Para quem bebe detergente, explicação de Flávio Bolsonaro faz sentido
Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br | Data: 14/05/2026 06:25:55

A pergunta mais óbvia depois de se ouvir o áudio (ouça abaixo) em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro a Daniel Vorcaro é se as revelações desta quarta-feira (13) significam o fim da linha para a candidatura do filho mais velho de Jair Bolsonaro. A resposta não é tão óbvia assim.
Para fanáticos que bebem detergente, qualquer explicação cola. Só que nem todos os eleitores de Flávio — esses 34% da pesquisa Quaest — são do tipo capaz de encher uma embalagem de lava-louças com iogurte para dizer que estão tomando um produto que a Anvisa mandou tirar do mercado por questões sanitárias. Ou que fingem lavar um frango com o detergente da marca Ypê, por identificação ideológica. São, em boa parte, eleitores que não querem a reeleição do presidente Lula e identificam (ou identificavam) em Flávio o único dos candidatos capaz de tirar o PT do poder.
Poucas horas depois da divulgação da reportagem do Intercept Brasil e da repercussão em veículos tradicionais, nos bastidores discutia-se a substituição de Flávio por Michelle Bolsonaro, uma operação complexa dada a péssima relação dos filhos do ex-presidente com a madrasta. Por enquanto, a candidatura está mantida, à espera de novas revelações e das próximas pesquisas. A depender do impacto, Michele pode ser, sim, a carta na manga do presidente do PL, Valdemar Costa Neto.
Ouça o áudio:
A defesa de Flávio tem uma inconsistência gritante. Ele trata a relação com Vorcaro como simples pedido de patrocínio de um filho que deseja viabilizar o filme sobre a vida do pai. Dá a entender que conversa com Vorcaro como se fosse um banqueiro qualquer e não alguém da sua intimidade. Não é esse o tom do áudio que neste momento corre o Brasil. O áudio e as mensagens de texto sugerem uma relação muito próxima, afetuosa até.
Defensores de Flávio dizem que ele não tinha como saber que o Master era um banco envolvido em falcatruas. Só que no áudio em que entrega o futuro nas mãos de Deus, Flávio dá a entender que acompanha o que Vorcaro vem sofrendo — isso dois meses antes de o banqueiro ser preso.
Na véspera da prisão, volta a pedir uma “luz”. E manda as tais mensagens de visualização única, respondidas nos mesmos moldes por Vorcaro.
Há outro ponto que a investigação precisa se aprofundar. É o valor negociado com Vorcaro e o custo do filme — porque não se pode descartar a possibilidade de uso de uma produção cinematográfica para lavar dinheiro ou fazer caixa de campanha. Só os R$ 61 milhões recebidos (metade do prometido) significam mais que o dobro do que custou O Agente Secreto, o filme estrelado por Wagner Moura que disputou o Oscar e ganhou outros prêmios mundo afora.
Se o combinado eram R$ 134 milhões, o que explica uma produção tão cara para a cinebiografia de um ex-presidente que na vida só foi duas coisas — militar transferido precocemente para a reserva e deputado federal do baixo clero?