Foco de operações de resgate, cubanos já pedem mais refúgio que venezuelanos em Roraima
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 18/06/2026 04:15:59
Dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) mostram que o número de pedidos de refúgio de cubanos no estado disparou entre 2024 e 2025
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RESUMO
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GERADO EM: 17/06/2026 – 22:31
Aumento de Cubanos em Roraima: Crise e Coiotes Impulsionam Migração
O fluxo migratório de cubanos para Roraima superou o de venezuelanos, com 20.861 pedidos de refúgio entre 2024 e 2025. A crise em Cuba e restrições nos EUA impulsionaram essa rota, facilitada por coiotes que cobram até R$ 50 mil. A Polícia Rodoviária Federal resgatou 108 cubanos em condições precárias, evidenciando o aumento drástico na migração. O governo brasileiro busca assegurar acolhimento e dignidade aos migrantes.
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O resgate de 108 cubanos feito em um único dia na semana passada pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) de Roraima — um recorde para a corporação no estado — escancarou um movimento recente de intensificação do fluxo migratório de Cuba para o Brasil, a partir da Região Norte, por meio da atuação de criminosos que oferecem transporte ilegal na fronteira por até R$ 50 mil. A alta procura pela nova rota ocorre em meio à crise que atinge o país caribenho e ao aumento das barreiras para a entrada nos EUA, tradicionalmente o destino dessa população. Hoje, já há mais cubanos com pedidos de refúgio em Roraima do que venezuelanos.
Dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) mostram que o número de pedidos de refúgio de cubanos no estado disparou entre 2024 e 2025. O total passou de 5.353 casos para 20.861. Já as solicitações de venezuelanos ficaram em 14.898 e têm tendência de queda.
O resgate recorde de cubanos aconteceu no dia 9 de junho na BR-401, em Cantá (RR), que liga a capital Boa Vista à fronteira com a Guiana, uma das principais portas de entrada para esses imigrantes. Na primeira ocorrência, os agentes da PRF solicitaram que um comboio de três carros parasse para uma abordagem policial. Os veículos, no entanto, ignoraram o pedido e seguiram em frente. O comboio foi interceptado, e os agentes encontraram 39 pessoas em condições precárias, entre crianças, adultos e idosos. Muitos estavam sem comer há dois dias.
— Foram 68 resgatados em 2024, 50 em 2025. E nesse ano já foram 240. Nas últimas duas semanas foi mais intenso, com quase 170 pessoas. Foi muito rápido e intenso — diz o chefe de comunicação institucional da PRF, Isaías Magalhães, que explica que os cubanos, assim como imigrantes de outras nacionalidades, são transportados clandestinamente pelos chamados coiotes, criminosos que se especializam na prática. — Da fronteira da Guiana até Boa Vista são 120 km. Uma passagem normal é R$ 70. Eles estavam cobrando R$ 200 por pessoa. Em um veículo para cinco pessoas, levavam 12.
Outras ocorrências resgataram mais cubanos. Na segunda delas, oito imigrantes em situação irregular foram encontrados em um carro que trafegava na rodovia BR-401. Na terceira, 61 cubanos foram localizados em uma residência em Cantá após os agentes seguirem um veículo suspeito de transporte clandestino. Dois dias depois, 43 imigrantes foram resgatados enquanto atravessavam a pé a ponte dos Macuxis, que liga a capital aos municípios da fronteira.
Custo elevado
Divulgado este ano, o relatório “Contrabando de Migrantes no Brasil: uma análise de inteligência”, da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), mostra que a porta de entrada para o continente é a Guiana, único país a não exigir visto dos cubanos. Após aterrissarem na capital Georgetown, eles percorrem o país de carro até chegarem à cidade de Lethem, que faz fronteira com o município brasileiro de Bonfim (RR). Para chegar ao Brasil, eles cruzam o Rio Tacutu de barco ou em carros de passeio que atravessam a ponte entre os dois países. Depois, seguem para Boa Vista.
Segundo a Abin, Bonfim é onde estão concentradas as redes de contrabando, formadas principalmente por brasileiros e cubanos. Os coiotes ofertam o serviço pelas redes sociais e aplicativos como WhatsApp e cobram entre US$ 1,2 mil e US$ 10 mil (R$ 51,2 mil na cotação de ontem) por pessoa a depender do trajeto contratado.
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— Os que identificamos, em sua maioria, já têm passagens por outros crimes, como descaminho, contrabando e tráfico. Eles se aventuram por ser uma renda alta, um ganho fácil. Há também os aventureiros que nunca fizeram isso e veem aí uma oportunidade — diz Magalhães.
Existem ainda outras rotas utilizadas pelos cubanos, como a que passa pela fronteira da Venezuela e chega ao Brasil por Pacaraima (RR). Outra possibilidade é o caminho que começa na Guiana e passa pelo Suriname, Guiana Francesa e a cidade de Oiapoque (AP).
Os imigrantes tendem a ser homens e mulheres de 18 a 40 anos e baixo nível socioeconômico. Crianças e idosos, no entanto, também fazem a viagem, mas em menor quantidade. Apesar do aumento na entrada de cubanos nos últimos anos em Roraima, o estado não é o destino de boa parte deles, que seguem para Manaus e de lá para outros países ou estados brasileiros, principalmente na Região Sul, como o Paraná. Pesquisador do tema, o professor João Jarochinski, da Universidade Federal de Roraima (UFRR), avalia que vários fatores fazem da Região Norte uma área que atrai imigrantes deste país.
