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O infarto não espera: por que o SUS precisa ampliar seu arsenal contra o colesterol alto | VEJA

Fonte: veja.abril.com.br | Data: 03/06/2026 14:17:27

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Novas drogas para acompanhar a evolução da ciência: protocolos precisam de atualização (Ilustração: VEJA SAÚDE/VEJA)

As doenças cardiovasculares continuam liderando as causas de morte no Brasil e no mundo. Infarto e acidente vascular cerebral (AVC) concentram grande parte dessa tragédia: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de quatro em cada cinco mortes cardiovasculares globais são provocadas por infartos e derrames. No Brasil, o Ministério da Saúde estima entre 300 mil e 400 mil casos de infarto por ano, com uma morte a cada cinco a sete ocorrências.

Nesse cenário, o colesterol LDL — frequentemente chamado de “colesterol ruim” — merece atenção prioritária. Quando elevado, ele favorece a formação de placas nas artérias, processo conhecido como aterosclerose. Essas placas podem obstruir a circulação ou romper, abrindo caminho para um infarto ou um AVC.

O LDL alto não é o único fator de risco: hipertensão, diabetes, tabagismo, obesidade e sedentarismo também pesam. Mas controlar o colesterol é uma das intervenções mais importantes e viáveis para reduzir eventos cardiovasculares.

O SUS oferece tratamento, mas o arsenal de remédios precisa ser revisto. Na atenção básica, a sinvastatina está disponível há muitos anos. Para pacientes que necessitam de uma terapia mais intensa, a atorvastatina pode ser obtida pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, mediante critérios clínicos, exames e documentação.

O protocolo público também inclui a pravastatina. Ou seja: não são apenas duas estatinas, mas o acesso à opção mais potente costuma envolver uma jornada burocrática maior.

Enquanto isso, o tratamento do colesterol avançou. A rosuvastatina é uma estatina potente. A ezetimiba reduz a absorção intestinal de colesterol e pode ser associada a uma estatina. O ácido bempedoico é uma alternativa oral para situações selecionadas.

Entre as terapias mais recentes, há medicamentos voltados à PCSK9, como o evolocumabe, um anticorpo monoclonal, e a inclisirana, injeção semestral que reduz a produção dessa proteína. A pitavastatina também pode ser uma opção em casos específicos, considerando tolerabilidade e possíveis interações medicamentosas.

A tendência da ciência não é simplesmente trocar um comprimido por outro. É combinar mecanismos de ação para alcançar metas de LDL cada vez mais rigorosas, especialmente em pessoas que já sofreram infarto ou AVC e apresentam maior risco de recorrência.

A Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025 recomenda, para indivíduos de alto risco cardiovascular, considerar desde o início estatina de alta intensidade associada à ezetimiba. Diretrizes europeias também reforçam o uso de terapias combinadas às estatinas quando a meta não é atingida ou quando a tolerância limita o tratamento.

A discussão não pode ignorar a farmacoeconomia

Medicamentos mais modernos têm custos diferentes e não devem ser incorporados indiscriminadamente. Mas também é preciso contabilizar o preço de um infarto evitável: internação, procedimentos, reabilitação, incapacidade para o trabalho e perda de qualidade de vida.

Em 2025, a Conitec analisou a rosuvastatina para pacientes de alto e muito alto risco. A avaliação estimou que a versão de alta intensidade poderia ser custo-efetiva em comparação com estatinas de alta intensidade já oferecidas pelo SUS. Ao mesmo tempo, a incorporação em larga escala teria impacto orçamentário acumulado entre R$ 407,7 milhões e R$ 771 milhões em cinco anos, conforme o cenário.

A decisão final foi pela não incorporação. A ezetimiba combinada a estatinas também não foi incorporada ao SUS para esse público.

Esses números mostram que a solução exige estratégia: definir grupos prioritários, atualizar protocolos e negociar preços para terapias capazes de beneficiar quem permanece longe da meta de LDL apesar do tratamento disponível.

Hoje, uma pessoa com recursos financeiros pode discutir combinações modernas no consultório. Já o paciente do SUS frequentemente depende de opções mais limitadas e de processos demorados. Quando a principal causa de morte está em jogo, reduzir essa desigualdade não é luxo. É política pública essencial.

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