Super El Niño pode deixar conta de luz mais cara em 2027
Fonte: acritica.net | Data: 19/06/2026 09:03:58
A possível formação de um super El Niño nos próximos meses acendeu um alerta no setor elétrico brasileiro, com reflexos que podem chegar ao bolso do consumidor em 2027. O risco está ligado à redução das chuvas em parte do País, ao uso mais intenso dos reservatórios das hidrelétricas e à necessidade de acionar termelétricas, que produzem energia mais cara.
Com menos água disponível, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) poderá recorrer mais às usinas térmicas para preservar os reservatórios. Esse movimento aumenta os custos de geração, eleva a chance de bandeiras tarifárias mais caras e pode pressionar a conta de luz de consumidores e empresas.
Segundo o gerente de Preços e Estudos de Mercado da consultoria Thymos, Pedro Moro, o comportamento das chuvas nos próximos meses será decisivo para os preços de energia em 2027. Ele afirma que a evolução das condições hidrológicas e, principalmente, o próximo período úmido vão determinar o cenário do setor.
Preço da energia pode oscilar
A projeção da Thymos indica um Preço da Liquidação das Diferenças (PLD) médio entre R$ 150 e R$ 200 por megawatt-hora no segundo semestre de 2026. O PLD é usado como referência no mercado de energia e influencia os custos do setor.
Moro explica que esse intervalo representa uma média para o período, mas os preços podem variar de forma relevante entre os meses e ao longo das horas do dia, conforme as condições hidrológicas, meteorológicas e operacionais do sistema.
O especialista também pondera que os efeitos do El Niño podem variar bastante entre as regiões. No Sul, o fenômeno tende a provocar chuvas mais intensas durante a primavera, o que pode favorecer o cenário hidrológico. Já no Norte e no Nordeste, costuma reduzir as chuvas durante o período úmido, a partir de novembro, com impacto mais relevante para o balanço energético e a formação de preços ao longo de 2027.
Além da questão das chuvas, temperaturas mais elevadas durante a primavera podem aumentar o consumo de energia, especialmente pelo uso de equipamentos de refrigeração, o que ampliaria a volatilidade diária dos preços.
Bandeiras tarifárias entram no radar
A influência mais direta do fenômeno climático para o consumidor aparece nas bandeiras tarifárias, que acrescentam taxas extras à conta de luz quando o custo de geração sobe.
De acordo com a projeção da Thymos, a bandeira tarifária deve permanecer amarela até novembro. Em dezembro, há possibilidade de bandeira verde, sem cobrança adicional.
O responsável por Planejamento e Inteligência de Mercado da consultoria PSR, Mateus Cavaliere, avalia que um dos efeitos do El Niño pode ser um período chuvoso mais intenso também no Sudeste, o que favoreceria o armazenamento de água nos reservatórios da região.
Ainda assim, ele afirma que aumentos de custos podem ser sentidos antes de 2027, dependendo do comportamento do período seco. Mesmo com reservatórios cheios no momento, o sistema elétrico pode ficar mais pressionado caso o consumo aumente.
Para Cavaliere, se o nível dos reservatórios cair muito, os custos mais altos podem se estender até 2028, cenário que não deve ser descartado.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) tem papel considerado fundamental na articulação entre empresas, órgãos públicos e demais agentes do setor diante de eventos climáticos extremos.
Na próxima segunda-feira (22), a agência reguladora vai realizar uma reunião com agentes do setor elétrico e órgãos governamentais para discutir medidas preventivas de enfrentamento ao El Niño. O encontro será na sede da Âmbar Energia Amazonas, em Manaus.
O Ministério de Minas e Energia (MME) e a Aneel também vêm atuando no monitoramento e na mobilização preventiva diante da perspectiva de um super El Niño. A agência enviou ofício às empresas responsáveis por empreendimentos hidrelétricos, com alerta sobre a necessidade de medidas preventivas voltadas à segurança de barragens.
O documento trata da identificação e mitigação de fatores de risco que possam reduzir o nível de segurança das barragens e de estruturas associadas.
