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Como o Bitcoin entrou na disputa por uma das rotas marítimas mais valiosas do planeta – Revista Fórum

Fonte: revistaforum.com.br | Data: 15/06/2026 15:53:36

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  • Em maio de 2026, a agência iraniana Fars News Agency anunciou o lançamento do Hormuz Safe, seguro marítimo lastreado em Bitcoin para embarcações que utilizam o Estreito de Ormuz.
  • A iniciativa responde à decisão do Joint War Committee (JWC), reunido no Reino Unido, de classificar o Golfo como zona de conflito, com 95 % do tráfego marítimo paralisado.
  • O Hormuz Safe tem potencial de gerar mais de US$ 10 bilhões em receita anual para o Irã.
  • O seguro visa reduzir o impacto dos elevados prêmios de risco de guerra, que encarecem frete, financiamento e logística na região.

Em maio de 2026, a agência iraniana Fars News Agency anunciou que o país do Golfo, sob ataque direto dos EUA e de Israel, havia lançado um serviço de seguros para embarcações lastreado em Bitcoin e destinado a empresas que precisassem utilizar o Estreito de Ormuz, uma das passagens marítimas mais estratégicas do planeta, por onde trafega cerca de 20% de todo o petróleo comercializado globalmente.

O serviço, chamado Hormuz Safe, teria potencial para gerar mais de US$ 10 bilhões em receita anual para o Irã.

A iniciativa teria sido uma resposta às deliberações do Joint War Committee (JWC), um comitê composto por representantes do mercado segurador ligado ao sistema financeiro londrino. Segundo o Geopolitical Monitor, o comitê teria se reunido na Grã-Bretanha ainda naquele mês para redesignar toda a região do Golfo como uma zona de conflito, em um momento no qual o tráfego marítimo já se encontrava 95% paralisado.

Apesar de não ser uma organização institucional formal nem estar vinculado a qualquer tratado internacional, o JWC exerce influência significativa sobre os prêmios globais de seguros marítimos e, por consequência, sobre o custo de operações comerciais em regiões sensíveis.

O papel desse comitê informal é classificar zonas de risco marítimo elevado, conhecidas como listed areas. Quando uma determinada região entra nessa categoria, seguradoras passam a cobrar prêmios de guerra (war risk premiums) substancialmente mais altos para cobrir embarcações que transitam pelo local.

Como efeito em cascata, aumentam também os custos de frete, transporte, financiamento e logística, tornando a operação comercial significativamente mais cara e, em alguns casos, economicamente inviável.

No caso do Irã, a estratégia adotada para se tornar menos suscetível aos efeitos da guerra sobre o comércio que passa pela rota do Golfo foi o uso de sistemas alternativos de liquidação financeira, como o Bitcoin e outras infraestruturas descentralizadas de pagamento.

As sanções norte-americanas já impedem o país, há décadas, de acessar plenamente o sistema interbancário SWIFT, além de restringirem seu acesso a sistemas internacionais de financiamento, crédito e liquidação em dólar.

Nos últimos anos, pesquisadores do Atlantic Council e do Center for a New American Security observaram que criptoativos passaram a integrar estratégias de evasão parcial de sanções por parte de Estados sob embargo, incluindo o Irã. Nesse modelo, carteiras em blockchain ajudam a descentralizar transações financeiras e reduzem a dependência de intermediários bancários sujeitos à jurisdição ocidental.

Segundo a Fars News Agency, o governo iraniano teria criado a plataforma Hormuz Safe para estabelecer instrumentos paralelos de cobertura e “segurança” sob seus próprios termos para embarcações que transitassem pelo estreito. Esses instrumentos iriam desde o registro de navios até a cobrança de taxas indiretas de navegação, com pagamentos realizados fora do sistema bancário tradicional.

O mecanismo também serviria para oferecer garantias de passagem respaldadas pela Marinha iraniana, criando uma espécie de arquitetura financeira e securitária paralela para a navegação em Ormuz.

A China seria parte importante desse rearranjo, de acordo com informações do Geopolitical Monitor. Como maior compradora do petróleo iraniano, Pequim teria interesse estratégico em mecanismos de comércio menos dependentes do dólar e menos expostos a sanções americanas.

Em meados de maio, o Hormuz Safe teria passado a aceitar pagamentos na moeda chinesa, o yuan, além de Bitcoin (mas nunca em dólares), reforçando a lógica de desdolarização da plataforma.

“No fim de abril”, narra o portal, “as autoridades americanas congelaram centenas de milhões de dólares em criptoativos ligados a entidades iranianas”. Apesar disso, carteiras de Bitcoin podem ser recriadas ou substituídas com relativa rapidez, o que dificulta ações permanentes de bloqueio.

O Hormuz Safe serviu como uma infraestrutura paralela de pagamentos destinada a sustentar uma arquitetura financeira capaz de viabilizar o funcionamento de uma das hidrovias mais importantes do mundo, ao mesmo tempo em que reduzia a capacidade de Washington de exercer controle por meio de sanções.

Diferente de contas bancárias tradicionais, transações em blockchain podem operar sem bancos correspondentes, sem compensação via SWIFT e, em alguns casos, sem intermediários centralizados, o que torna a fiscalização por instituições regulatórias internacionais mais complexa e aumenta a velocidade de liquidação financeira.

Além de uma zona de disputa militar, Ormuz pode ter inaugurado uma dimensão mais ampla da soberania territorial e da descentralização financeira dos governos.