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Margareth Dalcolmo: entre a literatura e o compromisso com a ciência

Fonte: mais.opovo.com.br | Data: 06/06/2026 08:43:45

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Nascida em uma família de juristas, por muitos anos ela quis ser diplomata. Mas o encontro com a Medicina foi sem volta. Entre o amor pela literatura e o empenho na pesquisa científica, forjou-se uma defensora da ciência, do humanismo e do compromisso inegociável com a verdade. 

De uma adolescente engajada nas causas sociais, que sempre gostou de cuidar de gente, Margareth Dalcolmo tornou-se médica pneumologista e pesquisadora com carreira exitosa.  

Margareth Dalcolmo, médica pneumologista e pesquisadora sênior da Fiocruz, teve atuação importante na comunicação da saúde e da ciência durante a pandemia de Covid-19(Foto: AURÉLIO ALVES)

Foto: AURÉLIO ALVES

Margareth Dalcolmo, médica pneumologista e pesquisadora sênior da Fiocruz, teve atuação importante na comunicação da saúde e da ciência durante a pandemia de Covid-19

Ao O POVO, a pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e membro titular da Academia Nacional de Medicina (ANM) alerta sobre a previsão de novas pandemias nos próximos anos e elogia a capacidade da comunidade científica nacional em gerar inovações mesmo sob adversidades.

Dalcolmo também reflete sobre os desafios estruturais do Sistema Único de Saúde (SUS), o compartilhamento de desinformação durante a pandemia da Covid-19 e a precarização da formação médica no Brasil.

O POVO – A senhora vem de uma família de juristas e pensou em ser diplomata. Como foi esse encontro com a Medicina?

Margareth Dalcolmo – Realmente, a minha família é uma família que tem muito pouca tradição médica. Na verdade, eu só tenho dois primos médicos mais ou menos da mesma geração que eu, um pouquinho mais velhos, com quem eu tive muito pouco contato na vida. E eu venho do meio da justiça.

Meu pai era advogado, meu avô era advogado, minhas tias eram uma juíza e outra promotora. Então, cresci nesse meio e, desde muito pequena, eu sempre li muito, sempre fui uma criança muito curiosa, muito aventureira, muito sonhadora, tinha um imaginário fertilíssimo e dizia que ia ser diplomata. E meu primeiro presente, além de uma boneca, naturalmente, que eu tinha e gostava muito, foi um grande quebra-cabeça de mapa-mundi que meu pai me deu.

Então, eu me lembro que eu botava aqueles alfinetinhos coloridos nos lugares. Sempre escolhia nomes exóticos para os lugares. E, assim, meus pais levaram aquilo à sério e me puseram para estudar línguas muito cedo. Na Cultura Inglesa, na Aliança Francesa, onde eu entrei ainda adolescente.

Mas eu sempre fui muito jeitosa para cuidar. Eu sempre gostei muito de estar com as pessoas mais velhas e sempre tive um jeito assim, uma curiosidade em relação a ouvir o outro, cuidar do outro, né? Eu lia muito e, aos 17 anos de idade, já no ano de fazer o cursinho pré-vestibular, eu tomei a decisão de que não seguiria a carreira de humanas e iria fazer vestibular para Medicina.

Meus pais ficaram muito surpresos nessa ocasião e, enfim, eu tinha feito curso clássico, não tinha feito curso científico, que era a formação da minha geração. E eu disse aos meus pais que eu já tinha combinado tudo com os meus colegas, que eu ia dar aula de português, inglês, história, geografia para eles, eles iam me ensinar física e química para poder melhorar as minhas condições. E assim foi.

Margareth Dalcolmo graduou-se em Medicina pela Escola de Medicina da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (1978) com residência médica em Pneumologia. Obteve Especialização em Pneumologia Sanitária pela Fiocruz (1981) e doutorado em Medicina (Pneumologia) pela Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (1999)(Foto: AURÉLIO ALVES)

Foto: AURÉLIO ALVES

Margareth Dalcolmo graduou-se em Medicina pela Escola de Medicina da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (1978) com residência médica em Pneumologia. Obteve Especialização em Pneumologia Sanitária pela Fiocruz (1981) e doutorado em Medicina (Pneumologia) pela Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (1999)

E eu jamais tive qualquer minuto de hesitação. Era um momento do Brasil muito difícil. Nós estávamos na ditadura militar, no final da ditadura. E eu fiquei muito chocada vendo gente da minha geração sendo presa. Enfim, foi um momento muito difícil.

Eu sempre fui uma adolescente profundamente consciente e muito engajada nas causas sociais. De modo que foi uma decisão muito madura para uma adolescente, da qual eu jamais tive qualquer arrependimento. Meus pais riram na minha primeira decisão, achando que na primeira aula de anatomia, com cheiro de formol, eu ia mudar de ideia e voltar para o meu desejo original. Isso nunca aconteceu.

