Aos 84 anos, primeiro cardiologista de Umuarama segue atendendo
Fonte: obemdito.com.br | Data: 26/06/2026 16:24:07
Às sete horas da manhã, quando muita gente ainda está começando o dia, o cardiologista Arno Prande já está instalado em seu consultório. Aos 84 anos, mantém uma rotina que atravessa décadas quase sem alterações. Chega cedo, veste gravata todos os dias e recebe os pacientes com a mesma disposição que o transformou em uma das referências da medicina em Umuarama. “Eu me visto bem por respeito ao meu cliente”, enfatiza.
Ele próprio se define como “semiaposentado”. Atende apenas no período da manhã, mas continua firme na profissão que escolheu há mais de meio século. Acorda às 5h30 para dedicar alguns minutos às orações e aos exercícios físicos. Durante muitos anos, fez caminhadas ainda de madrugada. Hoje, substituiu o hábito por exercícios funcionais e por sucessivas subidas e descidas de escada dentro de casa.
À tarde, reserva tempo para a leitura e para assistir a vídeos. Entre os assuntos preferidos estão medicina e religião. Membro da Igreja Luterana, acredita que a longevidade passa pelo equilíbrio entre diferentes dimensões da vida. “Temos que cuidar do corpo, da mente e do espírito”, ensina.
Quem o encontra diariamente no Instituto do Coração dificilmente imagina que aquele médico de fala tranquila desembarcou em Umuarama há 55 anos carregando pouco mais que os pertences pessoais e a mala de médico. “Minha intuição dizia que esse seria o meu lugar no mundo.”

Do diploma à carona para o Paraná
“Vim para cá por Deus.” A frase surge naturalmente quando Arno Prande tenta explicar como um jovem cardiologista gaúcho, recém-saído da residência médica, acabou escolhendo o Noroeste do Paraná para construir a carreira e a família.
Natural de Cruz Alta (RS), ele sempre sentiu simpatia pelo Paraná. Durante a especialização, mantinha contato com um colega que havia se estabelecido em Moreira Sales. As notícias que recebia eram animadoras. O amigo falava das oportunidades profissionais, do crescimento da região e da boa adaptação à nova terra.
Quando concluiu a residência em Cardiologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, uma coincidência ajudou a definir seu destino. Um representante de laboratório farmacêutico que viajava para o Paraná ofereceu carona. “Ele vinha para cá e eu vim junto”, recorda, sorrindo.

O convite que mudou o destino
Mas o caminho até se fixar em Umuarama ainda teria uma etapa intermediária. O plano inicial do cardiologista Arno Prande era instalar-se em Campo Mourão. No entanto, a busca por uma sala para montar consultório não deu resultado. Foi então que surgiu um convite decisivo.
O fundador do Hospital Umuarama, que na época funcionava em uma construção de madeira, ofereceu espaço para que o jovem médico se estabelecesse na cidade. “Você não terá aluguel para pagar e já terá muitos clientes”, ouviu do Doutor Germano Rudner (em memória).
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A proposta foi suficiente. Em 1971, aos 29 anos, Arno Prande mudou-se para Umuarama. A cidade vivia um período de intensa expansão impulsionada pela cafeicultura. A população da região era aproximadamente o dobro da atual e o município contava com 14 hospitais.
“Claro que os hospitais daquela época não precisavam ter a estrutura obrigatória de hoje, mas havia muitos médicos por aqui”, observa, dizendo que previa que a escolha seria certeira. E, assim, o médico que chegou quase por acaso nunca mais foi embora.

As lições das madrugadas gaúchas
A disciplina que o acompanharia pela vida não começou na medicina. Começou muito antes, ainda na infância, quando Arno Prande conheceu o valor do trabalho nas madrugadas geladas do interior gaúcho.
Filho de produtores de leite em Cruz Alta, sua cidade natal, começou a ajudar a família ainda criança. Aos 6 anos, sua tarefa era segurar o rabo da vaca durante a ordenha. “Eu segurava para ela não bater em quem estava tirando o leite”, explica.
Pouco tempo depois, já participava de todo o processo. Aos 8 anos, tirava leite e fazia entregas pela vizinhança. “Era todo dia. No inverno não era fácil. Tinha o vento minuano… Terrível!”
Além da atividade leiteira, também ajudava na produção e venda de verduras. A rotina de trabalho acompanhou sua infância e adolescência até o ingresso na universidade.

A disciplina adquirida naquele período se refletiria mais tarde na vida acadêmica. Ao concluir o curso de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, recebeu não apenas o diploma, mas também um certificado de honra ao mérito por ter alcançado 100% de frequência durante os seis anos de graduação.
“Eu era muito dedicado. Olha só: em seis anos nunca fui a uma festa sequer.” Na mesma instituição realizou a residência médica em Cardiologia, especialidade que escolheu e que exerceria por toda a vida.

Uma vida dedicada à medicina
Ao longo de mais de cinco décadas de profissão, Arno Prande tornou-se um dos nomes mais conhecidos da cardiologia regional.
Foi o primeiro cardiologista de Umuarama, participou da implantação do Instituto do Coração, atuou como secretário municipal de Saúde, dirigiu a 12ª Regional de Saúde e presidiu a Associação Médica local, entre outros cargos de expressão.
No consultório, construiu uma relação duradoura com a comunidade. São milhares de pacientes atendidos ao longo da carreira, marcada por reconhecimento profissional e respeito da população. “Atendi três gerações: primeiro o pai, depois vieram os filhos e depois os filhos dos filhos”, afirma, com orgulho.

Homenagem pelo histórico exemplar
Entre as lembranças guardadas no consultório está o quadro com as fotografias da turma de Medicina formada em 1969. Próximo a ele encontra-se outro símbolo de uma trajetória construída com dedicação.
Em 2019, ao completar 50 anos de formado, Arno Prande esteve entre os médicos homenageados pelo Conselho Regional de Medicina do Paraná durante as celebrações do Jubileu de Ouro da entidade.
O reconhecimento foi destinado a profissionais que alcançaram meio século de carreira mantendo histórico exemplar, sem qualquer sanção disciplinar. “Eu estava lá, entre os cerca de 150 homenageados”, orgulha-se.

A cidade que virou lar
Casado com Liane, pai de duas filhas e avô de quatro netos, Arno Prande encontrou em Umuarama muito mais do que o lugar onde construiu a carreira. “Encontrei um lar.”
Passadas mais de cinco décadas desde a chegada, continua falando da cidade com entusiasmo. “Umuarama é espetacular. Essa mistura que tem aqui de mineiros, paulistas, nordestinos e sulistas faz muito bem”, exclama.
Para ele, a diversidade cultural ajudou a formar uma comunidade acolhedora e aberta às diferenças. “Umuarama faz jus ao slogan Capital da Amizade porque o povo daqui é muito bom, hospitaleiro.”
Talvez seja por isso que o médico que um dia chegou carregando apenas uma mala de viagem e outra de trabalho tenha decidido ficar.
E talvez seja também por isso que, aos 84 anos, continue chegando ao consultório às sete da manhã, de gravata, disposto a cuidar de pessoas — exatamente como faz desde que escolheu Umuarama para viver.
“Foi uma das melhores decisões da minha vida. Deus me trouxe para cá e eu sou muito grato por isso.”
