El Niño avança e expõe fragilidades do Brasil diante de eventos climáticos extremos – Semana On
Fonte: semanaon.com.br | Data: 03/06/2026 14:00:10
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O avanço de uma nova configuração do fenômeno El Niño no Oceano Pacífico recolocou o Brasil em estado de atenção diante da possibilidade de eventos climáticos extremos nos próximos meses. Monitoramentos realizados por satélites, radares e boias oceânicas indicam que o aquecimento das águas equatoriais do Pacífico já apresenta características compatíveis com o desenvolvimento do fenômeno. Embora ainda existam incertezas sobre sua intensidade máxima, organismos internacionais, pesquisadores e autoridades nacionais convergem na avaliação de que os impactos poderão ser significativos.
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A Organização Meteorológica Mundial (OMM) estima em cerca de 90% a probabilidade de ocorrência do El Niño ainda neste ano. Segundo a entidade, o fenômeno poderá intensificar secas, chuvas extremas e ondas de calor em diversas regiões do planeta, ampliando os efeitos já produzidos pelo aquecimento global.
“Precisamos nos preparar para um evento El Niño potencialmente forte”, advertiu a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo. A dirigente ressaltou que mesmo episódios classificados como moderados são capazes de aumentar substancialmente a probabilidade de eventos climáticos severos.
As observações realizadas entre o final de abril e meados de maio mostram que a temperatura da superfície do mar na faixa de monitoramento do Pacífico Equatorial já se aproximava dos limiares característicos do fenômeno. O processo vem sendo alimentado por um volume excepcional de calor armazenado abaixo da superfície oceânica, com registros superiores a 6°C acima da média histórica.
Além do aquecimento das águas, outro indicador acompanhado pelos especialistas, o Índice de Oscilação Sul, também apresenta comportamento compatível com o estabelecimento das condições típicas do El Niño.
Intensidade ainda é incerta
Embora o fenômeno esteja em formação, os cientistas ainda buscam determinar onde exatamente ocorrerá o núcleo mais intenso de aquecimento no Pacífico. Essa definição é considerada crucial para prever com maior precisão os impactos regionais.
Para o professor de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), Tércio Ambrizzi, a expressão “super El Niño” não é adequada do ponto de vista técnico. Segundo ele, o consenso predominante entre os pesquisadores aponta para um evento de intensidade entre moderada e forte.
José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), destaca que os primeiros sinais dos efeitos do fenômeno devem surgir ainda durante a primavera no Sul do Brasil, principalmente por meio do aumento das precipitações.
A OMM reforça que a maioria dos modelos climáticos projeta um episódio ao menos moderado, com possibilidade de alcançar intensidade forte. Ainda assim, especialistas alertam que não existe uma reprodução exata entre diferentes ocorrências do fenômeno.
“Cada El Niño tem sua própria impressão digital. Ele nunca é igual ao outro”, observa Ambrizzi.
Essa singularidade dificulta previsões detalhadas e exige monitoramento constante ao longo de sua evolução.
Brasil no centro das preocupações
Nos cenários analisados por organismos internacionais, o Brasil aparece entre os países potencialmente mais afetados. Os riscos envolvem desde impactos sobre a geração de energia elétrica até prejuízos agrícolas e aumento da frequência de desastres naturais.
No Nordeste, a redução das chuvas pode agravar a escassez hídrica e comprometer a geração hidrelétrica. “Precisamos ficar atentos à geração de energia por hidroelétricas”, alertou Celeste Saulo.
A secretária-geral da OMM também chamou atenção para a situação da Amazônia. Segundo ela, a região vinha se recuperando de um período prolongado de estresse climático e poderá enfrentar novas pressões caso a seca se intensifique.
As projeções indicam ainda maior risco de incêndios florestais no Norte do país, especialmente em áreas já vulneráveis à degradação ambiental.
No Sudeste, o cenário é oposto. A tendência é de aumento das chuvas intensas, elevando a possibilidade de enchentes, deslizamentos de terra e outros eventos associados a precipitações extremas.
“O caso do Sudeste, incluindo cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, em geral enfrenta enchentes, chuvas intensas e deslizamentos”, afirmou Saulo.
Já na Região Sul, a expectativa é de precipitações acima da média, condição historicamente associada ao fenômeno.
Lembranças recentes reforçam preocupação
A preocupação atual é alimentada pela memória recente dos impactos causados pelo último episódio intenso de El Niño, registrado entre 2023 e 2024. Considerado um dos cinco mais fortes já observados, ele contribuiu para o estabelecimento de recordes globais de temperatura.
No Brasil, os efeitos ficaram evidentes especialmente no Rio Grande do Sul. Em 2024, uma combinação de fatores atmosféricos, incluindo a influência do El Niño, contribuiu para a maior inundação já registrada na história do estado.
Mesmo diante dessas experiências recentes, especialistas avaliam que o país ainda não avançou na velocidade necessária em políticas permanentes de adaptação climática.
“Os governos e autoridades em geral parecem mais preocupados. Mas só isso não é suficiente”, afirma Marengo. Segundo ele, a elevação contínua da temperatura global exige mudanças estruturais que vão além da resposta a eventos específicos.