Então, foi uma decisão que me deu muito prazer ao longo da minha vida, de uma carreira bem sucedida, que me deu certamente muitas preocupações, cuidar de gente é algo muito desafiador, mas também é fascinante. Eu gosto de gente e, para ser médico, eu sempre digo aos meus alunos, têm que gostar de gente, né? E eu gosto de gente, gosto de cuidar, gosto de ouvir, gosto de estudar e continuo trabalhando, pesquisando.

Eu sou pesquisadora clínica, trabalho com pesquisas, não de bancada, de laboratório, mas pesquisas com pessoas. Então, isso prova, na verdade, ao longo da minha carreira, essa consistência foi se fazendo trabalhando sempre com pessoas, procurando um propósito, digamos assim, de fazer alguma coisa que coletivamente pudesse ser útil. Essa foi a minha entrada na Medicina. Foi serena, surpreendente para os outros, mas enfim, sem volta.

OP – A senhora falou que, desde criança, gostava muito de ler, tinha muita criatividade e, até hoje, é uma leitora voraz, tem uma super biblioteca também, é escritora. Quais são os seus livros preferidos, autores? A senhora acha que esse arcabouço da leitura também influenciou a senhora como médica e como pesquisadora?

Margareth – Isso é importante ser dito, hoje, num momento em que nós estamos vivendo, em que as pessoas ficam muito tentadas a se dispersar ou ler de maneira muito superficial por algo que eu considero muito nocivo nos dias que nós vivemos, que chamam-se redes sociais.

'Eu me lembro quando eu fiquei assim uma noite sem dormir, quando eu li o Segundo Sexo e aquela volúpia de entender o nosso papel de mulher no mundo'(Foto: AURÉLIO ALVES)

Foto: AURÉLIO ALVES

‘Eu me lembro quando eu fiquei assim uma noite sem dormir, quando eu li o Segundo Sexo e aquela volúpia de entender o nosso papel de mulher no mundo’

As redes sociais, se bem usadas, podem ser muito úteis, são úteis para o nosso trabalho, para uma informação imediata, a inteligência artificial chegou para nos ajudar nesse sentido. Eu tenho escritores que marcaram muito, desde cedo de ter lido, livros que marcaram muito a minha vida. Eu já escrevi um artigo sobre isso.

O livro que marcou a minha vida, a minha carreira, a minha especialidade é a Montanha Mágica, de Thomas Mann, que é um livro absolutamente seminal na minha formação, como A Morte de Ivan Ilitch, do (Liev) Tolstói. Mas a minha autora querida, preferida, é Marguerite Yourcenar, que escreveu livros maravilhosos, tem uma biografia maravilhosa, Simone de Beauvoir naturalmente, porque marcou a minha geração, né?

Eu me lembro quando eu fiquei assim uma noite sem dormir, quando eu li o Segundo Sexo e aquela volúpia de entender o nosso papel de mulher no mundo. Então, ler Simone naquele momento fez muita diferença. Muitos outros autores, eu sempre li muito. Você acabou de mencionar que eu tenho uma bela biblioteca, né?

Eu fui casada durante quase três décadas com um grande intelectual também (Cândido Mendes de Almeida, imortal da Academia Brasileira de Letras, falecido em 2022). Era uma casa que não tinha filhos, mas tinha duas bibliotecas, né? Hoje, tem uma só. Então, nós passávamos de uma para outra. Isso foi enriquecedor também porque propiciou um diálogo humano. Meu marido era um grande humanista, então, um diálogo de grande densidade e humana, né?

Eu acho que um médico não pode ler só artigos. Existe uma frase dita ainda no século XIX por um médico português que dizia: “Um médico que só sabe medicina, nem medicina sabe.” E eu considero essa frase absolutamente definitiva. Se nós não procurarmos entender onde nós estamos inseridos, sobretudo sendo brasileiros… E gostando do Brasil, como eu gosto, né? Eu gosto muito do Brasil, eu gosto muito de viver aqui.

Viver no Brasil para mim é uma opção. Uma escolha deliberada. Foi aqui que eu fiz a minha carreira, foi aqui que eu conheci pessoas e encontrei os amores, tenho minha família, embora minha família seja de imigrantes. Eu sou de origem italiana. Então, eu sou como grande parte do Brasil, venho daqueles que vieram para construir esse país. Acho que isso reforça um compromisso muito forte.

Lançamento da Fundação Elmo: Armênio Aguiar, Márcia Alcântara, Margareth Dalcolmo e Marcelo Alcantara(Foto: João Filho Tavares)

Foto: João Filho Tavares

Lançamento da Fundação Elmo: Armênio Aguiar, Márcia Alcântara, Margareth Dalcolmo e Marcelo Alcantara

OP – A senhora teve uma atuação muito conhecida pela população em geral por causa da Covid-19, muito por causa do seu quê de comunicação também, né? Como foi essa experiência de comunicar sobre a ciência em um período tão delicado com relação a fake news, tão eivado de desinformação?

