Lista de filmes brasileiros feita por críticos tem novo cânone com mais mulheres e negros
Fonte: www1.folha.uol.com.br | Data: 11/06/2026 10:13:30
[RESUMO] Nova lista de cem filmes brasileiros elaborada pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) traz mudanças significativas em relação à sondagem anterior, de 2015. Primeiro de tudo, os longas agora escolhidos são chamados de “essenciais”, não de “melhores”, e apresentados em ordem cronológica, no lugar da classificação por voto. De modo geral, visões consagradas sobre a história de nosso cinema são contestadas com a chegada de novos grupos e a demanda por maior inclusão.
A cada dez anos os críticos de cinema se reúnem em festivais, encontros ou internet para escolher um novo cânone. Na eleição mundialmente mais célebre, da revista britânica “Sight and Sound”, em 2022 o pouco conhecido “Jeanne Dielman” (1975), de Chantal Akerman, espantou meio mundo ao ser eleito o melhor filme da história, desbancando “Um Corpo que Cai” (1958), de Alfred Hitchcock, escolhido na listagem anterior, de 2012.
Para evitar esse tipo de surpresa e a discussão posterior sobre qual seria o melhor filme brasileiro de todos os tempos, a Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) decidiu neste ano abolir a classificação, que há 11 anos elegeu “Limite” (1931), filme mudo de Mario Peixoto, como o melhor.
Fez-se, assim, a substituição de “melhores” por “essenciais”. São coisas diferentes; às vezes, bastante.
A lista de 2026 traz mudanças expressivas em relação a anterior, de 2015. Para começar, os restauros começam a ser parte importante dessas eleições, por tornarem possível a visão de filmes que às vezes mal se deixam ver nas cópias que circulam no YouTube, por exemplo. É o caso do melodrama “Também Somos Irmãos” (1949), de José Carlos Burle, com roteiro de Alinor Azevedo.
Não é certamente o melhor dos trabalhos de Burle, que comparece também com “Carnaval Atlântida” (1952), obra-prima da chanchada. O que tornaria “Também Somos Irmãos” essencial é o pioneirismo na abordagem do tema do racismo.
Ali, conta-se a história de dois irmãos negros criados como filhos adotivos por um homem tão rico quanto racista. E ele é muito rico. Um deles, Miro (Grande Otelo), cresce revoltado com o pai adotivo e namora a marginalidade. O outro, Renato (Aguinaldo Camargo), aceita as regras do homem branco e se torna advogado.
Em fins dos anos 1940, o filme brasileiro ainda tateava em busca das estruturas do melodrama sonoro, e o roteiro de Alinor Azevedo sofre com a mecânica simetria atribuída à personalidade dos irmãos. Isso também é explicável pela dificuldade em tocar em um tema como o racismo naquele momento. Não só no Brasil, como mostra certo sem jeito de Elia Kazan em “O que a Carne Herda” (1949), que, no entanto, concorreu a três Oscars.
“Também Somos Irmãos” abala a ideia de “democracia racial” cultivada durante muito tempo no Brasil e sua inclusão na lista da Abraccine é sintoma da ascensão das pautas identitárias. Em todo caso, a seleção também traz “O Assalto ao Trem Pagador” (1962), de Roberto Farias, ótima amostragem das virtudes de Alinor como roteirista, tanto quanto de seu antirracismo.
Adélia Sampaio, outra estreante na lista, tocou em 1984 em outro tema tabu, a homossexualidade feminina, no melodrama “Amor Maldito”. O pioneirismo —trata-se do primeiro filme conhecido feito por uma mulher negra— e a abertura para assuntos proibidos ou malvistos fez dele um outro marco de lutas contra a exclusão.
Com Adélia Sampaio chegam à lista outras mulheres, a começar por Gilda de Abreu, responsável por “O Ébrio” (1946), ainda que o sucesso do filme, considerado o maior da era clássica do cinema brasileiro, deva muito, é evidente, a Vicente Celestino, seu protagonista, além de marido de Gilda.
As mulheres emplacaram agora 16 filmes, contra apenas 5 em 2015 (nos dois casos, incluindo direção e codireção). Ou seja, triplicam sua presença. Um sinal da nova perspectiva é que, em 2015, “Cidade de Deus” foi atribuído apenas a Fernando Meirelles no site da Abraccine. Em 2026, consta Kátia Lund como codiretora.
Outra boa novidade da lista é Tereza Trautman, autora do notável “Os Homens que Eu Tive” (1973), que também passou por restauro —como, entre outros, o genial “Rainha Diaba” (1974), de Antonio Carlos da Fontoura, também listado, com uma atuação exuberante de Milton Gonçalves.
“Os Homens que Eu Tive” dá bem ideia, desde o título, do quanto iconoclástico é o filme e também antecipa as razões de a censura ter sumido com ele do mapa por muitos anos. No caso, a presença na lista deve-se menos à temática do que ao talento da autora, a seu humor e à força da narrativa.