— Essa dinâmica de entrada não é inédita e desde os anos 1990 vem se criando uma rede (de cubanos na região). Depois, com o programa Mais Médicos, o estado recebeu uma série de profissionais cubanos em vários municípios no interior amazônico — explica Jarochinski, destacando que a presença dos compatriotas é um fator que contribui para atrair estrangeiros ao país. — Roraima é passagem. Alguns têm ido para o Sul para atender a demanda do mercado de trabalho da agroindústria. São Paulo e Rio também sempre atraem uma parcela.
Efeito Trump
Ele afirma que o Brasil é o “destino possível” aos cubanos dentro das atuais condições, sobretudo desde que o governo de Donald Trump enrijeceu as políticas migratórias dos EUA, reduzindo os fluxos migratórios que passavam pelo estreito de Darién, entre Colômbia e Panamá. Os estrangeiros são atraídos ao Brasil também por facilidades oferecidas pela legislação, que permitem um atendimento mais rápido em etapas como a regularização migratória. Caso façam a solicitação de refúgio, os estrangeiros têm acesso a políticas públicas, como o Sistema Único de Saúde (SUS) e programas de treinamento profissional, enquanto durar o processo. Cubanos, assim como outras nacionalidades, estão excluídos, no entanto, da Operação Acolhida, criada para atender venezuelanos.
Para o cientista político Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV, a situação econômica de Cuba é o principal fator que tem feito seus cidadãos buscarem outros países. Ele avalia que a “crise semipermanente” que a ilha vive desde o fim da Guerra Fria se agravou com o recrudescimento da política dos EUA para o país na gestão Trump. Os embargos e sanções afastaram mais empresas e levaram a uma crise energética:
— Estão cortando todas as maneiras de se ter acesso a bens, sistema financeiro e energia. A pressão é tal que só resta às pessoas fugir.
Se a política americana não mudar, a tendência é que o fluxo de cubanos ao Brasil continue, dizem os pesquisadores.
— Se os EUA possibilitarem novas entradas, o que não parece que vai acontecer, ou um país começar a reconhecer cubanos como refugiados, isso pode mudar. Mas no contexto atual a tendência é continuar esse fluxo — diz Jarochinski.
O governo de Roraima diz que política migratória não é atribuição estadual, mas que acompanha com “atenção e preocupação” o fluxo migratório e mantém constantes tratativas com o governo federal. O governo Lula, por sua vez, disse que trabalha para garantir acolhimento e dignidade aos que que cruzam a fronteira.
Veja abaixo a íntegra das notas
“O Governo de Roraima acompanha com atenção e preocupação a situação do fluxo migratório e a entrada de cubanos no Brasil pela fronteira em Roraima e segue em constantes tratativas com o Governo Federal, colocando-se à disposição para colaborar com as ações necessárias e buscando o suporte adequado para lidar com as consequências dessa migração”
“O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), por meio da Secretaria Nacional de Justiça (Senajus), informa que acompanha permanentemente os fluxos migratórios no país. O aumento das solicitações de refúgio por cidadãos cubanos é monitorado pelo Governo Federal e integra um fenômeno migratório regional, observado também em outros países da América Latina.
Migrantes, solicitantes de refúgio e refugiados reconhecidos têm assegurado, independentemente da nacionalidade, o acesso às políticas públicas em igualdade de condições com os brasileiros. Nesse contexto, o Governo Federal implementa a Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia (PNMRA), voltada à integração dessas populações nas áreas de saúde, assistência social, educação, direitos humanos e geração de emprego e renda.
Por fim, o MJSP informa que atua para preservar a finalidade do instituto do refúgio, conforme previsto na legislação brasileira e nos instrumentos internacionais de proteção, e reafirma seu compromisso com a promoção de condições para que migrantes, solicitantes de refúgio e refugiados possam viver no Brasil com dignidade, segurança e acesso a direitos”.
“A Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia, estabelecida pelo Governo brasileiro por meio do Decreto nº 12.657, de 07 de outubro de 2025, determina as condições de recepção de todas as pessoas nas condições citadas, sem distinção de nacionalidade. Após passarem pelo processo de regularização migratória, conduzido pela Polícia Federal, solicitantes de refúgio têm seus processos registrados durante o período em que tramitar a solicitação; têm acesso às políticas públicas, tais como acesso ao Sistema Único de Saúde, inscrição no CadÚnico e usufruto dos programas de treinamento profissional, entre outros.
Dessa forma, tais benefícios e políticas estão disponíveis, conforme a legislação, a pessoas de qualquer nacionalidade, sem distinção, independentemente do local onde ocorreu a entrada em território brasileiro. Desde o início deste mês, cerca de 60 migrantes cubanos, em situação de vulnerabilidade, procuraram atendimento no Alojamento de Trânsito da Assistência Social em Roraima.
O Governo Federal trabalha para garantir o acolhimento e a dignidade a todos os cidadãos que cruzam a fronteira e reforça que os migrantes cubanos são amparados pelas políticas públicas gerais previstas”.
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