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Zema provoca e simplifica numa mistura de Marçal, Bolsonaro e Ciro – Ramiro Batista

Fonte: ramirobatista.com.br | Data: 09/05/2026 07:02:13

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Com dados na ponta da língua e estilo provocador, o governador de Minas Gerais calibra seu discurso para atrair o eleitorado antipetista e se consolidar como gestor.

Quem votar em um, leva três. Romeu Zema é uma mistura calibrada de Pablo Marçal, Jair Bolsonaro e Ciro Gomes, para quem quiser analisá-lo sem preconceito, para além de seus cortes e suas provocações midiáticas.

  1. Tem o jeito Marçal de lançar provocações em forma de acusações a adversários ou declarações sobre temas políticos, fora do senso comum, no tamanho certo para caber num corte ou título curto para redes sociais.
  2. Carrega de Bolsonaro a simplificação para ser entendido por qualquer um, sobre temas polêmicos desconfortáveis para a esquerda lulopetista — corrupção antes e costumes hoje.
  3. De Ciro Gomes, a verve afiada. Não tem o preparo intelectual do cearense verborrágico, mas está preparadíssimo com números e réplicas para corrigir e expandir as provocações e simplificações que distribui.

Está mais preparado, como admitiu a também polêmica Daniela Lima, uma de suas entrevistadoras mais duras, na entrevista desta segunda-feira no canal Uol (com Fábio Zanini), quando se abordou a esperteza mineira de se dizer dizer gestor sendo político.

— Daniela, você acha que eu falo igual político?

— O senhor faz um bom mix, um bom mix. Tá com tudo na ponta da língua, bem treinado… de vez em quando sai pela tangente…

Na ponta da língua, com riqueza de dados, estão seus temas mais recorrentes e polêmicos: as privatizações, o combate ao desperdício e à ineficiência da máquina pública (onde entra o Bolsa Família) e a corrupção (STF na berlinda).

Sempre permeados por um antipetismo e anti-esquerdismo visceral. Princípio, meio e fim de qualquer abordagem, textualmente ou marginalmente:

— Decidi ser candidato em 2015 porque o PT tinha acabado com o meu estado.

— Vou fazer segurança com alguém da polícia que já lidou com bandido. Chega de sociólogo, assistente social e antropólogo decidindo pela segurança pública.

É por aí que vai sempre que provocado a explicar, por exemplo, as contradições entre seu discurso anti corrupção e a aliança com o bolsonarismo, que tem explicações a dar sobre verões passados. Combater o PT, devolve, onde e com quem for.

Sempre ampliando o significado do mote à Marçal, simplificando para ser entendido como Bolsonaro e disparando dados como a metralhadora giratória de Ciro.

5/5/2026

Rejeição a Messias é dano colateral em Minas e Pacheco pode não ser candidato

Há controvérsias. Na mesma hora em que a Folha informava que o presidente do PT assumia que Rodrigo Pacheco não seria mais candidato em Minas, outros canais como CNN e Metrópoles davam  que ele ainda cogita pensar até o final de maio.

Fato é que a situação está esgarçada, desde que sua fidelidade foi posta à prova dentro da campanha de Lula em Minas Gerais, com a rejeição de Jorge Messias pelo Senado comandado por seu amigo do peito, Davi Alcolumbre.

É o tipo da coisa que entorna o caldo, mas não entornaria mais do que já está entornado, se o senador não estivesse empurrando Lula e o PT com a barriga desde o ano passado.

Não faltaram sinais fracos e fortes de que nunca quis a candidatura ao governo. Como tantos outros, mais fortes ainda, de que só segurava a negativa para ver se levava uma vaga no STF como compensação em caso da derrota ao governo.

Sem chances agora — seria a última coisa que Lula entregaria na bandeja a Alcolumbre —, parece que só não antecipa o “não” por um resquício de compromisso com Lula. Do qual deve torcer para ser dispensado.

Se ficar mesmo de fora, recomeça do zero a empreitada do governo para ter candidato em Minas, com poucas e difíceis opções. Duvido das possibilidades aventadas, o empresário Josué Alencar e o ex-prefeito de BH, Alexandre Kali.

O primeiro já teve sua quota de experimento e desgaste com política, de que parece querer se afastar para sempre. O segundo ainda se sente traído depois da eleição de 22, quando concorreu contra Zema por Lula. Como Pacheco, esperava um Ministério de compensação que, como vaga de STF, não veio. 

6/5/2026

Lula é “o sistema” também para Vera Magalhães

Escrevi que Lula era “o sistema”, ao criticar seu pronunciamento antissistema do 1° de Maio, evocando a luta de classes (post de 2/5/26). Na medida em que se associava ao que a maioria anda rejeitando: Judiciário, militância woke, governo e políticos.

