Brasil registra melhoria do índice de doação de sangue, mas sistema segue dependente de ‘reposição’
Fonte: otempo.com.br | Data: 27/06/2026 06:17:07
A campanha Junho Vermelho chama a atenção para uma das ações mais essenciais para a saúde pública: a doação de sangue. O período busca conscientizar a população sobre a necessidade de manter o abastecimento de hemoderivados durante todo o ano e estabelecer a doação voluntária permanente. Os dados mais recentes demonstram que, apesar dos avanços registrados nos últimos anos, os estoques seguem com volumes baixos, o que compromete não apenas o atendimento a emergências, mas também os procedimentos eletivos.
De acordo com dados divulgados neste ano pelo Ministério da Saúde, o país registrou 3,31 milhões de coletas de sangue em 2024, um crescimento de 1,9% em relação a 2023, quando foram coletadas 3,24 milhões de bolsas. Em 2025, somente entre janeiro e outubro, os números preliminares já apontavam 2,71 milhões de coletas em todo o território nacional.
A meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que 3% da população de cada país seja doadora de sangue, mas, segundo o Ministério da Saúde, a taxa de doação de sangue no Brasil em 2024 foi de 1,6%. Outro fator que limita avanços mais expressivos é o elevado percentual de doadores de reposição, que representam cerca de 38% dos doadores brasileiros. Trata-se de pessoas que costumam doar apenas quando um amigo ou familiar necessita de transfusão e que, em grande parte dos casos, não retornam aos hemocentros para novas doações.
De acordo com o professor da Faminas e enfermeiro especialista em trauma, emergências e terapia intensiva Daniel Fernandes, quando os estoques estão baixos, as situações emergenciais são priorizadas, mas podem exigir transfusão imediata, sem tempo para que familiares ou a comunidade sejam mobilizados somente após a chegada do paciente. “Por isso é muito importante os bancos estarem sempre abastecidos, porque (…) você não sabe a hora que vai precisar da transfusão”, destaca Fernandes, reforçando que a disponibilidade de bolsas compatíveis pode ser determinante para a agilidade e o resultado do atendimento.
Com isso, a consequência aparece em outras áreas da assistência. “As cirurgias eletivas tendem a ser postergadas, e isso faz com que as filas do Sistema Único de Saúde (SUS) aumentem grandemente”, acrescenta. O adiamento pode contribuir para a piora de pacientes que, até então, apresentavam condições controladas “Há um impacto na piora do adoecimento das pessoas que estão com casos às vezes estabilizados, (…) e esses quadros acabam por agudizar e se tornarem outras emergências, virando uma bola de neve, um ciclo vicioso”, alerta.
A necessidade de transfusão, inclusive, não se restringe aos traumas. O sangue também é utilizado no atendimento a queimaduras, hemorragias não traumáticas, distúrbios hematológicos, hemorragias digestivas e doenças crônicas que apresentam agravamento. “O sangue é usado em tratamento para repor elementos sanguíneos que são perdidos, sejam por motivos traumáticos agudos ou doenças crônicas que vão evoluindo de forma agudizada”, complementa o especialista.
Mudança de critérios busca ampliar participação da população
Para possibilitar que mais pessoas possam doar sangue, o Ministério da Saúde adotou medidas como a redução da idade mínima para doação para 16 anos, mediante autorização dos responsáveis, e a ampliação da idade máxima para 69 anos, desde que os critérios de saúde sejam atendidos. Também é necessário pesar no mínimo 50 kg, ter dormido por ao menos seis horas nas últimas 24 horas e estar alimentado.
Atendidos esses critérios, porém, há outras questões que podem causar inaptidão, como uso de alguns medicamentos e vacinas, presença de anemia, hipertensão ou hipotensão arterial no momento da doação, febre e gravidez. Além disso, a triagem clínica também pode identificar fatores que podem impedir a doação, temporária ou definitivamente, como tratamentos dentários, piercings e tatuagens realizados há pouco tempo, uso de drogas e viagens a regiões endêmicas, entre outros.
“Pessoas que já realizaram cirurgia bariátrica são consideradas inaptas para doação, pois podem apresentar deficiência de vitaminas e maior risco de anemia. Outro exemplo são pessoas que viveram em determinadas regiões da Europa nos anos 1980, devido ao risco associado à doença da vaca louca. Também existem as inaptidões temporárias, em que a pessoa fica impedida de doar por um período e pode voltar a fazê-lo posteriormente, como após uma endoscopia. Já as inaptidões definitivas incluem algumas doenças cardíacas, como o infarto”, explica a médica hematologista e professora da Afya Ipatinga, Marita de Novais Costa Salles.
A especialista ainda explica que muitas vezes a cultura da doação voluntária permanente é dificultada por existirem muitos mitos relacionados à doação de sangue. “Essas percepções não têm fundamento. Os critérios adotados buscam assegurar que a doação não traga prejuízos à saúde do doador. Por isso, não apenas pessoas com anemia são consideradas inaptas para doar, mas também aquelas que apresentam níveis de hemoglobina próximos ao limite mínimo permitido”, afirma a hematologista.
De acordo com o professor da Faminas Daniel Fernandes, as baixas temperaturas que contribuem para o aumento dos casos de doenças respiratórias também reduzem o número de doações, já que o candidato precisa estar em boas condições de saúde. “Uma gripe com sintomas mais fortes, por exemplo, pode impedir a doação por 15 dias. E se ele tem uma gripe com sintomas leves, serão sete dias de espera. Então, indiretamente, como ocorre o aumento dessas doenças nessa época do ano, a gente tem sim um impacto no número de doações”, explica o professor.
O efeito desse ciclo é concreto nos hemocentros mineiros. A Fundação Hemominas, responsável pela coleta e distribuição de sangue no estado, registra situação crítica nos tipos O+, O-, A+ e A-; o tipo B- está em estado de alerta. Os demais tipos estão em níveis melhores, mas também podem ser doados. O agendamento pode ser feito pelo aplicativo MGApp ou pelo site do governo estadual.