Crise no transporte público: Apesar dos novos ônibus, metade da frota de coletivos do Grande Recife ainda circula com vida útil vencida
Fonte: jc.uol.com.br | Data: 15/06/2026 16:14:37
Com licitação atrasada há mais de uma década e apenas 22% dos veículos refrigerados, sistema efrenta sucateamento da frota e consequente insegurança
Por
Roberta Soares
Publicado em 15/06/2026 às 15:58
| Atualizado em 15/06/2026 às 16:01
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Apesar da entrada de 80 novos ônibus refrigerados, da expectativa de compra de outros 100 coletivos elétricos e da chegada até o fim do ano de mais 150 veículos também com ar-condicionado, o transporte público da Região Metropolitana do Recife segue operando com uma frota muito velha. Em maio deste ano, o percentual ultrapassava os 61% e, agora, chega a 53%. O que significa dizer que mais da metade dos ônibus estão acima da idade segura recomendada.
O cenário não é de hoje – o passageiro que usa o serviço sabe disso – e diz respeito, especialmente, à frota das chamadas permissionárias do Sistema de Transporte Público de Passageiros da RMR (STPP/RMR), que são as empresas que garantem 70% da operação do serviço e que desde 2013 aguardam o governo de Pernambuco conseguir concluir a licitação remanescente das linhas, realizada apenas parcialmente em 2014.
A planilha à qual o JC teve acesso aponta que o sistema de transporte público segue num cenário de degradação que compromete diretamente a segurança e o conforto dos passageiros. Em setembro de 2025, quase 40% da frota operava com a vida útil vencida, um índice que saltou para 53% em levantamentos de 2026.
O envelhecimento da frota tem várias consequências: aumenta o custo operacional do sistema – pago pela tarifa do passageiro, mas também pelo subsídio público do Estado -, deteriora a imagem do serviço prestado à população (que já não é bom); e potencializa o risco de problemas mecânicos e até sinistros de trânsito com os coletivos velhos.
UM EM CADA DOIS ÔNIBUS DEVERIA SER SUBSTITUÍDO NO GRANDE RECIFE

De acordo com a planilha do sistema de ônibus da RMR referente a maio de 2026, a situação atingiu um patamar crítico: dos 2.504 ônibus em operação, 1.243 já ultrapassaram o tempo de vida útil recomendado. Isso significa que praticamente um em cada dois coletivos circulando pelas ruas do Grande Recife deveria ter sido substituído, mas permanece em serviço devido à inércia na renovação do sistema. A idade média total dos veículos chega a 6,47 anos, um indicativo claro de obsolescência.
A análise detalhada da tabela de renovação revela um abismo de qualidade entre os diferentes modelos de gestão. Enquanto as empresas concessionárias (Conorte e MobiBrasil) apresentam 26,2% de sua frota com vida útil vencida, o grupo das permissionárias atinge o alarmante índice de 61,1%. “Essa discrepância evidencia como a falta de contratos formais de concessão nas linhas operadas por permissionárias impacta negativamente a manutenção e a renovação dos veículos”, desabafa um operador em reserva.
Entre as empresas permissionárias, o quadro de sucateamento é ainda mais severo em operadoras específicas. A Caxangá (CAX), por exemplo, opera com 64% de sua frota (228 veículos) além da vida útil, enquanto a Borborema (BOA) detém a frota mais velha em termos de idade média, atingindo 7,76 anos. Outras empresas como Metropolitana (EME) e Globo (GLO) também mantêm mais da metade de seus ônibus em condições irregulares de uso, com índices de 61,5% e 58,6% de veículos vencidos, respectivamente.
MAIS DE UMA DÉCADA ESPERANDO A CONCLUSÃO DA LICITAÇÃO

O cenário de abandono é fruto de uma paralisia administrativa que já dura mais de 12 anos. O governo estadual não consegue concluir a licitação remanescente das linhas de ônibus desde 2014, postergando a modernização do sistema independentemente da gestão partidária no poder. Agora, na gestão da governadora Raquel Lyra (PSD), é que a licitação remanescente das linhas parece estar mais perto de ser, enfim, finalizada.
Segundo informações do próprio governo e apesar dos inúmeros adiamentos do processo, o edital da licitação já teria sido liberado pela Procuradoria Geral do Estado (PGE-PE) e encaminhado ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE) para validação. Após essa etapa, poderá ser lançado, o que deve acontecer até o mês de setembro, segundo os últimos prazos divulgados.
REFRIGERAÇÃO DA FROTA CHEGOU A 22%

Além da idade avançada dos veículos, o passageiro do Grande Recife sofre com o calor intenso dentro dos coletivos. Atualmente, o índice de refrigeração da frota é de apenas 22%, o que significa que a vasta maioria da população ainda depende de ônibus sem ar-condicionado. Embora a entrega de 40 novos ônibus refrigerados em junho de 2025 tenha elevado levemente esse percentual, o avanço é tímido diante da magnitude do sistema e da urgência de conforto térmico para os usuários.
Recentes investimentos via financiamento do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) Refrota, no valor de R$ 65 milhões, permitiram a aquisição de novos veículos equipados com tecnologia Euro 6 e entradas USB. “Esses 40 novos ônibus são importantes, sem dúvida, mas ainda representam uma fração mínima diante dos 1.243 veículos que operam com a vida útil vencida. A renovação pontual serve como um alento, mas não soluciona o déficit estrutural acumulado por anos de negligência na gestão da frota”, reclama outro operador.