Pois Vera Magalhães também o chama de “o sistema” no seu artigo desta quarta-feira em O Globo, por outros motivos, perigosos a seu ver.

Seguem os dez melhores trechos/síntese:

1. “A grande surpresa do longo e pouco empolgante pronunciamento de Lula no Primeiro de Maio foi o apelo a um expediente tão gasto quanto capcioso […] o presidente resolveu culpar o ‘sistema’.”

2. “Afinal, se há um político que não só foi forjado no sistema, como praticamente passou a defini-lo, este é Luiz Inácio Lula da Silva.”

3. “Suas recentes derrotas graves no Congresso se devem ao fato de, além de não ter conseguido eleger coalizão majoritária, ter perdido apoio ao longo dos anos.”

4. “Atribuir um dos pilares de qualquer democracia — a divisão de Poderes e o papel do Legislativo — a um complô de um sistema obscuro é simplificador e denota enorme vazio de ideias.”

5. “Basta lembrar que o último presidente que se vendeu como antissistema, e trabalhou de fato para levar o arcabouço institucional ao colapso, chegou a colocar em dúvida a lisura das eleições.”

6. “A falta de governabilidade de Lula tem várias razões, todas elas concretas: o descasamento de sua vitória e da escolha de Câmara e Senado predominantemente conservadores [e] a ineficiência da articulação política.”

7. “Nos mandatos anteriores, Lula operou com habilidade dentro desse mesmo ‘sistema’ e terminou seu segundo governo com níveis recordes de aprovação.”

8. “As principais mudanças desde então foram […] o deslocamento da mobilização política das ruas e sindicatos para as redes sociais e a guinada conservadora da sociedade brasileira.”

9. “Lidar com essas variáveis é o que se espera de qualquer um que deseje comandar o país e inseri-lo num mundo igualmente sujeito a essas condições.”

10. “Ao se colocar como vítima de ‘forças ocultas’ que não o deixam entregar resultados, Lula acaba investindo contra a política formal em que foi forjado e prosperou.”

(Foto de Ricardo Stuckert / PR) 

7/5/2026

Risco é terras raras viraram disputa ideológica por soberania

“Não existe uma forma de direita ou de esquerda de varrer rua.” A ótima frase do prefeito de Nova York Fiorello Laguardia, que virou nome de aeroporto da cidade, me ocorre sempre que grandes oportunidades nacionais correm o risco de micar, por abordagem ideológica.

Como no caso do pré-sal, o grande bilhete premiado prometido para resolver todos os problemas do Brasil por algumas gerações. Virou um blefe porque a tal “soberania” limitou os investimentos ao controle da Petrobras, que, como se sabe, nunca conseguiu cuidar direito nem da vida dela para dar autossuficiência ao país.

Há tantos outros exemplos, como as grandes ferrovias, rodovias e usinas que não saem do papel desde os anos 80 — a década perdida inaugural da escada descendente do PIB, em caminho inverso ao da China. As grandes e últimas datam do regime militar.

Agora, estamos diante de um outro bilhete, as terras raras que respondem por 23% das reservas mundiais para produção dos chamados minerais críticos — lítio, nióbio, cobalto e grafite —, base da fabricação de baterias e ligas metálicas sofisticadas para celulares, carros elétricos e os drones de guerra.

Como também estamos diante de outra possibilidade de namorar com o fracasso se o discurso da soberania nacional voltar a rondá-lo, como já vem rondando. Tanto no discurso oficial quanto nos debates que interessam, da regulamentação no Congresso.

O relatório do projeto aprovado ontem na Câmara dos Deputados contém mais a expressão “soberania” do que “eficiência”, “autonomia” e “produtividade”. Diz-se que é bom, com razoável liberdade de produção e associação estrangeira, de forma a agregar valor na produção interna, ao invés de exportar terra bruta como se faz com óleo cru e minério.

Mas correu o risco de ter aprovado um Conselho para controle estatal, ao modo de varrer rua pela esquerda. Com a desculpa de “interesses nacionais” e “soberania”, certamente iria dificultar a entrada de capital, mão de obra e competência externos. A ver se será modificado para pior, com esse Conselho, no Senado.

Como deveria ter sido na exploração do petróleo de águas profundas, não há como prescindir de muito interesse — a boa ganância —para fazer investimento financeiro e humano, sem amolação do governo. E não deixar esse novo ouro enterrado, como a maior parte do petróleo nas águas profundas.