Margareth – De novo, foi um compromisso público que eu assumi desde que percebi ainda no dia 14 de março de 2020, quando eu dei a primeira entrevista pública sobre a Covid-19 no Brasil numa grande rede de televisão que me convidou. Porque eu havia gravado um pequeno filminho, eu nem sabia naquela época usar esse termo que eu vou usar que chama-se viralizar.

Havia viralizado, em 36 horas no ar tinha alcançado 25 milhões e meio de visualizações. Foi por essa razão que uma rede de televisão me telefonou. E eu tinha gravado esse pequeno videozinho porque eu havia saído de Brasília, onde estava assessorando o ministro (Luiz Henrique) Mandetta, na ocasião, para elaborar as primeiras recomendações para conduta, como nós deveríamos nos comportar na epidemia que tava chegando, que já estava se instalando no Brasil.

Eu havia participado, 17 anos antes, do grupo que havia assessorado o ministério quando houve a epidemia de H1N1. Na época, era ministro (José Gomes) Temporão. Naquela ocasião, fizemos todas as providências necessárias, tínhamos estoque de remédio, tínhamos vacina comprada, ao contrário do que estava acontecendo naquele momento onde o Brasil não tinha nem sequer a continência necessária para enfrentar a tragédia que começava a se abater sobre o País. E eu anunciei ao público isso.

Ao fazê-lo, eu percebi que havia tido um impacto muito grande nas televisões e nos órgãos de comunicação. Havia uma maneira de informar e eu tomei esse compromisso de dizer a verdade sempre, por pior que ela fosse.

Há um exemplo muito paradigmático para mim que foi no Natal de 2020, quando o jornal me perguntou: “É verdade que a senhora vai dizer que não pode ter Natal no país mais católico do mundo?”. Eu disse “Vou dizer que não pode ter Natal”. Estavam morrendo 2.000 pessoas por dia, não tinha nem como enterrar, né? Nós estávamos abrindo cova rasa em São Paulo, Manaus, a tragédia instalada.

Margareth Dalcolmo veio a Fortaleza para lançamento da Fundação Elmo(Foto: AURÉLIO ALVES)

Foto: AURÉLIO ALVES

Margareth Dalcolmo veio a Fortaleza para lançamento da Fundação Elmo

Então, eu sempre disse que sim. Com todos os ônus e bônus que isso, evidentemente, encerrava. Essa forma de se comunicar é algo que acho que é uma característica, não diria que é um dom, mas uma uma característica, uma coisa de quem ensina. Uma maneira pedagógica, digamos assim, de dar as piores notícias, como nós damos as notícias más.

Como nós damos a alguém que tem uma doença grave, que não há mais o que fazer ou comunicar a família, né? Há uma maneira de se saber fazer isso de modo a atenuar o sofrimento, seja ele individual, seja ele coletivo. E eu acho que, de certa maneira, eu consegui. 

OP – A senhora também menciona que, durante esse período da Covid-19, a gente teve um retrocesso de 10 anos no combate à tuberculose. Como é que o Brasil pode recuperar esse tempo perdido? A senhora acha que a gente vai conseguir recuperar?

Margareth – Vai. Mas, quer dizer, você não recupera um tempo perdido. Ele não é recuperável, né? O tempo perdido, ele é, eu diria, recomponível de uma outra maneira. Então, nós tivemos um retrocesso em todas as doenças, não foi só nas doenças transmissíveis, a tuberculose foi a que mais sofreu, mas nós tivemos um retrocesso muito grande em outras doenças, como as cardiovasculares, onde a mortalidade aumentou, mas sobretudo nos cânceres.

Nos cânceres realmente foi devastador o retrocesso. Por quê? Porque pessoas que estavam em tratamento, muitas interromperam, pessoas não tiveram seus exames preventivos feitos, portanto, não tiveram seus diagnósticos de câncer de mama, de câncer de próstata e de outros cânceres e pessoas que não foram operadas, não foram tratadas numa temporalidade adequada. Então, sem dúvida, o impacto sobre o câncer foi devastador.

Margareth Dalcolmo foi entrevistada pela jornalista Ana Rute Ramires(Foto: AURÉLIO ALVES)

Foto: AURÉLIO ALVES

Margareth Dalcolmo foi entrevistada pela jornalista Ana Rute Ramires

Na tuberculose também, porque o Brasil tem um paradoxo, né? O Brasil tem uma carga de doença muito alta ainda. Nós tínhamos aproximadamente 90 mil casos por ano, passamos para 100 mil casos por ano. Uma mortalidade que também teve um impacto muito grande, porque as pessoas deixaram de se tratar, os serviços não funcionaram.

Eu trabalho na Fiocruz, um serviço que nunca deixou de funcionar, porque como nós fazemos pesquisa, nós temos voluntários e não podíamos deixar de ser atendidos de modo algum. Tem muitas implicações de natureza ética e, além disso, nós desenvolvemos pesquisa, então, nós estávamos lá o tempo todo, mas isso não aconteceu com a maior parte do serviço.

