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O vento e a dependência –

Fonte: aterraeredonda.com.br | Data: 26/06/2026 16:29:23

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Por CARLOS A. P. VASQUES*

Ascensão, percalços e o futuro crítico da energia eólica no Brasil

1.

A energia eólica tornou-se símbolo da transição energética brasileira e promessa de inserção competitiva na economia de baixo carbono. No entanto, sob a aparência de sucesso técnico, persistem estruturas históricas de dependência que limitam a capacidade do país de transformar abundância energética em desenvolvimento econômico e soberania tecnológica.

A transição energética não pode ser compreendida apenas como uma mudança tecnológica. Trata-se de um processo histórico que redefine as bases materiais da economia contemporânea e reorganiza as relações de poder em escala global. No caso brasileiro, essa transformação assume contornos particularmente relevantes. Poucos países reúnem, simultaneamente, abundância de recursos naturais, matriz relativamente limpa e condições excepcionais para a geração de energia renovável.

A expansão da energia eólica ao longo da última década parece confirmar esse potencial. O Brasil alcançou níveis de eficiência superiores à média global, com fatores de capacidade elevados e custos de geração entre os mais competitivos do sistema elétrico. Em poucos anos, uma fonte antes considerada complementar passou a desempenhar papel central na segurança energética nacional.

Esse avanço, contudo, não deve ser confundido com transformação estrutural.

A história econômica brasileira é marcada pela recorrência de ciclos de modernização produtiva que não alteram a posição do país na divisão internacional do trabalho. A incorporação de novas tecnologias, longe de significar autonomia, frequentemente se dá de forma subordinada, preservando a dependência em relação aos centros dinâmicos da economia mundial.

A análise do setor eólico sugere a continuidade desse padrão. Embora o país produza energia limpa em larga escala, os elementos estratégicos da cadeia produtiva permanecem concentrados no exterior. Componentes críticos, sistemas de controle e propriedade intelectual seguem sob domínio de grandes corporações internacionais. O Brasil instala, opera e expande sua capacidade de geração, mas não controla plenamente os meios técnicos que a sustentam.

A transição energética, nesse contexto, revela-se como campo de disputa, e não como processo neutro. Ela reproduz relações de poder típicas da economia política do desenvolvimento, nas quais a periferia se especializa na produção de bens de menor valor agregado, enquanto o centro concentra tecnologia, conhecimento e captura de renda.

2.

Essa contradição torna-se ainda mais evidente quando se observa a infraestrutura que sustenta o sistema elétrico. A expansão acelerada da geração eólica não foi acompanhada por um desenvolvimento equivalente das redes de transmissão. A dissociação entre geração e escoamento produziu um fenômeno paradoxal: a coexistência entre abundância energética e incapacidade de utilização.

O potencial eólico brasileiro é marcado por uma profunda desigualdade geográfica, conforme ilustrado no mapa de potencial por região. Enquanto o Norte e o Centro-Oeste apresentam nichos isolados de viabilidade, o Nordeste e o Sudeste concentram a “primeira linha” do recurso eólico brasileiro.

Essa concentração não é apenas quantitativa, mas qualitativa. Para entender a real pujança deste recurso, é necessário observar o Potencial Técnico Instalável, ou seja, à quantidade máxima de energia que pode ser gerada a partir de uma determinada fonte renovável, seja solar ou eólica em uma região de alta performance com ventos superiores a 7,0 m/s a 50 metros de altura.

Velocidade média anual do vento e potencial eólico estimado por região

Fonte: EPE (2026) – Empresa de Pesquisa Energética

O mapa do potencial eólico brasileiro revela a concentração geográfica da produção no Nordeste que detém sozinho 52% de todo o potencial técnico de alta qualidade do país (75,05 GW), com a Energia Anual Estimada de 144,29 TWh/ano, um valor que excede a demanda de muitos países desenvolvidos e dos principais centros de consumo do Brasil no Sudeste e Sul. Essa dissociação territorial exige uma infraestrutura de transmissão que o país ainda não foi capaz de desenvolver na mesma velocidade da expansão da geração.

3.