8/5/2026

Quem é o centrão, cara pálida? Centrão é esquerda também

A operação da PF que revelou o tamanho do envolvimento do senador Ciro Nogueira com o escândalo do banco Master pôs de novo em circulação um velho cacoete da militância de esquerda, alimentada por outro, da imprensa tradicional, de associar automaticamente o Centrão à direita.

É um estratagema inconsciente de apartar o que seria a parte suja da política, de forma a preservar a pureza — acima do bem e do mal — que se atribuem. Os militantes, por esperteza. Os jornalistas, por vício. Um tanto por preguiça de se aprofundar no quem é de fato o Centrão.

Tal como é percebido e propalado por todos os lados, o Centrão é uma práxis, digamos, de atuação política clientelista e fiológica. Seus parlamentares exploram prestígio e recursos públicos para distribuir verbas e obras em seus redutos eleitorais e votar a favor de qualquer governo da hora para manter essa roda girando.

Seu maior patrimônio eleitoral é o voto do prefeito, dos vereadores e das pequenas e médias cidades, aos quais paparica com verbas e obras públicas, em troca do compromisso de puxarem os votos nas eleições.

Como há milhares de cidades, a conta é feita por cabeça de prefeito. Se um parlamentar tem o apoio de 20 a 30 deles — o que é bem comum entre os eleitos —, tem grande possibilidade de reeleição. Sem, às vezes, no caso de deputados federais, sequer pisar na cidade onde é votado. Faz dobradinha com deputados estaduais, que têm o prefeito, e espera a contagem dos votos.

É um contingente associado com a direita, porque nunca perdeu tempo com ideologia, pauta de costumes ou assembleias de protestos. A não ser quando provocado. Vai dizer que é favor ou contra casamento gay,  a favor ou contra banheiro misto, dependendo do palanque, do bar ou da cidade onde estiver pedindo voto.

Mas que é coalhado de deputados da esquerda — principalmente do PT —, originários das lutas urbanas congregando minorias. Avançaram para o interior à medida que cresceram, tomaram o poder em estados e prefeituras com o lulismo e tiveram acesso a recursos para distribuir. Foram também contar prefeitos, ao preço de verbas e obras.

Nas Minas de 856 prefeituras, o PT cresceu vertiginosamente para o interior desde os anos 90. A Bahia, onde o PT ganha eleições estaduais há duas décadas, é celeiro desse tipo de parlamentar, da base à cúpula. Não é coincidência que seus luminares locais, Jacques Vagner e Rui Costa, também estejam envolvidos em denúncias do Master.

Ciro Nogueira, do PP do Piauí, é da parte aliada, dos que não tinham espaço no PT, por divergência ideológica ou conveniências regionais sérias, mas as mesmas afinidades clientelistas. Já foi lulista, dilmista e bolsonarista. Coronéis como Renan Calheiros, do MDB, os Barbalho do Pará ou mesmos os Gomes do Ceará são da mesma estirpe que contam prefeitos no embornal de votos, distribuindo verbas e obras.

O que às vezes confunde — e arrasta os desinformados — é que muitos deles ainda exibem o verniz da conversa ideológica, como um Jacques Wagner ou um Rui Costa, para ficar na Bahia. Embora continuem contando prefeitos.

Falando o que está na boda do Brasil profundo

Difícil achar quem trabalhe que não pense o mesmo o que diz em voz alta de forma simplificada, no caso do Bolsa Família.

Que se trata de uma deturpação que, pelos valores doados hoje (R$ 600 a 1 mil reais, se tiver dois filhos), estimula o ócio ou a esperteza.

É só olhar ao redor para ver que há vagas de emprego formal sobrando, não preenchidas porque é conveniente continuar trabalhando informalmente e manter o benefício.

Manobra semelhante já avacalhou o seguro desemprego, causador de alta rotatividade de pessoas que trabalham seis meses, deixam o emprego para recebê-lo e ficam mais seis na informalidade para não perdê-lo.

Não se trata de conversa de Zema. Mas de Brasil real e da falta de controle, de coragem e de interesse de controle, por inúmeros motivos. (Fernando Haddad tentou moralizar o Bolsa Família, antes que digam que é invenção.)

Zema comete o erro — ou estratégia eleitoral, porque não é bobo quanto parece — de ser simplificador e provocar alta reação em contrário. Tanto da elite intelectual que não anda nas ruas e não contrata serviços ou da militância de oposição, não interessada na verdade.

(Que vão tentar desqualificá-lo pela irrelevância: “ah, pobre não tem Netflix”. Claro que tem.)

Sair-se-ia melhor nas entrevistas se dissesse, como dizem essa elite e essa militância, quando confrontadas com fatos: que é preciso “criar uma porta de saída” para os beneficiários.

O que é a mesma coisa. Só um pouco mais pernóstico e alienado.