O surto é provocado pelo hantavírus Andes e um raríssimo evento de contágio entre humanos, de um vírus, em geral, transmitido pelo contato com urina seca de roedores silvestres. A letalidade é de cerca de 30% e não há vacina.

O MV Hondius partiu de Ushuaia, no extremo sul da Argentina, em 1º de abril para um cruzeiro pelo Atlântico com destino a Cabo Verde. Fez escala em ilhas remotas. A OMS informou que 40 passageiros, de 12 nacionalidades, desembarcaram em Santa Helena. Entre eles, uma das vítimas fatais, uma holandesa, cujo marido também morreu.

Qual o risco?

Esse caso não oferece perigo global por si. Esse vírus não tem perfil pandêmico. Porém, é um alerta de que são os microrganismos que estão no topo da pirâmide do planeta. Somos apenas mais um elemento. Sofremos com isso na pandemia de coronavírus. E não podemos esquecer. Jamais podemos baixar a guarda. Eles são dinâmicos, estão sempre se adaptando.

Na pandemia de Covid-19, tivemos múltiplos casos de navios infectados, proibidos de atracar, que passaram semanas no mar. Por que navios são vulneráveis?

Meios de transporte reúnem muitas pessoas, de diferentes lugares, em ambientes confinados e são potencialmente perigosos para a transmissão de doenças infecciosas. Por isso, é preciso haver cuidados em viagens aéreas e mais ainda em cruzeiros, onde muita gente compartilha os mesmos espaços por mais tempo. Tem ocorrido surtos de norovírus (causam infecção gastrointestinal) em navios, por exemplo. Defendo que seja obrigatório no mundo exigir comprovante de vacinação para as doenças em que há disponibilidade, como sarampo, pólio, Covid-19, hepatite B. Mas, de qualquer forma, esse caso de hantavírus é extremamente exótico.

Porque se trata de uma forma raríssima de transmissão de um vírus que, por si só, não é comum. Além disso, o hantavírus ocorre em áreas silvestres e rurais, você não espera encontra-lo num navio no meio do Atlântico. De que lugar na Argentina veio esse vírus? Há casos locais? Que condição facilitou a transmissão a bordo? Não temos respostas para nada disso.

Para mim, o caso índice é o do casal de holandeses que morreu. É preciso saber onde estiveram antes de embarcar em Ushuaia. O hantavírus Andes está em toda a Argentina e também ocorre no Chile. Eu gostaria de saber se o casal de holandeses visitou antes a Patagônia, por exemplo.

Porque lá, em tese, seria mais fácil ter contato com os roedores silvestres que são reservatórios naturais do vírus. Mas será preciso reconstituir toda a história epidemiológica desse caso. Temos um mistério. Quem entrou infectado e levou o vírus para bordo? Onde se contaminou? Em que situação?

Como seria possível embarcar infectado com uma doença tão grave?

Os sintomas podem levar de três a 60 dias para aparecerem. É um prazo tão grande, que uma pessoa poderia embarcar infectada sem ter conhecimento.

Como se pode ter tanta certeza de que não havia ratos a bordo e a transmissão foi interpessoal?

Certeza, não se pode. As hipóteses são sobre o que nos é informado. Mas, é improvável haver ratos. Se houvesse ratos a bordo, eles tenderiam a ficar junto aos grãos e o esperado seria que o pessoal que trabalha na cozinha se infectasse primeiro e não foi isso o que ocorreu. Além disso, foi isolado o vírus Andes, justamente o único hantavírus que comprovadamente pode ser transmitido de uma pessoa para outra. A vigilância nos navios é muito rigorosa. Mas, realmente, quem pode garantir que não havia ratos?

Essa é uma história de detetive. Complexo dizer. Com os elementos que temos, apostaria que o vírus embarcou com turistas que tenham visitado a Patagônia.

Qual a situação das hantaviroses no Brasil?

O Brasil estuda pouco esses vírus. Os hantavírus associados com a síndrome cardiopulmonar se chamam Araraquara, Juquitiba, Castelo dos Sonhos, Mamoré, Laguna Negra e Anajatuba, todos mantidos nos roedores silvestres. Há ainda Jaborá e Rio Mearim, que não estão associados à doença até o momento. Temos também o hantavírus Seul, que causa síndrome renal hemorrágica. Ele é nativo da Eurásia, mantido pelo rato e amplamente disperso no mundo desde a era das navegações.

A pessoa se infecta ao inalar os aerossóis provenientes de fezes, saliva e urina secas dos roedores contaminados e presentes na poeira em silos, casas rurais, lugares onde se guarda ração animal, por exemplo. Os casos são majoritariamente rurais, em áreas remotas. Quase sempre são trabalhadores rurais. Já no navio foi diferente, de uma pessoa para outra.

E o quão frequente são as hantaviroses no Brasil?

Quase sempre, só casos graves são identificados. As hantaviroses são subnotificadas, confundidas com outras doenças, porque os sintomas são semelhantes, sobretudo no início. Friso sempre que o desconhecimento custa vidas. Por isso, desenvolvemos o kit de diagnóstico rápido (em parceria com a UFRJ), na beira do leito.

Porque, no início, os sintomas da hantavirose se parecem com os da dengue. Mas o tratamento é radicalmente diferente. Na dengue é preciso hidratar o doente. Mas na hantavirose isso vai encharcar o pulmão. A hidratação pode matar. A hantavirose causa síndrome cardiopulmonar. E o grande problema é que os profissionais de saúde conhecem bem a dengue, mas não a hantavirose. O diagnóstico rápido é essencial. Ele salva vidas. Foi o caso de um adolescente de Tangará da Serra (MT), salvo pelo teste, lançado no fim do ano passado.

E qual a disponibilidade?

O segundo lote está saindo agora. Mas, de forma geral, é preciso aumentar a disponibilidade de testes e não só para as hantaviroses. Destaco o caso da febre maculosa brasileira (doença grave, causada pela bactéria Rickettsia rickettsii e transmitida pela picada do carrapato-estrela infectado). O meu grupo desenvolveu um teste e eu mesma estou sem ele agora. A febre maculosa não tem vigilância estruturada. Criamos um centro em Campos (RJ), município com ocorrência de maculosa. Mas ela pode aparecer em lugares improváveis.

Na semana passada faleceu uma moça, de 25 anos, de São Gonçalo (RJ). Se achava inicialmente que era dengue. Era maculosa. Ela morreu em 48 horas. O fundamental nessas doenças é a velocidade no diagnóstico e no tratamento correto.

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