Então, o paradoxo ao qual eu me refiro é que o Brasil tem tratamento rápido molecular na rede pública, ou seja, um diagnóstico que pode ser feito em 24 horas. O Brasil tem tratamento gratuito, governamental, para todo mundo, inclusive com medicamentos de alto custo e que são oferecidos pelo SUS. Então, nada justifica a não ser uma ineficiência dos serviços e eu acho que isso é um exemplo bastante revelador das necessidades de melhoria do funcionamento do SUS.

O SUS, você sabe, eu sou defensora absolutamente convicta do SUS, né? Eu acho que o SUS é o maior programa de inclusão social do mundo. Não há nenhum país que tenha mais de 100 milhões de habitantes que ofereça serviço para todo mundo de maneira equânime. Como SUS, com todos os seus problemas, com todas as suas falhas, com todo o seu subfinanciamento, nós ainda gastamos muito pouco com saúde, né?

Nós gastamos menos de 5% do nosso PIB com saúde, quando outros países gastam muito mais, mais de 10%. Então, assim, nós precisamos aumentar o investimento do SUS, precisamos melhorar a qualificação das pessoas que lá trabalham. Então, essa questão de recursos humanos é muito importante e nós precisamos dar acesso maior, lembrando algo que eu considero muito importante que todo mundo tem que ter essa consciência.

O Brasil é um país que envelheceu rapidamente. Nossa população aumentou a sua longevidade de maneira quase abrupta nos últimos 40 anos, né? Nós aumentamos a nossa expectativa de vida ao nascer de 54 para 78 anos em 40 anos. Isso se deve a uma ação de saúde pública chamada vacinas. E essa crença, essa confiabilidade, é muito importante que seja retomada para que nós consigamos manter não só a confiança da nossa população, como as medidas que estão ligadas a isso.

A entrevista foi realizada pela jornalista Ana Rute Ramires, no Hotel Oásis Atlântico, onde a médica estava hospedada, em Fortaleza(Foto: AURÉLIO ALVES)

Foto: AURÉLIO ALVES

A entrevista foi realizada pela jornalista Ana Rute Ramires, no Hotel Oásis Atlântico, onde a médica estava hospedada, em Fortaleza

Então, as doenças tiveram impacto com a Covid-19, sem dúvida nenhuma, mas isso levou a uma consciência e que hoje tá muito clara para nós. Essa não foi a última pandemia das nossas vidas. A Covid-19 não é a última pandemia, teremos outras.

Então, o relatório global publicado no final de 2024, o Global Report publicado na revista Lancet agora em 2025, revela por estudos muito bem feitos que nós temos uma chance real de 48%, matematicamente calculada, de que nós teremos nos próximos 8 anos uma grande pandemia com muitas de mortes, por mais de 1 milhão de mortes. E isso é esperado. Então, o Brasil não pode mais ser apanhado tão desprevenido como foi quando a Covid a chegou, de modo algum. E

O Brasil precisa de uma nova institucionalidade que cuide disso, que prepare o país para isso. Então, faço parte de um grupo criado pelo Ministro Padilha, assim que ele assumiu no ano passado, para a criação de uma nova institucionalidade que nesse momento tá aprovada e que depende apenas agora de um marco legal, né, um projeto de lei, uma medida provisória, algo que possa institucionalizar de maneira definitiva e nós possamos ter todas as providências rapidamente tomadas.

OP – E o que é que a gente faz enquanto espera a próxima pandemia? A senhora falou desse grupo de trabalho que está sendo institucionalizado. O que é que a gente precisa fazer para se preparar para outro evento como esse?

Margareth – Primeiro, nós temos que ter toda uma questão logística de entendimento institucional da relevância, da magnitude que o problema pode ter. Isso é muito importante. Segundo, qualquer pandemia ou qualquer epidemia daqui para a frente será sempre, ou uma maioria delas, de origem zoonótica. Ela virá do mundo animal.

O homem tá fazendo tão mal ao planeta com esses desmatamentos e mudanças climáticas e tudo que de modo negacionista pode ser negado, mas nós sabemos que é verdade. Tudo isso está relacionado, nada disso é independente.

'É claro que uma institucionalidade nova não terá poder de polícia. Eu não posso chegar e fechar esse hotel onde nós estamos, ou escola, não'(Foto: AURÉLIO ALVES)

Foto: AURÉLIO ALVES

‘É claro que uma institucionalidade nova não terá poder de polícia. Eu não posso chegar e fechar esse hotel onde nós estamos, ou escola, não’

Muito provavelmente, as próximas epidemias serão não só de origem zoonótica, ou seja, gripes aviárias, mas relacionadas a viroses, doenças virais de transmissão respiratória, isto é, uma pessoa contaminada pode transmitir para várias outras. Então, é preciso que esse entendimento seja público, que as pessoas saibam disso.

