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Expedição identifica múltiplos contaminantes no Rio Tietê

Fonte: tribunadoagreste.com.br | Data: 24/06/2026 20:57:42

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Um grupo de cientistas e ambientalistas percorreu o Rio Tietê em 2025 para coletar amostras de água e avaliar diferentes formas de poluição no principal rio de São Paulo.

Os resultados da Expedição Tietê, divulgados nesta quarta-feira, 24, indicam a presença simultânea de várias camadas de contaminação, com compostos que vão de microplásticos a medicamentos e drogas ilícitas, como a cocaína.

De acordo com a Fundação SOS Mata Atlântica, a análise é inédita pela abrangência dos parâmetros avaliados e pela escala. O estudo inclui poluentes que ainda não têm monitoramento obrigatório por lei, como resíduos farmacológicos, que podem causar efeito tóxico e impacto ecológico.

Em nota, a Secretaria de Meio Ambiente do Estado afirmou que a carga de poluição no rio caiu 21% nos últimos dois anos, após ações de saneamento, drenagem e outras medidas. A pasta também destacou a complexidade da bacia, marcada por “intensa atividade industrial, agrícola e urbana”.

A presença das substâncias aponta forte influência do esgoto não tratado no rio e de outras atividades humanas, como o uso intensivo de insumos agrícolas e o descarte inadequado de lixo.

“(Quando há) Qualquer descuido em qualquer lugar, o rio vai nos contar. O rio não mente, conta o que a gente tem feito com ele”, afirmou Gustavo Veronesi, coordenador da causa Água Limpa da Fundação SOS Mata Atlântica.

Segundo Veronesi, um dos achados que chamaram atenção foi a presença de resquícios de contaminantes até na nascente do rio, em Salesópolis, onde a água é mais limpa e reciclada por uma área protegida de mata, no Parque Nascentes do Tietê.

O que a expedição constatou

– Nenhum trecho livre de contaminação ao longo do Tietê;

– Microplásticos identificados em todos os pontos analisados, com predominância de fibras;

– 25 tipos de agrotóxicos detectados ao longo do rio;

– 16 substâncias, entre fármacos e drogas ilícitas, encontradas;

– Piora mais intensa da qualidade da água na região metropolitana de São Paulo.

A pesquisa foi desenvolvida pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com uma equipe multidisciplinar de pesquisadores das universidades federais de São Paulo (Unifesp), do ABC (UFABC), do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP (CENA/USP) e da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS).

As medições ocorreram em 14 pontos do canal principal do rio, desde a nascente em Salesópolis até a foz no Rio Paraná, em Itapura (SP). Os locais foram considerados representativos dos usos e da ocupação do solo em toda a bacia hidrográfica.

Poluentes invisíveis

A expedição mediu níveis de microplásticos, agrotóxicos, fármacos e drogas ilícitas. Também integrou análises microbiológica, físico-química e biogeoquímica, com carbono e nitrogênio, indicadores do acúmulo de carga orgânica nos trechos mais impactados. Os resultados foram disponibilizados pela SOS Mata Atlântica em um painel de dados, com visualização por ponto de análise.

Alguns desses parâmetros, encontrados em concentrações altas o suficiente para causar efeito tóxico, não são medidos regularmente pelas bases de monitoramento. Por isso, são chamados pelos pesquisadores de “poluentes invisíveis”.

Fármacos e drogas ilícitas

A investigação sobre fármacos e drogas ilícitas foi conduzida por pesquisadores da Unifesp – Câmpus Baixada Santista e surpreendeu pelas concentrações encontradas.

A cafeína foi detectada em todos os pontos, com concentrações na ordem de parte por milhão, o que indica lançamento de esgoto bruto no rio. Outras substâncias encontradas em altíssima concentração foram a losartana, medicamento anti-hipertensivo; o acetaminofeno, analgésico e antitérmico; e a valsartana, usada contra insuficiência cardíaca. Segundo o levantamento, essas substâncias trazem risco para organismos aquáticos.

De acordo com o professor do Departamento de Ciências do Mar da Unifesp, Camilo Seabra, elas causam “efeitos tóxicos significativos”. “Não provocam mortalidade, mas sim, por exemplo, desregulação hormonal, diminuição da produção, do crescimento, da locomoção de organismos aquáticos. Isso tem impacto ecológico de médio a longo prazo muito significativo”, disse.

A benzoilecgonina, substância produzida pelo organismo ao metabolizar a cocaína, foi quantificada em 10 pontos ao longo do rio, desde Mogi das Cruzes até a barragem de Ibitinga.

O ponto localizado em Osasco apresentou as maiores concentrações para todas as substâncias analisadas, principalmente cafeína e losartana. Também registrou a maior concentração de cocaína.

“Se esse rio está funcionando como um grande esgoto a céu aberto, podemos olhar para ele também com uma visão epidemiológica”, afirmou Seabra. Em estimativa preliminar, ele calcula o uso de cocaína por 1,5% a 2% da população, com base na concentração encontrada no ponto de coleta de Osasco.

A análise também detectou contaminação incipiente por cafeína e traços de cocaína, em concentração abaixo do limite de quantificação, até mesmo na nascente do rio. A ocorrência foi possivelmente relacionada ao lançamento de esgoto doméstico ou a atividades recreativas na região.

Agrotóxicos

Pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP realizaram uma análise direcionada para agrotóxicos com uso autorizado no Brasil.

Foram detectados 25 compostos, entre fungicidas, inseticidas e, sobretudo, herbicidas. As maiores concentrações e frequências apareceram no trecho entre Pirapora do Bom Jesus e Barra Bonita, região com intensa atividade agrícola, principalmente no cultivo de cana-de-açúcar.

