Fábricas se transformam em atrações em meio ao boom do turismo industrial na China
Fonte: brasil247.com | Data: 05/07/2026 09:58:49
247 – Com a aproximação das férias de verão, Liu Li, uma mãe de Pequim, inscreveu seu filho em uma viagem de estudos a uma base de fabricação de trens de alta velocidade em Changchun, na Província de Jilin, no nordeste da China. A reportagem é do Diário do Povo.
Em vez de visitar parques temáticos ou montanhas turísticas, a família optou por conhecer uma fábrica. “Quero que meu filho veja de perto a força da manufatura avançada da China”, disse Liu. “Viajar também pode ser uma forma de aprender.”
Em todo o país, um número crescente de turistas compartilha essa preferência. Fábricas, estaleiros, museus industriais e parques industriais estão atraindo um fluxo cada vez maior de visitantes. A China, maior potência manufatureira do mundo, está vendo suas linhas de produção se transformarem em destinos populares para passeios turísticos, viagens educacionais e exploração cultural.
Essa tendência, conhecida como turismo industrial, recebeu recentemente um novo impulso por parte dos formuladores de políticas públicas.
Recentemente, os escritórios-gerais de sete ministérios e departamentos centrais, incluindo o Ministério da Cultura e Turismo e o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação, emitiram conjuntamente uma circular para promover a cultura industrial, preservar o patrimônio industrial e desenvolver o turismo industrial. O documento estabelece oito medidas prioritárias, que vão desde o fortalecimento da proteção do patrimônio industrial até a ampliação da oferta turística.
Até o momento, a China já designou 142 bases nacionais de demonstração de turismo industrial. Instituições de pesquisa do setor preveem que esse segmento manterá um crescimento médio anual de cerca de 18% entre 2024 e 2029, com expectativa de que o mercado ultrapasse 300 bilhões de yuans (cerca de US$ 44 bilhões). O esboço do 15º Plano Quinquenal da China (2026-2030) prevê o desenvolvimento coordenado do turismo industrial juntamente com o turismo vermelho, o turismo rural e o turismo de bem-estar.
A crescente popularidade desse tipo de viagem reflete uma mudança nas demandas dos consumidores chineses. Cada vez mais turistas buscam experiências que combinem lazer com valor educativo.
De acordo com dados divulgados em 30 de junho pela plataforma de viagens online Qunar, as buscas por visitas a fábricas, montadoras de automóveis, estaleiros e viagens de exploração com temática científica aumentaram 230% no último mês em relação ao mês anterior. Já a demanda por produtos de turismo educacional voltados à indústria cresceu mais de 50% na comparação com o mesmo período do ano passado.
Um dos destinos mais populares é a fábrica de automóveis da Xiaomi, em Pequim. Aberto ao público em março de 2024, o complexo de 718 mil metros quadrados já recebeu mais de 250 mil visitantes.
Lei Jun, fundador do Grupo Xiaomi e deputado da Assembleia Popular Nacional, defendeu novos esforços para melhorar o ambiente de desenvolvimento do turismo industrial, incluindo a criação de novos cenários turísticos e o aprimoramento da experiência dos visitantes. “Essas atividades não apenas permitem que o público vivencie a civilização industrial por meio de experiências imersivas, como também desempenham um papel importante na popularização da ciência, na preservação da cultura, na geração de empregos e na revitalização urbana”, afirmou.
Zhu Wanfeng, membro do conselho da Sociedade de Turismo de Pequim, afirmou que o turismo industrial aproxima fabricantes e consumidores, ao mesmo tempo em que atende ao crescente interesse da população por marcas nacionais, tecnologias industriais e excelência artesanal.
O turismo industrial não é um conceito novo. Em 1994, as linhas de produção do Grupo China FAW, em Changchun, foram abertas aos turistas. Posteriormente, espaços industriais bem preservados, como a Zona de Arte 798, em Pequim, o Estaleiro Jiangnan, em Xangai, e a Cervejaria Tsingtao, em Qingdao, na Província de Shandong, no leste da China, transformaram-se em marcos turísticos.
