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Dilma e Temer criaram o Pix – Revista Fórum

Fonte: revistaforum.com.br | Data: 05/06/2026 09:06:48

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  • O Banco Central indica que a concepção do Pix começou em 2014, durante o governo de Dilma Rousseff (PT).
  • A implementação efetiva do sistema foi formalizada em maio de 2018, sob a gestão de Michel Temer (MDB), via portaria 97.909.
  • Em meio à investigação dos EUA que pode impor 25 % de taxa sobre produtos brasileiros, surgiram reivindicações de Jair Bolsonaro e de seus filhos sobre a autoria do Pix.
  • O presidente Lula reafirmou que “o Pix é do Brasil”, contrapondo as alegações dos Bolsonaro.

Em meio à crise gerada pela investigação comercial dos EUA contra o Pix, que ameaça taxar produtos brasileiros em 25%, um debate oportunista ressurgiu: afinal, foi Jair Bolsonaro quem criou o sistema?

Nas redes, Lula defendeu o Pix com a frase “o Pix é do Brasil”. Já Flávio Bolsonaro exibiu cartaz dizendo: “O Pix é do Brasil e do Bolsonaro”, afirmando que o sistema “foi feito pelo ex-presidente”. A narrativa foi repetida por Eduardo Bolsonaro, ex-deputado e foragido na justiça brasileira radicado nos Estados Unidos.

Essa versão, embora conveniente ao bolsonarismo, é factualmente incorreta. Documentos oficiais do Banco Central mostram que as bases do Pix foram lançadas nos governos de Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB).

As origens no governo Dilma (2014)

Segundo relatório de 2022 do próprio BC, a primeira manifestação sobre a necessidade de “soluções que permitam, a baixo custo, pagamentos de varejo em tempo real” surgiu em 2014, no Relatório de Vigilância do Sistema de Pagamentos Brasileiro, ainda no primeiro mandato de Dilma. A semente conceitual do Pix foi plantada há mais de uma década, num governo do PT, muito antes de Bolsonaro ser cogitado à Presidência.

A efetiva criação com Temer (2018)

Em maio de 2018, ainda sob governo Temer, o BC editou a portaria 97.909, que instituiu grupo de trabalho para “construir um ecossistema de pagamentos instantâneos competitivo, eficiente, seguro e inclusivo”. O nome “Pix” ainda não existia, mas a infraestrutura central já era definida: liquidação pelo BC, 24/7, em tempo real.

Em dezembro de 2018, último mês do governo Temer, o BC divulgou o comunicado 32.927, estabelecendo os requisitos fundamentais do Pix, com a diretoria da autarquia aprovando o projeto.

O papel passivo de Bolsonaro

O Pix foi lançado em novembro de 2020, já na gestão Bolsonaro. Mas ser o governante na data de estreia de um projeto que levou dez anos sendo desenvolvido é muito diferente de ter criado o sistema.

A infraestrutura tecnológica começou a ser desenvolvida em outubro de 2019, e a marca “Pix” foi apresentada em fevereiro de 2020. No entanto, quando um apoiador o parabenizou pelo novo sistema, em outubro de 2020, Bolsonaro demonstrou total desconhecimento: confundiu o Pix com desburocratização da aviação civil e respondeu: “Não tomei conhecimento, vou conversar com o Roberto Campos”.

Ou seja: o presidente que supostamente teria “criado” o Pix sequer sabia do que se tratava um mês antes de ele entrar em operação.

Por que essa distinção importa?

Atribuir a criação do Pix a Bolsonaro não é uma mera falsificação histórica. É uma apropriação eleitoral de uma política pública bem-sucedida, reconhecida internacionalmente — o Prêmio Nobel Paul Krugman já elogiou o Pix como modelo de inclusão financeira.

Portanto, é mentirosa a afirmação de que “o Pix foi criado por Bolsonaro”. Os estudos conceituais são de 2014 (governo Dilma), e a estruturação ocorreu em 2018 (governo Temer). O ex-presidente apenas esteve no cargo quando o sistema, já projetado, entrou no ar.

O Pix é, sim, do Brasil. Mas, especificamente, é uma herança dos governos Dilma Rousseff e Michel Temer — com o “mérito” de Bolsonaro restrito a não ter atrapalhado o lançamento de um projeto que ele sequer conhecia.

Essa apropriação da autoria não é um erro, mas uma tática central do sistema narrativo da extrema direita. A estratégia criada por Steve Bannon transforma a mentira em metodologia política: substitui o debate factual pela emoção, alimenta o ressentimento popular e desestabiliza adversários com narrativas fabricadas. No Brasil, o “gabinete do ódio” da extrema-direita segue atuando exatamente sob essa lógica, criando falsas controvérsias sobre o Pix, como criou sobre as urnas eletrônicas e a lisura eleitoral visando claramente corroer a confiança nas instituições e manter sua base mobilizada pelo medo e pela desinformação.

*Chico Cavalcante é jornalista

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum