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Inflação médica: a conta da saúde que cresce mais rápido que a economia

Fonte: osul.com.br | Data: 16/05/2026 00:23:00

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Por

Mariana Ziebell Ramos

| 16 de maio de 2026

O aumento dos preços na área da saúde (inflação médica) não é apenas um reflexo da alta do índice geral. (Foto: Agência Brasil)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

O aumento dos preços na área da saúde (inflação médica) não é apenas um reflexo da alta do índice geral. Historicamente, no Brasil e no mundo, os gastos com saúde crescem em um ritmo mais acelerado que o da economia em geral.

A inflação médica é mensurada principalmente por meio da Variação de Custo Médico-Hospitalar (VCMH), um indicador calculado pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS). A VCMH é obtida pela razão entre os custos assistenciais das operadoras e o número de beneficiários. Ela quantifica a variação das despesas médico-hospitalares, servindo de base para o cálculo de reajuste das mensalidades dos planos de saúde – embora cada operadora possa determinar o seu próprio percentual.

Mesmo que em ritmo distinto, a inflação médica ainda se relaciona com o cenário macroeconômico. Com o aumento do custo de vida, é natural que haja elevação dos preços dos insumos e da mão de obra. Entretanto, a causa da inflação médica vai além. As novas tecnologias, o aumento da expectativa de vida, a judicialização da saúde, a masior utilização do sistema e a dependência de colaboradores especializados fazem com que os custos do setor da saúde se elevem e, consequentemente, a VCMH ultrapasse o IPCA. Ainda que os valores dos planos de saúde unitários permanecessem estáveis, o simples crescimento do volume assistencial, ou seja, a maior utilização dos benefícios (dada pelo envelhecimento populacional e pelo aumento de frequência de consultas, exames e procedimentos), já seria suficiente para pressionar o sistema.

Nos 12 meses encerrados em junho de 2023, por exemplo, a VCMH foi de 15,1%, e o IPCA, em torno de 3,2%, indicando uma inflação médica aproximadamente cinco vezes maior do que a geral. Como tentativa de conter esse ritmo, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) estabeleceu um reajuste máximo de 6,06% para planos individuais e familiares para o período de 2025 a 2026. Entretanto, mais de 80% dos beneficiários usufruem de planos coletivos (empresarias ou por adesão), os quais não contam com limites estabelecidos pela instituição e têm recebido atualizações superiores a 20%.

A discussão ultrapassa as metas ou os limites de reajuste anuais. Trata-se de refletir sobre a sustentabilidade do atual modelo e estudar mudanças estruturais. Sem maior eficiência assistencial, coordenação do cuidado e racionalização de custos, a conta seguirá crescendo em ritmo superior à capacidade de pagamento dos próprios clientes.

O Brasil é o epicentro de inovação em saúde da América Latina. As novas tecnologias desenvolvidas no país são necessárias e salvam vidas. Os planos prometem fazer com que o usuário possa usufruir disso. Entretanto, o repasse desse custo cairá sobre o bolso do próprio pagador.

A conta da saúde não parece fechar: os custos são maiores do que o país pode suportar – e esse fenômeno não é exclusividade do Brasil. As novas tecnologias são tentadoras, mas o acesso a elas parece distante da realidade. O futuro do setor depende de torná-las tangíveis e economicamente viáveis.

Será necessário que a saúde suplementar ultrapasse os desafios da judicialização e sustente uma mudança estrutural que possa viabilizar esse acesso. Enquanto isso, trata-se de alinhar expectativas, evitando promessas que não se enquadrem na realidade.

* Mariana Ziebell Ramos, cirurgiã-dentista e associada do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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