Embora em baixas concentrações, alguns agrotóxicos também foram encontrados na nascente do rio.

“Esses resultados mostram que os agrotóxicos conseguem chegam por várias rotas a diferentes partes do meio ambiente, como através de chuvas e de lixiviação”, afirmou a pesquisadora do CENA-USP Nicoli Gomes de Moraes.

Os pesquisadores responsáveis pela análise destacaram a presença da atrazina, herbicida proibido na União Europeia desde 2004, mas ainda amplamente usado no Brasil. A substância foi detectada acima dos limites legais em trechos do Tietê, chegando a uma concentração sete vezes maior, de 14 mil nanogramas por litro, do que o permitido por lei para proteção da água doce, que é de dois mil nanogramas por litro.

Microplásticos

Os microplásticos têm sido detectados em todos os ambientes e organismos da Terra, mas ainda são pouco estudados nos rios brasileiros. Na expedição, eles foram encontrados em todos os pontos analisados, com concentrações de 330 a 23.587 partículas por metro cúbico.

“Ao mesmo tempo que não é uma surpresa, é preocupante”, afirmou Ítalo Braga de Castro, professor do Instituto do Mar da Unifesp e responsável pela análise do tema na expedição.

O impacto dos níveis de microplásticos no Tietê foi classificado pelos cientistas como de moderado a forte. Na comparação internacional, os índices ficaram abaixo dos registrados em rios asiáticos, mas acima dos níveis observados em cursos d’água europeus.

Essas micropartículas têm origem em diversas atividades, como a lavagem de roupas sintéticas, e são altamente móveis. Sua presença na água contamina a cadeia alimentar e ameaça os seres vivos e o ambiente.

Castro destacou que as quantidades são progressivamente mais altas em áreas com elevada densidade populacional e urbanização, além de regiões de barragens.

O que diz a análise integrada?

Uma das principais conclusões do estudo é que as múltiplas camadas de contaminação do Tietê não estão isoladas. Segundo o relatório, “microplásticos podem absorver agrotóxicos e fármacos; ambientes eutrofizados favorecem a proliferação bacteriana; a baixa concentração de oxigênio dissolvido altera processos de degradação química; e os reservatórios prolongam o tempo de permanência dos contaminantes no sistema”.

O levantamento associa o padrão de degradação do Tietê principalmente à urbanização, ao lançamento de esgotos domésticos e industriais, à intensificação das atividades agropecuárias e à presença de barragens e reservatórios. O relatório também destaca que “a melhora observada nos níveis de oxigênio dissolvido em determinados trechos não significa a eliminação dos contaminantes presentes no sistema”.

Os piores indicadores ambientais coincidem com os trechos mais urbanizados da bacia, especialmente Mogi das Cruzes, Guarulhos, Osasco e Pirapora do Bom Jesus. Nesses locais, o lançamento de esgoto doméstico sem tratamento é apontado como principal poluidor, com forte correlação entre parâmetros como cafeína, cocaína, bactérias indicadoras de contaminação fecal e carbono orgânico.

Segundo o relatório, há um gradiente espacial definido da poluição conforme as regiões da bacia:

Cabeceira: baixa interferência antrópica, melhor qualidade da água e carga contaminante reduzida;

Região metropolitana de São Paulo: “colapso ambiental”, eutrofização e múltiplas formas de contaminação;

Médio Tietê: zona de transição, caracterizada pela retenção hidrológica promovida pelos reservatórios e pelo aumento da influência de atividades agrícolas;

Baixo Tietê: melhora parcial de alguns parâmetros de qualidade da água, mas com persistência de contaminantes e efeitos acumulados de toda a bacia hidrográfica;

Foz: detecção de compostos como cafeína, carbamazepina, microplásticos e resíduos farmacológicos, o que evidencia a persistência e o transporte contínuo de contaminantes ao longo de toda a bacia.

A iniciativa aponta a necessidade de fortalecer políticas de saneamento, controle da poluição, adoção de práticas agropecuárias mais sustentáveis, recuperação florestal e monitoramento contínuo da bacia do Tietê. O rio concentra grande parte da população e da atividade econômica paulista e tem papel no abastecimento de água, na produção industrial e agropecuária, na geração de energia, na navegação e na conservação da biodiversidade.

Os pesquisadores também reforçam a importância de discutir a inclusão desses “poluentes invisíveis” na legislação e nas redes de monitoramento estadual, para que sejam considerados nas medidas de despoluição do rio.

Programa estadual tem cinco eixos

Em nota, a Secretaria de Meio Ambiente do Estado afirmou que o Programa IntegraTietê, lançado em 2023, foi criado para integrar ações de saneamento, recursos hídricos, meio ambiente, drenagem, logística e governança. Segundo a pasta, a iniciativa tem alcançado “resultados expressivos na recuperação do rio e seus afluentes”.

O programa atua nos seguintes eixos estratégicos:

– universalização do saneamento e melhoria da qualidade das águas;

– controle de cheias por meio de desassoreamento e obras de drenagem;

– limpeza e coleta de lixo superficial;

– recuperação ambiental e valorização das várzeas;

– monitoramento e fiscalização;

– governança integrada, com monitoramento, transparência e atuação coordenada entre os diversos órgãos e municípios da bacia.

A principal frente é a universalização da coleta e do tratamento de esgoto. “Nos últimos dois anos, a carga de poluição transportada pelo Rio Tietê foi reduzida em 21%, passando de 219 para 173 toneladas por dia, uma queda equivalente a 46 toneladas diárias”, informou o Estado.