O resultado é o chamado “curtailment” – a interrupção forçada da produção por limitações do sistema. Em períodos de alta incidência de ventos, parques eólicos são desligados não por falta de recurso natural, mas por incapacidade de escoamento.

O crescimento desse fenômeno evidencia uma falha estrutural de planejamento. Energia limpa, disponível e de baixo custo é descartada em larga escala, ao mesmo tempo em que o sistema permanece dependente de fontes térmicas fósseis em momentos críticos.

A ausência de uma estratégia consistente de armazenamento aprofunda essa disfunção. Em sistemas com elevada participação de fontes intermitentes, a capacidade de estocar energia é elemento central de estabilidade. No entanto, o Brasil não incorporou de forma significativa soluções como as usinas hidrelétricas reversíveis, mantendo um modelo dependente de complementaridade térmica.

Essa configuração revela um descompasso entre a racionalidade técnica do sistema e a racionalidade institucional que orienta sua expansão. O resultado é um sistema que cresce em capacidade instalada, mas não em eficiência sistêmica.

A dimensão territorial dessa transformação revela aspectos ainda mais profundos. A expansão dos parques eólicos no Nordeste tem sido frequentemente apresentada como vetor de desenvolvimento regional. Contudo, a análise das dinâmicas locais indica a reprodução de assimetrias históricas.

Comunidades tradicionais e pequenos produtores são inseridos em contratos de arrendamento marcados por forte desigualdade de informação e poder de negociação. O uso do território é reconfigurado, práticas econômicas são alteradas e formas de vida são impactadas por uma lógica que privilegia a geração de valor externo ao espaço local.

O território transforma-se, assim, em suporte físico de uma dinâmica econômica cuja apropriação de valor permanece concentrada fora dele. A transição energética, nesse sentido, não elimina padrões históricos de dependência; ela os reconfigura sob novas bases.

4.

As novas fronteiras da economia de baixo carbono, como o hidrogênio verde e a eólica offshore, aprofundam esse dilema. O Brasil possui condições excepcionais para liderar a produção desses insumos estratégicos. No entanto, a ausência de uma política industrial articulada coloca em risco a capacidade de capturar os benefícios dessa transição.

Sem estratégias de agregação de valor, o país pode consolidar-se como fornecedor de energia limpa e insumos intermediários, enquanto as etapas de maior densidade tecnológica e maior valor agregado permanecem concentradas em economias centrais. A energia muda; a dependência, não.

A transição energética constitui um momento de reorganização da economia mundial. Países que controlam tecnologia, infraestrutura e cadeias produtivas capturam os principais benefícios desse processo. Aqueles que permanecem restritos à produção primária, ainda que em bases renováveis, mantêm sua posição subordinada.

O Brasil encontra-se diante de uma encruzilhada histórica. Pode limitar-se a expandir sua capacidade de geração, consolidando-se como fornecedor de energia barata, ou pode utilizar essa vantagem como base para um projeto de transformação produtiva e tecnológica.

Sem essa inflexão, o país corre o risco de liderar a geração de energia limpa e, ao mesmo tempo, permanecer periférico na geração de riqueza. O vento sopra com força. Mas, sem direção, até a energia mais abundante pode apenas girar em torno de si mesma, sem alterar o lugar que ocupamos no mundo.

*Carlos A. P. Vasques, economista, é pós-graduado em Administração, Finanças e Contabilidade pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-Rio).

Referências


ABEEÓLICA. Relatório Anual de Energia Eólica 2025. São Paulo: ABEEólica, 2025.

EPE – Empresa de Pesquisa Energética. Atlas do Potencial Eólico Brasileiro. Rio de Janeiro: EPE, 2026.

ONS – Operador Nacional do Sistema. Relatórios de Operação do Sistema Interconectado Nacional (2016-2026). Brasília: ONS, 2026.

BRASIL ENERGIA. O custo que poucos falam. Parte 2: Curtailment. Editora Brasil Energia, 5 ago. 2024. Disponível em: https://brasilenergia.com.br/energia/o-custo-que-poucos-falam-parte-2-curtailment.