Os hantavírus são mais frequentes do que se imagina, mas seguem subnotificados’, alerta virologista
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 09/05/2026 00:09:29
Pedro Fernando da Costa Vasconcelos afirma que alterações ambientais favorecem a adaptação de vírus silvestres ao ambiente urbano e cita avanço do oropouche e do mayaro como sinais de alerta
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RESUMO
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GERADO EM: 08/05/2026 – 12:05
Desmatamento na Amazônia favorece adaptação de vírus urbanos, alerta virologista
O virologista Pedro Fernando da Costa Vasconcelos alerta que o desmatamento e mudanças ambientais na Amazônia criam novas oportunidades para a adaptação de vírus silvestres ao meio urbano. Ele destaca o avanço do vírus oropouche, que já se espalhou pelo Brasil, e chama atenção para o vírus mayaro. Com mais de 200 vírus amazônicos identificados, Vasconcelos enfatiza a importância da preservação da floresta para evitar novas epidemias.
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Vírus letais podem emergir em lugares improváveis, como o hantavírus do navio MV Hondius, que causou um surto durante uma travessia do Oceano Atlântico. Mas se há um local da Terra onde é certo encontrá-los é a Amazônia, afirma o virologista Pedro Fernando da Costa Vasconcelos. Ao longo das últimas quatro décadas, ele esteve à frente da descoberta de mais cerca de 200 vírus amazônicos. E coordenou a mais recente revisão sobre fatores de risco para a emergência e a disseminação de novos e velhos vírus na Amazônia brasileira, publicada na revista científica internacional PLOS Neglected Tropical Diseases. Pesquisador emérito do Instituto Evandro Chagas (IEC), em Ananindeua (PA), e professor da Universidade do Estado do Pará (UEPA), Vasconcelos destaca que os vírus estão sempre à espera de uma oportunidade para se espalhar e conseguir novos hospedeiros. No caso, nós.
Por que a Amazônia é importante para o controle de epidemias?
Ela tem a maior biodiversidade terrestre do planeta e isso se aplica também a micro-organismos, como vírus. Mas desconhecemos a virosfera. Se estima que menos de 1% dos vírus são conhecidos. E temos ainda uma diversidade impressionante de vetores, não apenas de mosquitos, mas de outros insetos hematófagos, como maruins, carrapatos e flebótomos. Na Amazônia, descobrir vírus e vetores é uma questão de ter recursos para procurar.
Por que preservar a Floresta Amazônica é tão importante para evitar novas doenças?
Ela precisa ser preservada, dentre outras coisas, para manter os vírus sob controle. Toda a biodiversidade, vírus e seus transmissores incluídos, vive em equilíbrio na floresta. Quando ela é derrubada ou modificada, esse equilíbrio é rompido. A maioria dos animais e dos vírus que eles carregam morre. Mas alguns vírus se adaptam e se espalham com novos vetores e alvos. Vimos isso acontecer na construção de hidroelétricas, como Tucuruí. Também na abertura da mineração em Carajás. Cada estrada, cada queimada, cada área desmatada, é um potencial novo caminho para vírus novos e conhecidos. E temos um exemplo recente do poder de vírus silvestres se adaptarem ao ambiente urbano e provocarem epidemia.
O do vírus oropouche, que provoca sintomas semelhantes aos das febres dos vírus da dengue, zika e chicungunha. Porém, não é parente deles. Pertence a uma família de vírus chamada Orthobunyavirus. Ele começou um surto maior em 2023 na Amazônia e agora está em todo o Brasil, para surpresa alguma. Pois, em 2001 publicamos estudo do IEC com o alerta de que isso poderia acontecer. O oropouche, transmitido por mosquitos do gênero Culex (do pernilongo), se adaptou aos ambientes urbanos.
A seu ver, qual outro vírus merece atenção especial?
O mayaro. Ele é um parente do chikungunya e, como ele, causador de dor intensa. Ele provoca artrite, lesões nas cartilagens. O mayaro tem aparecido aqui e ali pelo Brasil, está se adaptando ao ambiente urbano. Seus vetores são os mosquitos silvestres Haemagogus. Mas esses mosquitos podem ocorrer em ambientes próximos à cidade. E, quanto mais vírus, mais doença, mais dificuldade de controle.
Na Amazônia o senhor destacaria outros vírus?
Há três vírus mais misteriosos que vimos estarem por trás de casos de febre viral inespecífica. Os casos são poucos, mas vem aumentando. Um deles é o guaroa, um primo de oropouche e transmitido pelo anófeles, o mesmo mosquito da malária. Ele foi descoberto na Colômbia, mas se espalhou pela Amazônia.
Os dois também são aparentados do oropouche. Se chamam caraparú (também ocorre no Sudeste), transmitido pelo aedes silvestre e o cúlex; e o tacaiuma, cujo vetor é o anófeles. Eles têm algum potencial. Não são uma preocupação agora, mas não se deve subestimar vírus.
Porque tudo é questão de oportunidade e adaptabilidade. Eles podem sofrer mutações que os tornem adaptados a uma nova situação. Nem sempre isso ocorre e nem todo vírus causa doença. Mas, quando um vírus potencialmente perigoso sofre mutações que os tornam adaptados aos seres humanos, e condições ambientais, como o desmatamento, permitem que se espalhem e cheguem a nós, temos um problema.
E o hantavírus no Brasil?
Os hantavírus são mais frequentes do que se imagina, mas seguem subnotificados. Mesmo os casos pulmonares graves podem ser confundidos com gripe e Covid-19, por exemplo. Temos casos principalmente no Centro-Oeste e Sul. Mas há hantavírus amazônicos, alguns que o meu grupo do Instituto Evandro Chagas (IEC) isolou. Exemplos são os hantavírus Rio Mearim e Anajatuba.
Há outros vírus que lhe chamem a atenção pelo potencial de espalhamento?
Sim. Por exemplo, os causadores de encefalites equinas. Alguns deles também adoecem seres humanos. E eles ocorrem dentro e fora da Amazônia. Há os vírus da encefalite equina do Leste, o do Oeste e o da Venezuela. São encefalites raras, porém, muito graves. A letalidade pode variar entre 60% a 80%. Então, precisam estar no radar. Assim, como causador da febre do Oeste do Nilo. Ele é bem menos letal, não chega a 2%, mas provoca adoecimento e está circulando pelo Brasil. Temos casos humanos no Piauí, Ceará e Tocantins.
Os coronavírus seguem muito ativos na Ásia. A possibilidade de surgir um novo por lá é grande. Mas não será de forma alguma como no caso do Sars-Cov-2 porque hoje temos vacinas que podem ser rapidamente adaptadas para enfrentá-los. Acredito que a mesma coisa valha para outros vírus, como os hantavírus. A questão é haver recursos para desenvolver uma vacina.
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