Governo do Rio leva treinamento inédito ao interior para acelerar doação de órgãos – Diário do Rio de Janeiro
Fonte: diariodorio.com | Data: 30/06/2026 13:37:29
Pela primeira vez, um treinamento oficial da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) voltado à determinação de morte encefálica foi realizado no interior do estado. A capacitação aconteceu em Itaperuna, no campus da Universidade Iguaçu (Unig), em parceria com o RJ Transplantes e a Organização de Procura de Órgãos (OPO), reunindo 23 médicos que atuam em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e emergências de hospitais de Campos dos Goytacazes, Itaperuna e da capital. A iniciativa busca qualificar profissionais para tornar mais ágil, seguro e humanizado o processo que antecede a doação de órgãos.
Ao descentralizar o treinamento, o Governo do Estado evita que médicos do Norte e do Noroeste Fluminense precisem se deslocar até a capital para obter a habilitação exigida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). A medida também amplia a capacidade das equipes que atuam na linha de frente do atendimento a pacientes graves, reduzindo gargalos no diagnóstico de morte encefálica.
Segundo o intensivista, capitão do Corpo de Bombeiros e professor de Medicina da Unig, Agostinho Boechat Neto, o treinamento tem impacto direto na agilidade do processo.
“O médico que atende o paciente grave é quem primeiro identifica que pode haver morte encefálica. Quando esse profissional está bem treinado, ele evita atrasos, falhas e dúvidas no processo, o que faz diferença não apenas para aquele paciente, mas para outras pessoas que aguardam por um órgão”, afirmou.
Em 2024, a rede do Sistema Único de Saúde (SUS) no Estado do Rio de Janeiro realizou mais de 1,6 mil transplantes. Apesar do número, a recusa familiar ainda representa um dos principais obstáculos para ampliar as doações, impedindo cerca de um terço das potenciais captações de órgãos.
Para aproximar os profissionais da realidade vivida nas UTIs, a capacitação utilizou o Laboratório de Habilidades e Simulações Realísticas da Unig. Durante oito horas de treinamento, os médicos participaram de atividades teóricas e práticas, seguindo as diretrizes do Conselho Federal de Medicina. Entre os procedimentos realizados estão testes de apneia, exames neurológicos e interpretação de laudos necessários para a confirmação da morte encefálica.
Além do aperfeiçoamento técnico, o curso também prepara os profissionais para um dos momentos mais delicados do processo: a comunicação com os familiares. Nas simulações, os participantes treinam como informar o diagnóstico e conduzir a conversa sobre a possibilidade de doação de órgãos.
A etapa é considerada essencial porque, mesmo após a morte encefálica, o paciente permanece com os batimentos cardíacos e a circulação mantidos por aparelhos, além de apresentar o corpo aquecido. Sem uma comunicação clara, essa condição pode gerar dúvidas e dificultar a compreensão da família.
“O maior desafio é explicar uma situação muito difícil de compreender. A família precisa entender o que está acontecendo, mas também precisa ser acolhida. A boa comunicação evita confusão e permite que os familiares se sintam respeitados durante todo o processo”, ressaltou Boechat.
Ao final da capacitação, os 23 médicos passam por avaliações teóricas e práticas de proficiência. A aprovação é obrigatória para que o profissional seja oficialmente habilitado pelo Conselho Federal de Medicina a conduzir e concluir protocolos de morte encefálica nas unidades de saúde onde atua.