Segundo, que a comunicação seja muito imediata, seja feito alerta e que as pessoas possam cumprir normas e recomendações sanitárias que protejam as pessoas. E terceiro, que o Brasil tenha a contingência necessária. Então, você se lembra que nós não tínhamos máscara, nós não tínhamos vidro para envasar vacinas.

Nós precisamos de autonomia, autonomia da indústria, para que nós tenhamos estoque adequado de tudo que é necessário para controlar algo que é transmissível e que é é transmissível de um vetor ou que é transmissível de uma pessoa para outra. Essa logística, que eu chamo de contingência, é crucial pro Brasil nesse momento. Nós precisamos disso e nós precisamos de autoridade.

É claro que uma institucionalidade nova não terá poder de polícia. Eu não posso chegar e fechar esse hotel onde nós estamos, ou escola, não. Mas eu posso dizer ao público: escolas devem ser fechadas, cinemas devem ser fechados, locais públicos, festas canceladas, porque há uma transmissão que é coletiva e que uma pessoa pode transmitir para várias outras.

Alguém com essa autoridade, um grupo de pessoas com a chancela governamental. E isso não pode estar ligado a governos. Isso tem que ser uma institucionalidade de Estado que não sofra nenhuma interferência de natureza política. Nós estamos aqui para orientar, prover informações, gerar conhecimento e, sobretudo, dizer do que foi encontrado, seja isso uma resposta boa, uma informação ruim, preocupante ou alarmante, mas nós temos que dizer a verdade.

Felizmente, a imprensa brasileira, eu sou particularmente muito grata à imprensa brasileira de modo geral, salvo raras exceções, a imprensa brasileira optou numa encruzilhada de opção, optou pelo caminho correto. Ouviu-nos e nos deu voz permanente, como você viu.

Tinha dias que eu dava quatro, cinco entrevistas em canais diferentes de televisão, de rádio, de jornais. Eu passei a escrever em um jornal semanalmente, eu dei entrevista para muitos órgãos internacionais, porque a situação do Brasil preocupava o mundo todo, naturalmente.

Nós convivemos desde o início com algo muito nocivo ao Brasil, faço questão de frisar isso. Nós convivemos com uma tensão entre a nossa voz e a retórica governamental que era extremamente danosa à nossa população. Então, nós vivemos nessa tensão desde o início e procuramos, digamos assim, diminuir isso dando informação precisa e verdadeira.

OP – Nesse período, também se acentuou a questão que o discurso de alguns profissionais se misturava com questões políticas e ficou muito evidente o caráter bem conservador da categoria médica. Como é que foi isso pra senhora? Como é que a senhora observa os impactos negativos disso durante esse período de crise?

Margareth – Olha, eu eu não acredito em inocência, digamos assim, como um princípio. Tudo tem um, o que eu chamaria um dolo. No sentido de que você tem que ter um propósito. Nada é inocente. Dizer que a ciência não pode ser politizada é uma ingenuidade. Ela pode ser para o mal, mas ela também pode ser para o bem.

Houve uma coisa muito curiosa. Em 2020, nós não tínhamos vacina, nós tínhamos uma pandemia que crescia e se alastrava pelo Brasil de maneira muito dramática. E nós começamos a vacina sazonal pra gripe, pra influenza no meio do outono, no mês de abril, nós nunca vacinamos tanta gente porque as pessoas acorriam aos centros de saúde achando que vacinar para a gripe protegia contra Covid. Olha que coisa incrível.

Isso, naquele momento, começou a ser contaminado, a partir daquele momento, por um discurso e por essa retórica nociva a qual eu me referi de que vacina não protegia. Desde as minhas primeiras entrevistas, eu disse uma frase… Qual é a arma mais preciosa que nós temos para viroses agudas de transmissão respiratória? Não é remédio.

Remédio é para virose crônica. Então, hoje nós tratamos viroses crônicas como aids, infecção pelo HIV, hepatite C, para isso tem remédio. São viroses crônicas de outra evolução. Viroses de transmissão aguda respiratória, a grande arma é vacina. E nós sabíamos disso, aprendido há décadas pelo sarampo.

Como é que nós conseguimos eliminar o sarampo? Porque é a virose que mais rapidamente se transmite, uma pessoa transmite para 15 outras. Nós sabíamos que a arma era essa. Mas, desde o início — médicos não necessariamente são conservadores por natureza… Mas existia naquele momento uma polarização no País que já era óbvia. Porque havia uma fratura, digamos assim, social que já se havia demarcado pelo processo eleitoral. E isso contamina.

'Médicos são pessoas e podem ser influenciados. Em geral, pertencem a uma categoria que, pelo fato de se deter muito aquilo que faz, pode ficar muito conservadora, sem se abrir para uma crítica'(Foto: AURÉLIO ALVES)

Foto: AURÉLIO ALVES

‘Médicos são pessoas e podem ser influenciados. Em geral, pertencem a uma categoria que, pelo fato de se deter muito aquilo que faz, pode ficar muito conservadora, sem se abrir para uma crítica’

Médicos são pessoas e podem ser influenciados. Em geral, pertence a uma categoria que, pelo fato de se deter muito aquilo que faz, pode ficar muito conservadora, sem se abrir para uma crítica, digamos assim, mais ampla ou para o que eu chamo de uma consciência social mais ampla, baseada em fatos. Quando houve a questão que eu considero uma tragédia, que foi a questão da cloroquina, foi o pior exemplo. E não nasceu no Brasil.

