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A IA está a aprender a pilotar aviões. E a aviação está a começar a adotá-la

Fonte: cnnportugal.iol.pt | Data: 06/06/2026 14:02:05

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Num voo de teste da Merlin Labs, um Cessna Caravan levantou voo, recebeu instruções de um controlador aéreo simulado, mudou de rota e alinhou-se para a aterragem com a ajuda de inteligência artificial. A tecnologia pode aliviar a pressão sobre pilotos e controladores, mas a indústria insiste que ainda está longe de substituir pilotos humanos.

Aeroporto Estadual de Quonset, Rhode Island — O pequeno Cessna Caravan acelera pela pista e levanta voo, enquanto o piloto ao meu lado mantém as mãos longe dos comandos.

“Vamos lá ver essas mãos no ar”, brinca Tim Burns, diretor de tecnologia da startup Merlin Labs, pelo intercomunicador do avião, a partir de um dos bancos traseiros.

Neste voo, o piloto de testes Matt Diamond, sentado no lugar da esquerda ao meu lado, não está a controlar o avião de todo. Muitas das tarefas normais de pilotagem estão, em vez disso, a ser executadas por inteligência artificial.

Sou, do ponto de vista legal, uma cobaia – até o avião está identificado como “experimental”. O sistema Merlin Pilot faz muito mais do que um piloto automático tradicional: usa um modelo de processamento de linguagem natural para ouvir instruções de um falso controlador aéreo e responder pelo rádio com uma voz feminina gerada por computador. O piloto de testes Diamond diz: “Autorizar”, e o avião começa a virar para uma nova rota.

Sendo eu próprio piloto – e, admito, um pouco controlador -, entregar o controlo a um computador não foi algo que me saísse naturalmente. Mas a demonstração é importante, numa altura em que cada vez mais empresas de aviação olham para a IA como forma de inaugurar uma nova evolução nas viagens aéreas, usando-a para automatizar tarefas dos pilotos e, talvez um dia, permitir voos totalmente autónomos.

O piloto de testes Matt Diamond (à direita) tira as mãos dos comandos enquanto a IA acelera o avião na pista para a descolagem, sob o olhar atento de Pete Muntean, da CNN. (CNN)
Cessna Caravan da Merlin Labs num voo de teste com IA em Rhode Island. (CNN)

O nosso voo decorre num momento em que as companhias aéreas de todo o mundo enfrentam uma crescente escassez de pilotos. A Boeing estima que as transportadoras vão precisar de mais de 600 mil novos pilotos nas próximas duas décadas. Ao mesmo tempo, os responsáveis pela segurança aérea enfrentam uma pressão crescente sobre um sistema de controlo de tráfego aéreo já sobrecarregado, na sequência de uma série de quase-acidentes de grande mediatismo e acidentes mortais nos últimos anos.

O impulso para uma aviação assistida por IA está também a ganhar apoio em Washington. O secretário dos Transportes, Sean Duffy, tem promovido ferramentas de inteligência artificial como parte do esforço mais amplo da administração Trump para modernizar o envelhecido sistema de controlo de tráfego aéreo do país.

“Nunca vamos entregar o espaço aéreo nacional a ferramentas de IA”, disse Duffy à CNN numa entrevista recente. “Os controladores vão continuar a controlar o espaço aéreo, mas podemos tornar o trabalho deles mais fácil.”

Duffy disse que a administração vê a IA como uma forma de reduzir a carga de trabalho dos controladores e melhorar a eficiência num espaço aéreo cada vez mais congestionado.

A Merlin defende que a inteligência artificial poderá, a prazo, ajudar a resolver alguns dos mesmos problemas no cockpit. “Oitenta por cento dos acidentes na aviação continuam a ser causados por erro humano”, disse à CNN Matthew George, CEO da Merlin. “Se conseguirmos reduzir isso, é uma forma bastante útil de gastar o nosso tempo.”

A ideia continua a ser controversa. A aviação comercial tem vindo a acrescentar automação de forma constante ao longo de décadas, conduzindo aos atuais sistemas fly-by-wire, em que os computadores interpretam os comandos dos pilotos mesmo durante o voo manual.

O equipamento desenvolvido pela Merlin Labs para permitir que a IA pilote um avião é instalado numa aeronave já existente. (CNN)

“Os cockpits modernos já têm bastante automação, mas essa automação funciona dentro de um âmbito muito limitado”, disse Mykel Kochenderfer, cuja investigação na Universidade Stanford se centra em sistemas autónomos e segurança aérea. Kochenderfer disse que os sistemas mais recentes assistidos por IA foram concebidos para responder a um conjunto mais amplo de situações inesperadas do que a automação tradicional baseada em regras.

“A nossa experiência mostra que esta pode ser uma forma muito promissora de reforçar a segurança”, disse, “mas a indústria ainda tem um longo caminho a percorrer para tornar a tecnologia mais robusta e estabelecer a confiança necessária à sua aceitação.”

Mudar a mentalidade dos pilotos pode não ser fácil. Os atuais sistemas de automação em voo colocam o piloto no centro, permitindo-lhe intervir quando necessário.

O comandante Jason Ambrosi, presidente da Air Line Pilots Association, que representa mais de 79 mil pilotos nos Estados Unidos e no Canadá, diz que a automação e a IA devem apoiar os pilotos, não substituí-los.

“Os avanços tecnológicos podem melhorar a segurança aérea, mas nunca serão um substituto para os pilotos a bordo de uma aeronave”, disse Ambrosi numa declaração enviada à CNN. “A característica de segurança mais importante em qualquer voo comercial serão sempre dois pilotos bem treinados e descansados no cockpit.”

Aeronave de testes da Merlin Labs. (CNN)

A Merlin sublinha que os voos de passageiros totalmente sem piloto ainda estão muito distantes. “Não vamos carregar num botão e passar para aviões sem tripulação”, disse George. “Trata-se de colocar a IA ao lado dos pilotos humanos e construir confiança.”

A empresa diz já ter concluído centenas de voos de teste enquanto trabalha para obter a certificação da Administração Federal de Aviação. Esses padrões estão entre os mais rigorosos dos transportes, exigindo muitas vezes anos de testes e análises de redundância antes de novos sistemas serem aprovados.

As Forças Armadas poderão ser o primeiro grande terreno de prova do sistema. A Merlin garantiu recentemente um contrato de mais de 100 milhões de dólares com a Força Aérea dos EUA para, eventualmente, levar a tecnologia aos aviões de carga C-130.

Quando o sistema da Merlin nos alinha para a aproximação final, inicia uma descida gradual em direção à pista 34 e ajusta os comandos para se manter na trajetória de voo, apesar de um ligeiro vento cruzado, até ao momento da aterragem.

“É um problema desafiante para a automação”, diz-me o piloto de testes Diamond enquanto regressamos de táxi ao hangar da Merlin. “Mas, assim que se resolve, torna tudo muito mais fácil para o piloto.”