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Não é apenas mais um estupro coletivo: há uma epidemia de violência sexual na infância

Fonte: oglobo.globo.com | Data: 19/06/2026 11:59:20

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A violência sexual contra crianças e adolescentes triplicou em uma década. São 121 registros de estupro de vulnerável por dia, em média


Epidemia de violência sexual
Epidemia de violência sexual — Foto: Pixabay

RESUMO

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GERADO EM: 19/06/2026 – 11:43

Casos de Violência Sexual contra Menores Triplicam em 10 Anos no Brasil

A violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil triplicou em dez anos, com média de 121 registros diários de estupro de vulnerável. Em 2025, foram 59.366 casos, com 84,7% das vítimas sendo meninas. Esse aumento é parcialmente devido à melhor identificação e conscientização, mas também reflete um real agravamento da violência. Grupos masculinistas e discursos misóginos nas redes sociais contribuem para esse cenário. Ações urgentes são necessárias, desde a proteção familiar até políticas públicas eficazes.

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Mais um estupro coletivo de uma adolescente por um colega de turma e outros amigos, agora em Contagem, MG. Dessa vez a mãe acolheu o relato de sua filha (que esperou muito até fazê-lo) e agiu: levou ao hospital, fez boletim de ocorrência e, com ajuda das médicas, resistiu à coação dos pais dos culpados. Esses rapazes provavelmente serão imputados por ato infracional análogo a crime, e terão que viver as consequências.

Esse episódio, nada isolado, tem um contexto: os números do Ministério da Justiça mostram um quadro brutal e inaceitável. A violência sexual contra crianças e adolescentes triplicou em uma década. Em 2025, foram registrados 59.366 casos — ante 19.496 em 2015, alta de 204,5%. São 121 registros de estupro de vulnerável por dia, em média. Em 84,7% do total, as vítimas são meninas.

Parte desse crescimento reflete avanço real na capacidade de identificação: professores, profissionais de saúde e policiais hoje reconhecem os sinais com mais precocidade, e campanhas de conscientização reduziram a subnotificação. Mas é óbvio que há um aumento do número de casos também, que reflete o agravamento da violência contra crianças e adolescentes, perceptível também nas escolas, e sobretudo no mundo digital.

O estupro é um fenômeno oculto, na grande maioria das vezes cometido dentro de casa por familiares ou conhecidos da família (pais, padrastos, tios, namorados de irmãs, etc). Muitas vezes a criança não entende o que está acontecendo ou não tem a quem apelar. Ou, por medo e vergonha, permanece em silêncio. Por isso os números na verdade deve ser bem maiores do que os registrados. E o Congresso ainda piora a situação, dificultando o atendimento de crianças estupradas, impedindo-as de todo modo de recorrer ao aborto legal.

Entre adolescentes, a violência não escolhe classe social. Em escolas particulares de São Paulo, com mensalidades acima de 5 mil reais, foram descobertos grupos de WhatsApp com listas de “meninas estupráveis” e encenações de estupro em sala de aula. Em escola pública na Zona Norte da mesma cidade, quatro alunos do sétimo ao nono ano respondem por estupro coletivo de um colega de 12 anos no banheiro.

Esse ambiente tóxico tem origens claras. Grupos masculinistas cresceram mais de seiscentas vezes entre 2019 e 2025, segundo estudo da FGV. Um discurso extremista contra a mulher, que antes se restringia a pequenos grupos sociais (Incels e red pills) e não tinha impacto social, se aproveitou do algoritmo das redes sociais e sua tendência de radicalização para se tornar praticamente hegemônico entre jovens.

Uma pesquisa do King’s College com 23 mil jovens em 29 países mostrou que 61% dos rapazes da Geração Z acreditam que a igualdade de gênero “foi longe demais”. 34% acham que mulheres devem obedecer a seus maridos, o dobro da geração entre 62 e 80 anos. Meninos cada vez mais isolados, com horas de exposição a pornografia violenta e a influenciadores que monetizam misoginia, constroem sua identidade dentro de um ecossistema que normaliza a subjugação feminina, e que é desenhado para viciar e reter a atenção, com conteúdos cada vez mais radicais.

Se nada fizermos, a tendência é piorar. E há muito o que fazer. Na família, conversar sempre, educar as crianças sobre partes íntimas, nomear o abuso, explicar que o corpo tem fronteiras e que segredos impostos por adultos devem ser contados. Essa é uma proteção essencial.

Havendo qualquer suspeita, comunique ao Disque 100 ou ao Conselho Tutelar. Se uma criança ou adolescente revelar algo, acolha primeiro, questione depois. Vá ao hospital e registre boletim de ocorrência — as evidências médicas têm validade legal e o atendimento é obrigatório pelo SUS. Não apague mensagens nem conversas: elas são prova. Resista à pressão de “resolver em família”, sobretudo quando os agressores são conhecidos. E também supervisione de perto os grupos de Whatsapp e as redes sociais de seus filhos mais velhos – e atrase a entrada nesse ambiente om quanto puder.

Nas políticas públicas, é preciso retomar com urgência a equiparação da misoginia (inclusive incitação de violência contra a mulher em redes sociais) aos crimes de racismo e homofobia — projeto que passou no Senado em março e parou na Câmara. O ECA Digital precisa de regulamentação efetiva que obrigue plataformas a responderem por conteúdo que promove violência de gênero. Grupos de reflexão sobre masculinidade nas escolas, já testados com resultados concretos, precisam de financiamento e escala. E a rede de proteção — saúde, educação, assistência social — precisa de protocolos integrados e apoio das autoridades para resistir à coerção de políticos conservadores.

A mãe de Contagem agiu certo. Mas a proteção de crianças não pode depender da coragem individual de uma mãe. Depende de um país que decida, de vez, que isso é inaceitável.

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