Por que protegemos cães e consumimos bovinos?
Fonte: jornal.usp.br | Data: 24/06/2026 20:52:03
Por Augusto Hauber Gameiro, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP
Publicado: 24/06/2026 às 20:19

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E ste é o terceiro artigo de uma série inspirada em temas trazidos pelos próprios estudantes da disciplina de Sociologia e Extensão da Universidade de São Paulo. Depois de discutirmos a desvalorização da Medicina Veterinária e a persistente marginalização da agricultura familiar, uma nova inquietação surgiu em sala de aula: por que protegemos cães e consumimos bovinos?
À primeira vista, a pergunta parece simples. Afinal, estamos acostumados a conviver com cães e gatos como membros da família, enquanto bovinos, suínos e aves são amplamente reconhecidos como animais destinados à produção de alimentos. No entanto, quanto mais refletimos sobre essa distinção, mais percebemos que ela está longe de ser evidente.
O que faz com que uma espécie seja vista como digna de afeto, proteção e cuidado, enquanto outra seja percebida principalmente como recurso produtivo? Essa diferença é natural ou resulta de construções históricas, culturais e sociais?
A forma como tratamos os animais varia profundamente entre diferentes sociedades. Vacas são consideradas sagradas em algumas regiões da Índia. Em diversos países ocidentais, cães ocupam uma posição privilegiada como companheiros afetivos. Em outras culturas, porém, esses mesmos animais podem assumir papéis bastante distintos. Essas diferenças sugerem que a hierarquia que estabelecemos entre as espécies não decorre apenas de características biológicas, mas também dos significados que lhes atribuímos.
A sociologia contribui para esse debate ao mostrar que os animais não ocupam apenas espaços ecológicos, mas também espaços simbólicos. Criamos categorias como “animal de estimação”, “animal de produção”, “animal silvestre” ou “praga”. Essas classificações orientam comportamentos, influenciam políticas públicas e moldam nossos julgamentos morais. Mais do que descrever o mundo, elas ajudam a organizá-lo.
Outro aspecto importante está relacionado à proximidade afetiva. Tendemos a atribuir maior valor moral aos seres com os quais convivemos diretamente. Um cão que compartilha nosso cotidiano deixa de ser percebido como representante de uma espécie e passa a ser visto como um indivíduo, com personalidade própria, história e vínculos emocionais. Já os animais destinados à produção permanecem, em grande medida, invisíveis. Muitas vezes não enxergamos o animal, mas apenas o produto final.
A própria organização da sociedade moderna contribui para essa invisibilidade. As cadeias produtivas contemporâneas criam uma distância física e simbólica entre consumidores e animais. Consumimos carne sem necessariamente entrar em contato com os processos que a tornam possível. Essa separação reduz o desconforto moral e ajuda a naturalizar práticas que, em outras circunstâncias, poderiam suscitar questionamentos mais profundos.
Ao mesmo tempo, seria ingênuo ignorar a dimensão econômica da questão. A produção animal ocupa papel central na alimentação, na geração de renda e na organização econômica de muitos países, incluindo o Brasil. Milhões de pessoas dependem direta ou indiretamente dessas atividades. Por isso, o debate sobre nossa relação com os animais não é apenas ético; é também econômico, político e cultural.
Nas últimas décadas, entretanto, essa discussão ganhou novos contornos. O crescimento dos movimentos de proteção animal, o avanço do debate sobre bem-estar animal, a expansão do vegetarianismo e do veganismo e o desenvolvimento de novas tecnologias alimentares têm levado cada vez mais pessoas a questionar práticas antes consideradas inquestionáveis.
Parte importante dessa reflexão foi impulsionada por filósofos como Peter Singer, que propôs que a capacidade de sofrer deveria ser um critério central para a consideração moral dos seres vivos. Outros autores, como Tom Regan e Gary Francione, aprofundaram essa discussão ao defender que muitos animais possuem valor intrínseco e não deveriam ser tratados apenas como instrumentos para fins humanos. Independentemente das conclusões a que se chegue, essas perspectivas tiveram o mérito de tornar visíveis questões que durante muito tempo permaneceram à margem do debate público.
Mas talvez exista uma distinção ainda pouco explorada e particularmente relevante para compreendermos essa questão.
Na ecologia de sistemas, o pesquisador Howard T. Odum demonstrou que a natureza se organiza por meio de diferentes níveis de transformação e fluxo de energia. Organismos, populações, ecossistemas e sociedades ocupam posições distintas em redes complexas de organização energética. Trata-se de uma hierarquia funcional, relacionada à forma como a vida se estrutura e se mantém.
O problema surge quando transformamos essa hierarquia funcional em uma hierarquia moral. Em outras palavras, quando passamos a acreditar que diferenças ecológicas ou biológicas justificam, por si mesmas, diferenças de valor ético. A natureza descreve diferenças; ela não estabelece quem merece mais ou menos consideração moral. Essa é uma interpretação produzida pelos seres humanos.
Essa distinção torna-se especialmente importante porque permite reconhecer simultaneamente duas realidades. A primeira é que existem diferenças entre espécies, assim como existem diferentes papéis ecológicos nos sistemas vivos. A segunda é que reconhecer diferenças não implica necessariamente justificar desigualdades morais. Confundir esses dois planos talvez seja uma das principais fontes de tensão nesse debate.
Nesse sentido, a reflexão proposta pelo filósofo Hans Jonas oferece uma contribuição adicional. Ao discutir a responsabilidade humana diante do poder tecnológico e produtivo alcançado pela civilização contemporânea, Jonas argumenta que nossas decisões devem considerar não apenas seus efeitos imediatos, mas também suas consequências para o futuro da vida. A questão deixa de ser apenas o que podemos fazer e passa a incluir o que devemos fazer diante das responsabilidades que acompanham nosso poder de intervenção sobre o mundo natural.
Talvez não exista uma resposta simples para a pergunta que motivou esta reflexão. Mas isso não diminui sua importância. Pelo contrário.
Perguntar por que protegemos cães e consumimos bovinos é, em última análise, perguntar como construímos nossos critérios de valor moral, como organizamos nossas relações com os outros seres vivos e quais responsabilidades decorrem dessas escolhas.
Este foi mais um tema trazido pelos próprios estudantes da disciplina de Sociologia e Extensão. Como ocorreu nos debates anteriores, a questão inicial revelou camadas muito mais profundas do que parecia à primeira vista. Talvez a principal contribuição da universidade não seja fornecer respostas definitivas para perguntas complexas, mas criar condições para que possamos enxergar criticamente aquilo que, por força do hábito, aprendemos a considerar natural.
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