Na verdade, aquilo nasceu na França através de um pesquisador que hoje está no ostracismo. O seu CRM cassado, inclusive. O professor Didier Raoult que inventou isso. Naquele momento, junho, julho de 2020, estimadamente, havia no planeta mais de 3 bilhões de pessoas usando cloroquina. Não foi só no Brasil, houve uma contaminação feita pela irracionalidade.

Alguém disse, todo mundo tinha medo. A Covid-19 gerava um temor imenso nas pessoas. Pessoas morriam, famílias perdiam, a dor estava estabelecida, ritos sociais estavam rompidos pelo isolamento. O isolamento social é algo que, digamos, corrompe toda a nossa cultura. Ainda mais nós, que somos latinos, somos gregários por natureza. Então, o isolamento era algo que violava muito a nossa cultura. Tudo isso gera medo e o medo nos torna muito frágeis.

O medo pode nos encorajar em algumas situações muito particulares, mas o medo nos faz mais fáceis de sermos contaminados por uma informação. O exemplo da cloroquina é isso. Rapidamente alguém oportunista criou isso. Na verdade, todos os estudos, hoje, mais do que nunca, mostram que nunca houve nada que mostrasse que a cloroquina melhorasse, curasse ou impedisse alguém de morrer por Covid-19.

Então, o exemplo mais paradigmático que eu acho é esse. Isso se juntou quando naquele momento todo mundo, o mundo desenvolvido todo, investia, as casas farmacêuticas investiam na produção rápida de uma vacina.

Eu considero as plataformas vacinais, as novas e as recuperadas durante aquele período de 2020, 2021, talvez a descoberta mais sensacional das últimas décadas da saúde, que foi a elaboração das vacinas para Covid-19 que geraram essa coisa linda, que foi a plataforma de RNA mensageiro que deu o prêmio Nobel ao casal, a dra. Karikó. E que hoje gera a plataforma que vai fazer não apenas as novas vacinas para várias doenças, como remédios.

A entrevista ocorreu no dia 12 de maio, no Hotel Oásis Atlântico(Foto: AURÉLIO ALVES)

Foto: AURÉLIO ALVES

A entrevista ocorreu no dia 12 de maio, no Hotel Oásis Atlântico

Hoje na área da oncologia, por exemplo, são muitos fármacos que estão sendo fabricados sobre a plataforma de RNA mensageiro, que é algo espetacular pela sua plasticidade, pela maneira como ela permite ser adaptada para diversas produções numa mesma situação, no mesmo local.

Então, eu acho que a Covid-19, a despeito desse excesso de luto, que nós não precisávamos… Eu quero deixar claro, o Brasil não precisaria ter tido esse excesso de mortes que comprovadamente teve, bem como esse excesso de cicatrizes e de luto que nós temos com 718 ou 720.000 mortes. E isso gerou uma consequência que eu considero muito grave. A Covid-19, o SARS COV 2 é um vírus que ele virou endêmico, ele vive entre nós, ele não vai nunca mais desaparecer, isso vai exigir que nós sejamos vacinados anualmente como fomos vacinados para a gripe.

Hoje, o nosso desejo é que nós consigamos nos próximos anos ter uma vacina conjugada para a influenza e para Covid juntas. Isso já tem muitos locais de pesquisa nesse objetivo. Isso é o que nós desejamos nos próximos anos. Mas nós precisamos nos preparar para as próximas epidemias e esclarecer com esse propósito. Dizer a verdade, dar as boas notícias, mas, sobretudo, dar as más notícias quando necessário.

'Uma das nossas grandes preocupações nesse momento é exatamente a formação do médico, hoje, no Brasil'(Foto: AURÉLIO ALVES)

Foto: AURÉLIO ALVES

‘Uma das nossas grandes preocupações nesse momento é exatamente a formação do médico, hoje, no Brasil’

OP – Ainda falando sobre a categoria médica, a senhora é muito incisiva quando fala sobre os problemas da formação médica atual. O que mais preocupa a senhora quando a gente fala desse médico que tá se formando e tá chegando ali ao paciente?

Margareth – Eu sou membro titular da Academia Nacional de Medicina, uma das nossas grandes preocupações nesse momento é exatamente a formação do médico, hoje, no Brasil. Eu acho que nós vivemos algo muito grave que foi a liberação desse excesso de escolas médicas de péssima qualidade. E o resultado do Enamed que nós vimos recentemente prova isso que eu tô dizendo.

