Minha mãe nunca leu um livro de gestão; me ensinou tudo
Fonte: economia.uol.com.br | Data: 09/05/2026 05:34:16
Não foi negligência. Foi desespero de uma menina que não sabia o que fazer e fez o que pôde.
Quando dona Delfina chegou em casa e soube, não culpou Sônia. Não gritou. Não paralisou.
Pegou aquele bebê todo queimado, com a pele se desfazendo, e no dia seguinte já estava no ônibus, no trem, a caminho do hospital. Todos os dias. Com a criança fedida no colo, entre passageiros que desviavam o olhar. Quando os médicos já tinham dito o que tinham a dizer, ela continuava indo.
Deu certo?
Esse bebê era eu.
Eu não me lembro de nada disso. Cresci ouvindo essa história, contada por dona Delfina e por Sônia, ao longo dos anos, sempre com aquela naturalidade de quem fala de um dia difícil que ficou para trás. Como se não tivesse sido nada demais. Como se qualquer mãe fizesse o mesmo.
Não faz.
Dona Delfina nasceu em Monte Sião, no interior de Minas Gerais. Veio para Carapicuíba, criou seis filhos, trabalhou como costureira na firma e depois em casa, com pedidos de vestidos e saias. Vendia bichos de pelúcia que ela mesma confeccionava. Levava uma escadinha de crianças para cima e para baixo do ônibus, do trem, da vida.
Até o fim da vida, cuidou das suas galinhas e de um pato no quintal. O sotaque caipira de Monte Sião ela manteve até o último dia, de propósito. Era a marca dela. Ela não precisava mudar para ninguém.
Há uma cena que eu nunca esqueci.
No dia do pagamento, ela nos chamava, a mim e aos meus irmãos, e entregava o salário-família para cada um. “Isso é de vocês”, ela dizia. “É o governo que manda para os filhos. Não é meu.”
Ela olhava no holerite o valor exato, dividia e entregava. Sem discurso. Sem sermão sobre honestidade…
Quando eu era criança, achava que era um presente. Levei anos para entender que não era um presente, era um princípio. Em um mundo onde todo mundo acha um jeito de ficar com o que não é seu, ela devolvia até o centavo. E fazia questão de que nós víssemos. Não para se exibir. Para que nós aprendêssemos com isso.
Ela nunca explicou. Só fazia.
Mas a história de que eu mais gosto de contar é a da bicicleta.
Eu queria uma Caloi dobrável vermelha. Queria com tudo. Recortava as propagandas dos gibis da Turma da Mônica, aquelas tirinhas com a frase “não esqueça, eu quero a minha Caloi”, e colocava nos bolsos da minha mãe, na bolsa dela, no sapato dela. Anos de insistência. Dois, três anos talvez. Ela não prometia nada. Não falava que ia comprar, não falava que não ia. Ficava em silêncio.
Um dia chegou.
Ela comprou. Parcelou em 24 vezes, com o suor do trabalho de costureira.
No dia em que a bicicleta chegou, já era tarde. Meu irmão montou. Já estava escuro, não dava para sair. Então fiquei ali, deitado de lado na cama, olhando para aquela Caloi vermelha reluzir com a luz amarela do teto.
Não dormi naquela noite.
Às 7h, fui dar a primeira volta.
Hoje mentoro líderes, falo para milhares de pessoas. Mas quando me perguntam de onde vem a minha forma de liderar, a resposta honesta começa muito antes de qualquer cargo.
Começa nessa mulher baixinha que não culpou a filha quando tudo deu errado. Que pegou o bebê e foi, sem esperar que alguém mandasse ou agradecesse. Que parcelou em 24 vezes o sonho de um filho, com o suor da máquina de costura, e nunca esperou um agradecimento.
Dona Delfina nunca leu um livro de gestão. Nunca fez um curso de liderança. Nunca teve um crachá com um título bonito.
Mas ela entendia o que significa não desistir de alguém. E o que fazer quando dá errado.
Amanhã é Dia das Mães.
Se a sua ainda está aqui, ligue agora. Diga o que você sente por ela. Não depois do almoço. Agora.
E se, como eu, você só tem a memória dela, guarde uma coisa: o maior legado de uma mãe não costuma estar nos discursos. Está nas coisas que ela fez quando ninguém estava olhando. E quando todo mundo já tinha desistido.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.