Risco maior será medido a partir de outubro
Para o coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, Nivalde de Castro, o risco maior do El Niño será calibrado a partir de outubro. Segundo ele, o problema pode se estender para 2027 caso o fenômeno climático seja mais severo.
Castro avalia que não há risco de apagão, já que outras fontes podem ser acionadas pelo sistema. O impacto principal, segundo ele, está no custo da energia, com maior uso de termelétricas para poupar os reservatórios.
Como a geração térmica é mais cara do que outras fontes, o acionamento dessas usinas pode elevar as bandeiras tarifárias e gerar reflexos na inflação.
Empresas reforçam planos de contingência
Em um cenário de super El Niño, empresas e autoridades do setor elétrico trabalham para reduzir riscos nas redes de distribuição e transmissão, nas usinas de geração e nos atendimentos emergenciais.
A experiência acumulada em eventos climáticos recentes tem servido de base para revisar planos de contingência, proteger equipamentos e melhorar a resposta a ocorrências extremas.
Na Copel, que lidou em novembro do ano passado com os efeitos de um tornado de categoria F4 em Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, a empresa revisou o plano de contingência, ampliou a força de trabalho e passou a usar tecnologia para planejar operações.
Segundo o superintendente de Operação e Manutenção da Copel, Gustavo Theodor Carvalho, a companhia está contratando eletricistas após 10 anos. Os novos profissionais devem concluir o treinamento em agosto, antes do período de possível maior impacto do El Niño, a partir da virada do inverno para a primavera, em setembro. Serão mais de 100 novos trabalhadores para atuar no primeiro atendimento de ocorrências.
A empresa também utiliza uma ferramenta de inteligência artificial desenvolvida em parceria com o Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar), capaz de indicar o impacto operacional de eventos climáticos previstos para os sete dias seguintes. A tecnologia ajuda a posicionar equipes e equipamentos antes dos temporais.
Lições de enchentes e eventos extremos
Na CPFL Energia, que enfrentou as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, parte das medidas busca evitar a repetição de problemas observados naquele período. Segundo o presidente da companhia, Gustavo Estrella, a empresa realizou obras de ajustes para reduzir impactos de eventuais cheias.
Em uma subestação que ficou inundada, por exemplo, a casa de máquina foi transferida para um pavimento superior, medida que deve ajudar a evitar danos em novas inundações.
Estrella também citou aprendizados sobre mobilização, comunicação com a população, cooperação com órgãos de governo e colaboração entre empresas do setor. Para ele, essas parcerias são essenciais para enfrentar crises de grande porte.
A Celesc também estruturou, em parceria com a Secretaria de Defesa Civil de Santa Catarina, um plano de contingência para atuação preventiva e coordenada. A iniciativa inclui monitoramento meteorológico permanente, mobilização antecipada de equipes nas 16 regionais da companhia, distribuição de equipamentos emergenciais, como baterias e geradores próprios, e acionamento de estruturas de apoio conforme a gravidade de cada evento.
O presidente da Celesc, Edson Moritz, citou a complexidade do cenário catarinense, com vento no oeste, água no meio-oeste, inundações e problemas ligados a barragens, o que exige flexibilidade de gestão.
Distribuidoras adotam prevenção
O Grupo Energisa informou que vem aprimorando, desde 2011, a atuação em eventos climáticos extremos, com foco em prevenção, monitoramento e resposta.
Desde dezembro de 2025, o grupo também se prepara para atender às exigências da Resolução Normativa da Aneel nº 1.137, criada para fortalecer a atuação das distribuidoras em situações de eventos extremos.
A norma estabelece diretrizes mais claras para ações preventivas, como poda e manejo da vegetação, além de procedimentos relacionados à resposta a emergências, comunicação com a população e divulgação de informações sobre interrupções e previsão de restabelecimento do fornecimento.
Segundo a Energisa, a preparação das nove distribuidoras do grupo, presentes no Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte do País, envolve medidas específicas para ondas de calor, queimadas, tempestades e outras contingências. O objetivo é reduzir vulnerabilidades, acelerar o restabelecimento do serviço e preservar a segurança de clientes, colaboradores e comunidades.