O rendimento muito sofrível de muitas dessas escolas, ou seja, um país da complexidade do Brasil, da diversidade do Brasil, do tamanho continental do Brasil, exige que tenha um sistema de saúde com o SUS, exige a formação de médicos que efetivamente estejam preparados para tratar pessoas numa população, sobretudo, que envelhece. (…)

Tudo isso exige uma formação médica. O médico hoje formado exige uma qualificação técnica muito alta, os desafios são muito grandes. Então, eu não admito formar um médico hoje que não esteja qualificado para diagnosticar um caso de sarampo numa UPA, num centro municipal de saúde. E que também esteja qualificado para tratar uma pneumonia grave numa terapia intensiva num hospital público ou privado.

Nós temos que saber isso. O médico tem que ter necessariamente esta formação. E para que ele possa tê-la, é preciso que ele receba uma formação adequada. É preciso que ele tenha instrutores, tutores, professores, que sejam devidamente qualificados para tal e que ele tenha vivência prática. Não pode ter aula online, não pode ter aula por EAD de Medicina. Isso não existe.

Essas faculdades que não obtiveram nota, a meu juízo, tinham que ser fechadas, mas essa é uma posição individual minha. Elas tinham que ser impedidas de formar mais médicos. E hoje temos um drama estabelecido no Brasil. O que é que nós vamos fazer com esses médicos que não têm diploma? Isso se soma ainda à gravidade dos que são formados fora do Brasil também em péssimas faculdades na zona de fronteira ou países aqui vizinhos e que não passam no Revalida.

'Considero imperdoável a liberação dessas escolas sem nenhum critério e, agora, o MEC, vejo de maneira muito louvável que o MEC esteja conseguindo corrigir'(Foto: AURÉLIO ALVES)

Foto: AURÉLIO ALVES

‘Considero imperdoável a liberação dessas escolas sem nenhum critério e, agora, o MEC, vejo de maneira muito louvável que o MEC esteja conseguindo corrigir’

A taxa de aprovação do Revalida não passa de 20%. E o que nós faremos com esses 80% de jovens que não vão ter CRM, não vão ter licença? Onde eles estão? Então, a minha posição é que não se pode punir esses jovens. Nós temos que dar uma chance a eles. E eu me dei o trabalho de fazer uma verificação e essas pessoas nunca tiveram nenhuma aula sobre tuberculose ao longo de 6 anos de formação. Talvez tenham visto caso e não tenham sabido diagnosticar, entende?

Uma doença que é tão prevalente no Brasil para dar apenas um exemplo, poderia dar N outros. Como cânceres e doenças cardiovasculares, mas não pode formar um médico que não seja capaz pelo menos de pensar na hipótese diagnóstica atendendo alguém, que aquela pessoa esteja tendo um infarto agudo do miocárdio. Isso é inadmissível.

Ou fazer um diagnóstico de uma apendicite aguda e tomar as providências para mandar operar, que é uma coisa simples, mas alguém tem que ensinar isso durante o curso médico. Então, eu considero que é muito grave o que aconteceu no Brasil. Considero imperdoável a liberação dessas escolas sem nenhum critério e, agora, o MEC, vejo de maneira muito louvável que o MEC esteja conseguindo corrigir.

Mas nós ainda não resolvemos o que que nós vamos fazer. Nós apenas resolvemos como nós vamos avaliar as escolas. A Academia Nacional de Medicina tem essa posição também, que o aluno tem que ser… Primeiro ele entra na escola, ao final do ciclo básico ele faz a primeira avaliação e, depois, antes de chegar ao final do curso, uma nova avaliação para saber se se ele tem condições de progredir ou se ele tem que repetir, como se repete ano na escola. (…)

OP – E o que se esperar de um bom médico?

Margareth –  O médico que eu digo não é o médico do futuro, é o médico de agora. Se exige grande qualificação técnica, exige que ele seja formado com noções muito precisas e sólidas de pesquisa, trabalhar em equipe, ninguém trabalha sozinho, ele tem que aprender a trabalhar em equipe desde que entra na escola médica, ter uma noção de gestão, ninguém pode ter de capacidade, desenvolver uma capacidade liderança.

'(Um bom médico deve) ser formado e receber sólidos conhecimentos de humanidade'(Foto: AURÉLIO ALVES)

Foto: AURÉLIO ALVES

‘(Um bom médico deve) ser formado e receber sólidos conhecimentos de humanidade’

Então, ser qualificado para líder, líder de equipe, líder de grupo, líder do seu laboratório. Isso é uma exigência que se faz, ter noções de tecnologia de informação. Ninguém hoje pode ser formado sem saber lidar com o programa de computador para interpretar, para saber ler um artigo científico. Até para você ler um artigo científico, você olha um gráfico para saber interpretar aquilo, né? E hoje nós vemos que até isso é falho. Essas são qualificações que eu julgo indispensáveis na formação de um médico.