Também chegou ao cânone Helena Solberg. É possível que seu “A Entrevista” (1966) tenha sido escolhido, ao menos em parte, para enfatizar o vínculo da autora com o cinema novo e, de passagem, o suposto machismo dos realizadores daquele grupo, que veriam as mulheres como atrizes, ou musas, mas não como cineastas.
O fato é que a importância de Solberg existe independente de vínculo com o cinema novo, como demonstram seus filmes posteriores, como “Carmen Miranda – Bananas Is My Business” (1995) ou “Vida de Menina” (2005). Também estreiam na seleção Juliana Rojas (codiretora de “Trabalhar Cansa”, de 2011, e “As Boas Maneiras”, de 2017) e Lucia Murat (“Que Bom Te Ver Viva”, de 1989), com trabalhos realmente relevantes.
Essa renovação mantém intocados certos parâmetros da primeira listagem: “Limite” (1931) e “Ganga Bruta” (1933) continuam os únicos representantes dos anos 1930 (os 20 continuam ignorados), e os anos 1960 dominam a lista com o maior número de filmes presentes, como que reafirmando essa década como a do nascimento de uma verdadeira cinematografia nacional, conforme queria Glauber Rocha. São 27 títulos desse período, de “Aruanda” (1960), de Linduarte Noronha, a “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969), de próprio Glauber, quase um terço do total.
Foi, com efeito, uma era dourada do filme brasileiro, em que conviveram (não raro às turras) o cinema novo, aquele dito marginal, produtores independentes, como Jece Valadão (de “Os Cafajestes”), e mesmo universalistas, como Walter Hugo Khouri.
Na nova listagem, sobrou lugar até para o pansexualismo libertário de “Onda Nova” (198e) e para o anárquico média-metragem de Edgard Navarro, “Superoutro” (1989), que se abre com essa frase que vale por um manifesto: “Conservai, senhor, o meu senso de humor”.
Entre os cineastas, uma mudança importante. Glauber deixa de ser o autor mais citado (eram cinco filmes em 2015, agora são três), lugar agora ocupado por Nelson Pereira dos Santos, com as mesmas quatro citações de 2015, que vão dos anos 1950 até os 1980.
Também é interessante observar que o interesse por certos filmes voltados a temas policiais ou político-policiais decaiu enormemente na nova lista. Só de José Padilha saíram três (comos os dois “Tropa de Elite”). Sinal de que uma súbita ascensão da extrema direita ao menos serve para abrir os olhos.
Apesar do destaque dado a temáticas ligadas à escravatura e suas decorrências nefastas, o número de cineastas autodeclarados negros ainda é magro. Temos agora, por exemplo, Zózimo Bulbul, Odilon Lopez, Adélia Sampaio e Gabriel Martins. Isso pode se dever ao pouco espaço dado a filmes e autores mais recentes, e ainda não devidamente conhecidos (ou reconhecidos), como Antônio Pitanga, autor de “Malês” (2025).
De todo modo, é surpreendente, para não dizer espantosa, a ausência nesta lista de André Novais Oliveira. Preto ou branco, azul ou amarelo, não é fácil entender como suas preciosidades curtas (“Fantasma”) ou longas (“Temporada”, entre outros) tenham ficado de fora.
A diferença mais evidente entre as listas de 2015 e a de 2026 é que as escolhas de 11 anos atrás refletiam disputas dentro do campo estritamente cinematográfico, como se cada votante tivesse uma ideia clara do que seja o cinema, a arte, a cultura. Agora, essa segurança parece dissolver-se com a chegada de grupos que disputam espaço e contestam conceitos consagrados na história do cinema.
De todo modo, os filmes ausentes da nova listagem poderiam bem fazer um belo Salão dos Recusados, à maneira dos impressionistas. Lá estariam filmes significativos e excluídos do novo cânone, como “Meteorango Kid” (1969), de André Luiz Oliveira, “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” (2007), de Cao Hamburger, e “O Viajante” (1999), de Paulo César Saraceni, sem falar de “Meu Nome É Tonho” (1969), de Ozualdo Candeias (que, de passagem, constitui uma injusta exclusão do povo cigano), entre outros.
Por fim, levando em conta que as possibilidades de decupagem dessa lista são quase infinitas, é preciso assinalar a presença dos filmes premiados no Oscar ou em Cannes, de Walter Salles e Kleber Mendonça Filho, ao lado de “O Cangaceiro” (Cannes), de 1953, e “O Pagador de Promessas” (Cannes e indicação ao Oscar), de 1962, “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (Cannes), de 1969.
As premiações e o sucesso internacional dos filmes se irradiam por toda a lista, dos anos 1950 até 2025, como a sugerir que, apesar de nossos esforços decoloniais ainda fazemos do reconhecimento de nossos méritos pelos colonizadores um parâmetro de aceitação de nós mesmos.