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Recuperação extrajudicial da Raízen pode ser último ato dos Ometto na empresa

Fonte: obrasilianista.com.br | Data: 06/06/2026 12:28:07

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Por
Brenno Grillo

| 6 de junho de 2026

A Raízen protocolou, na sexta-feira (5), seu plano de recuperação extrajudicial na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo para reestruturar uma dívida de R$ 64,7 bilhões. O plano obteve a adesão de 75,45% dos credores financeiros e detentores de créditos quirografários.

Pelo acordo, a Shell, sócia da família Ometto nos projeto, aportará R$ 3,5 bilhões até março de 2027. Já os Ometto, por meio da Água Santa Investimentos, investirá R$ 500 milhões na companhia. Esse aporte é muito relevante no negócio porque é o que garantirá a continuidade de Rubens Ometto no Conselho de Administração da Raízen.

Caso os R$ 500 milhões não sejam aportados, Rubens Ometto deixará o colegiado. Nesse cenário, três cadeiras ficam com a Shell e o restante com os credores, pois 45% dos créditos reestruturados se tornarão participação acionária os outros 55% serão refinanciados ou convertidos em novos títulos de dívida da empresa.

O plano

O plano determina medidas estruturais para o fortalecimento do balanço da empresa, o que envolve reorganizações societárias, segregação de ativos e desinvestimentos. Como parte dessas diretrizes, a estrutura de negócios da Raízen passa por uma cisão operacional que separa a divisão de combustíveis da divisão de energia.

A comercialização e a estrutura dos ativos de energia foram delimitadas no plano para reduzir o endividamento do grupo. A unidade Raízen Energia, que concentra as operações de açúcar, etanol, bioenergia e geração distribuída, assumirá 17,6% do passivo financeiro remanescente, com taxas de juros equivalentes a CDI acrescido de 1,25%.

Para a amortização dessa fatia e recomposição de liquidez, o plano direciona os recursos provenientes da alienação de ativos, incluindo a venda da operação de combustíveis e distribuição da Raízen na Argentina, operação avaliada em US$ 1,4 bilhão.

O plano de desinvestimentos também prevê a continuidade da venda de ativos não estratégicos no Brasil iniciada em períodos anteriores, focando na venda de usinas e projetos de geração de energia distribuída (como usinas solares e plantas de biogás), transferindo o endividamento restante e as garantias reais mais robustas, como a fábrica de lubrificantes, para a operação de combustíveis (rede de postos Shell), que reterá 37,4% do passivo financeiro a um custo de CDI mais 2,75%.

Crise e endividamento

A necessidade do processo de recuperação extrajudicial decorreu de um ciclo de expansão acelerada financiado por endividamento, concomitante a fatores operacionais e macroeconômicos adversos entre os anos de 2024 e 2026.

A estratégia corporativa da Raízen direcionou volumes de investimentos para projetos de transição energética, com foco na construção de plantas de Etanol de Segunda Geração (E2G), biocombustíveis e energia solar. O custo inicial de implantação dessas tecnologias e a complexidade operacional resultaram em retornos financeiros mais lentos do que as projeções da administração.

No mesmo período, o mercado interno registrou o avanço do etanol de milho, cujo custo médio de produção de R$ 1,55 por litro gerou pressão competitiva sobre o etanol de cana-de-açúcar da Raízen, com custo estimado em R$ 2,84 por litro.

No âmbito operacional, safras afetadas por condições climáticas desfavoráveis e incêndios em canaviais reduziram o volume de processamento de matéria-prima, afetando as margens operacionais da empresa. O descompasso entre os investimentos e a geração de caixa gerou um fluxo de caixa operacional negativo de R$ 11,3 bilhões.

No balanço do terceiro trimestre do ano fiscal de 2025/2026, a empresa acumulou prejuízo de R$ 15,6 bilhões, influenciado também por um ajuste contábil de R$ 11 bilhões, enquanto a receita líquida recuou de R$ 197,5 bilhões para R$ 174,5 bilhões.

A dívida líquida da companhia registrou elevação de 43,5%, passando de R$ 38,6 bilhões para R$ 55,3 bilhões, o que representou uma alavancagem financeira de 5,3 vezes a relação entre a dívida líquida e o indicador Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). O cenário de juros básicos elevados encareceu o custo de rolagem do passivo total de R$ 64,7 bilhões.

Diante da deterioração dos indicadores de liquidez e da frustração inicial de aportes paritários de capital entre os sócios Cosan e Shell, as agências de classificação de risco Fitch, S&P Global e Moody’s retiraram o grau de investimento da Raízen, o que acelerou a busca pelo instrumento da recuperação extrajudicial junto aos credores.

Crédito fiscal

O Brasilianistamostrou que a Raízen usou créditos fiscais de empresas pequenas do setor de refino e distribuição de combustível para aumentar sua margem de lucro. Nem isso impediu a crise financeira da companhia.

Foto de Brenno Grillo


Brenno Grillo


Formou-se em jornalismo pela Unip, em 2012, tem pós -graduação em Relações Internacionais pela Fesp-SP e especialização em Macroeconomia e Finanças pela FGV. É jornalista especializado na cobertura do Poder Judiciário desde 2015, analisando tecnicamente os tribunais superiores, traduzindo temas jurídicos complexos e detalhando seus efeitos na política e no setor privado.