E, por fim, e não menos importante, ser formado e receber sólidos conhecimentos de humanidade. Isso vem muito da educação que ele recebe em casa, naturalmente. Não é a faculdade que vai ensiná-lo, mas a faculdade vai resgatar o que ele recebeu. E se ele não recebeu nada, vai ter tentar incorporar na sua formação conhecimento de humanidade.

Hoje, as grandes escolas médicas do mundo — e quem começou isso foi a faculdade de medicina de Harvard, nos Estados Unidos — estabeleceram um curso de humanidades. Humanidade significa um médico ler, ver arte, visitar museus, entender que existe muito da obra de arte, muitas obras de arte que nós vemos nos museus e que são lindas. Não adianta olhar e não saber o que tá vendo. (…)

Então, assim, eu acho que dar essa chance ao médico de sair um pouco daquele ambiente e pensar um pouco sobre o livro, sobre literatura, tudo isso faz parte do da formação do que eu julgo um bom médico.

OP – Doutora, para finalizar, eu queria que a senhora falasse um pouquinho sobre a pesquisa sobre a qual a senhora tá se debruçando atualmente, que é a paradigma TB. Queria que a senhora explicasse um pouquinho sobre esse ensaio clínico.

Margareth – Nos últimos 30 anos, eu venho me dedicando à pesquisa na área da tuberculose, tentando responder como nós podemos humanizar o tratamento e melhorar a eficácia dos tratamentos. Isso junto com outros pesquisadores da Fiocruz e de outras instituições brasileiras, o Brasil teve chance de participar dos principais ensaios clínicos desenvolvidos nos últimos 25 anos. Eu participei da mudança de tratamento.

O Brasil foi de novo pioneiro ao assumir o tratamento de curta duração para formas graves e resistentes de tuberculose. E nós participamos dos estudos que geraram essa informação que permitiram essa tomada de decisão. E, nesse momento, agora, é de novo, através de quatro instituições brasileiras, três da Fiocruz e a outra é da Universidade Federal do Rio de Janeiro, nós estamos começando a participar de um novo estudo internacional cujo objetivo é responder se será ou não possível.

Margareth entrega livro de sua autora ao médico pneumologista Marcelo Alcântara, diretor-geral da Fundação Elmo (Foto: AURÉLIO ALVES)

Foto: AURÉLIO ALVES

Margareth entrega livro de sua autora ao médico pneumologista Marcelo Alcântara, diretor-geral da Fundação Elmo

A tuberculose ainda tem um tratamento muito longo que dura seis meses para as formas sensíveis e nós queremos responder se é possível com a adição de dois fármacos novos, ainda em fase clínica, se será possível ou não reduzir o tempo de seis para quatro meses.

Tudo indica que sim, os resultados dos estudos preliminares até agora mostram resultados muito favoráveis e nós seremos protagonistas de uma resposta histórica mais uma vez e isso nos dá muita alegria.

Um fato que eu gostaria de registrar é que a comunidade acadêmica brasileira, apesar do conservadorismo de alguns, manteve uma capacidade de compromisso público muito grande. Temos vários exemplos. Com todas as adversidades, o Brasil foi o 10º país que mais publicou em relação à Covid-19 e houve experiências brasileiras que ficam pra a história.

E uma delas se deu aqui no Ceará, que foi através de pesquisadores do Ceará, a criação de um mecanismo que salvou muitas vidas. E uma das razões pelas quais eu estou aqui é a Fundação Elmo. O Elmo é um equipamento que foi criado, como eu disse, pelos pesquisadores cearenses, enquanto em São Paulo, grupos da USP participavam de estudos clínicos, enquanto nós participávamos na Fiocruz de estudos da vacina.

Aqui, pesquisadores criaram um dispositivo que atendeu pacientes com grave insuficiência respiratória e que, a meu juízo, não tem um número preciso, salvou milhares de vidas, dezenas de milhares de vidas. Isso tem que ser registrado porque isso gerou uma premiação, através do professor Marcelo Alcântara, daqui do Ceará, e gerou a Fundação Elmo que hoje nós estamos aqui para prestigiar.

Então, de certa maneira, eu quero dizer que a despeito de todas as dificuldades pelas quais nós conversamos, a comunidade científica e acadêmica brasileira demonstrou uma enorme capacidade de trabalho, um compromisso público absolutamente inegável e uma criatividade que propiciou algo que fica registrado pra história, não é pra história para ser esquecido, é para ser usado. Então isso faz muita diferença e eu faço questão de registrar.

Livro

A pesquisadora lançou o livro “Um tempo para não esquecer – A visão da ciência no enfrentamento da pandemia do coronavírus e o futuro da saúde”, em 2021. A obra compila artigos que narram a batalha contra a Covid-19, analisando evidências científicas, vacinas e o cenário da saúde.

Elmo

Dalcolmo esteve em Fortaleza em maio e participou do lançamento da Fundação Elmo, instituição de suporte à saúde respiratória. Ela foi uma das homenageadas na cerimônica, junto da pneumologista Márcia Alcântara.