Monitoramento avança, mas adaptação segue insuficiente
Questionada sobre as medidas em andamento, a Defesa Civil Nacional informou acompanhar diariamente as condições meteorológicas em articulação com estados, municípios, Cemaden e Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Segundo o órgão, ainda não há prognósticos suficientemente precisos para definir todos os impactos do fenômeno. Por isso, a estratégia atual concentra-se no monitoramento contínuo e na preparação antecipada para eventual emissão de alertas e adoção de medidas preventivas.
No entanto, pesquisadores e representantes de movimentos sociais avaliam que o país ainda apresenta lacunas significativas na preparação para eventos climáticos extremos.
Nas áreas periféricas e comunidades mais vulneráveis, a percepção é de que os investimentos em adaptação permanecem insuficientes.
“As periferias das cidades já sofrem com impactos acumulados por vários desastres. Não temos quase nada pronto para adaptar nossas comunidades a esse cenário”, afirma Thaynah Gutierrez, secretária-executiva da Rede por Adaptação Antirracista.
A dirigente cita como exemplo as periferias de Porto Alegre, fortemente afetadas pelos eventos extremos ocorridos em 2024.
Especialistas defendem mudança de foco
Para estudiosos da gestão de riscos, a preparação para desastres não deveria depender da confirmação de fenômenos específicos como El Niño ou La Niña.
Victor Marchezini, sociólogo do Cemaden e coordenador do Projeto Capacidades Organizacionais de Preparação para Eventos Extremos, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), defende uma mudança de paradigma.
Segundo ele, o debate público costuma concentrar-se excessivamente na tentativa de prever exatamente qual desastre ocorrerá — seca, enchente ou tempestade — quando o principal objetivo deveria ser fortalecer permanentemente a capacidade de adaptação dos territórios.
“Mais do que reagir a cada novo alerta, os territórios devem estar preparados. O foco precisa estar na resiliência das cidades, da infraestrutura e dos sistemas produtivos”, argumenta.
O pesquisador destaca que uma política contínua de preparação permitiria, por exemplo, antecipar processos licitatórios e contratos voltados à resposta a desastres, reduzindo custos emergenciais e aumentando a eficiência das ações governamentais.
Desinformação e alarmismo dificultam prevenção
Outro desafio apontado pelos especialistas envolve a comunicação do risco.
A proliferação de previsões meteorológicas em redes sociais, frequentemente produzidas por consultorias privadas e influenciadores digitais, contribui para a circulação de mensagens contraditórias.
Segundo Marchezini, esse excesso de informações dificulta que a população identifique quais previsões são mais confiáveis e quais medidas concretas devem ser adotadas.
Gutierrez acrescenta que grande parte da população sequer acompanha regularmente análises climáticas especializadas, tendo acesso ao tema principalmente por meio de conteúdos virais.
Para ela, falta aos governos um conhecimento mais detalhado sobre os territórios mais vulneráveis e suas necessidades específicas.
“Nós queremos falar sobre isso de forma responsável e cobrar governos para que priorizem esses territórios na preparação”, afirma.
Alertas internacionais e desafios políticos
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, classificou o avanço do fenômeno como um alerta climático urgente.
“A ciência é clara: o El Niño está chegando à nossa porta nos próximos meses com 90% de certeza”, declarou.
Segundo ele, as condições associadas ao fenômeno devem intensificar ainda mais os efeitos do aquecimento global, ampliando riscos que ultrapassam fronteiras nacionais.
Guterres defende uma combinação de ações estruturais para enfrentar o cenário, incluindo a redução da dependência de combustíveis fósseis, a aceleração da transição energética, a proteção de populações vulneráveis e a ampliação dos sistemas de alerta precoce.
Enquanto isso, a realidade brasileira expõe contradições entre discurso e investimento. Em Santa Catarina, por exemplo, o governo estadual decretou estado de alerta climático até novembro. Dados do Sistema Integrado de Planejamento e Gestão Fiscal (Sigef-SC), divulgados pela Assembleia Legislativa, mostram, porém, baixa execução dos recursos destinados à prevenção de desastres.
Em 2025, apenas 15,4% do orçamento aprovado para a Secretaria de Proteção e Defesa Civil havia sido efetivamente executado. Na área destinada à construção, ampliação e reforma de barragens, o percentual empenhado ficou em apenas 0,66%.
Para Gutierrez, a discussão sobre adaptação climática também deve passar pelo debate político e pelo acompanhamento da aplicação dos recursos públicos.
“Não podemos continuar elegendo políticos que vão usar os recursos que deveriam ir para o preparo e adaptação aos eventos extremos para desvios”, afirma.
À medida que o aquecimento do Pacífico se consolida e as previsões se tornam mais precisas, cresce entre especialistas a percepção de que o principal desafio não é apenas antecipar os impactos do próximo El Niño. A questão central é construir capacidade permanente de adaptação em um mundo onde eventos extremos deixam de ser exceção e passam a integrar a nova realidade climática.
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