O que mudou agora é a escala e a ambição.
Sun Xing, vice-diretor do Centro de Desenvolvimento da Cultura Industrial, vinculado ao Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação, afirmou que a mais recente iniciativa de políticas públicas sinaliza uma mudança da simples defesa e incentivo do setor para uma promoção sistemática. Segundo ele, o turismo industrial deixou de ser apenas uma modalidade turística para se tornar uma iniciativa integrada capaz de impulsionar a cultura industrial, a renovação urbana e a modernização do consumo.
Sun afirmou que o novo arcabouço de políticas busca romper barreiras entre diferentes órgãos governamentais e incentivar as localidades a desenvolver modelos de turismo adaptados aos seus recursos industriais específicos.
O setor é sustentado pela força da indústria manufatureira chinesa. O valor agregado da produção manufatureira do país ocupa o primeiro lugar no mundo há 16 anos consecutivos, enquanto a maioria de seus principais produtos industriais lidera a produção global em volume.
Para alguns visitantes, as fábricas modernas oferecem uma oportunidade de conhecer de perto as tecnologias que estão moldando o futuro da China. Para outros, antigos complexos industriais proporcionam uma conexão com o passado industrial do país.
Em Huangshi, cidade da Província de Hubei, no centro da China, a antiga Fábrica de Cimento Huaxin continua sendo um poderoso símbolo da identidade local. Fundada em 1907, foi uma das primeiras produtoras de cimento da China e forneceu materiais para importantes obras nacionais, incluindo o Grande Salão do Povo, a Ponte sobre o Rio Yangtzé, em Wuhan, e a Usina Hidrelétrica das Três Gargantas.
Os moradores locais ainda veem a fábrica como um símbolo do legado industrial e da memória coletiva da cidade.
Após o encerramento das atividades na unidade original, em 2007, a antiga fábrica foi transformada no Parque Cultural Huaxin 1907, enquanto a empresa Huaxin Cement permaneceu em operação em um novo endereço. No parque, antigos corredores de esteiras transportadoras foram convertidos em passarelas de visitação imersivas; um antigo depósito de escória transformou-se em um espaço multifuncional para exposições; e shows e eventos culturais passaram a ocupar áreas antes destinadas à produção industrial.
Desde 2017, o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação reconheceu 264 locais como patrimônios industriais nacionais. O novo documento de políticas enfatiza que a preservação deve ser a prioridade, ao mesmo tempo em que incentiva a reutilização adaptativa desses espaços por meio de projetos criativos e de novos modelos de negócios. “Dar vida ao patrimônio é a chave”, afirmou Sun. “Uma vez ativados, esses recursos se tornarão a narrativa cultural mais marcante da renovação urbana.”
Com o início das viagens de verão, o turismo industrial parece preparado para continuar crescendo. Fábricas de foguetes, bases de fabricação de robôs com inteligência artificial e estaleiros tornaram-se destinos populares para viagens de estudos.
O potencial comercial do setor já é evidente em Chengdu, capital da Província de Sichuan, no sudoeste da China, onde o complexo industrial revitalizado “Eastern Suburb Memory” transformou antigos prédios fabris em um polo cultural com palcos para música, instalações de iluminação digital e lojas voltadas às tendências de consumo. O local recebeu mais de 18 milhões de visitantes em 2025.
Segundo Sun, a próxima etapa do desenvolvimento do turismo industrial deve ir além da simples contemplação, priorizando experiências participativas e imersivas e substituindo o modelo de receitas baseado apenas na venda de ingressos por um modelo de consumo integrado, combinando o turismo industrial com viagens de estudos, atividades de integração corporativa e a economia noturna para ampliar toda a cadeia produtiva do setor.
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