Os presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva sorridentes durante encontro na Casa Branca Divulgação

Relatório recente da consultoria Arko Advice aponta que as decisões da administração americana são o principal fator de risco geopolítico para o Brasil neste ciclo eleitoral. A avaliação classifica o risco como moderado com tendência de alta e destaca efeitos domésticos e eleitorais vinculados a medidas externas e a movimentos econômicos globais.

Entre os pontos de atenção estão classificações e sanções aplicadas por órgãos americanos a organizações criminosas que podem alterar fluxos financeiros e relações diplomáticas entre Brasília e Washington. A possibilidade de medidas punitivas contra pessoas físicas e jurídicas no exterior intensificaria incertezas jurídicas e logísticas que, segundo analistas, reverberariam em estratégias de campanha e em decisões de governo.

O relatório também chama atenção para choques no mercado de petróleo decorrentes de operações militares e de tensão no Estreito de Ormuz, com impacto direto sobre preços de combustíveis e inflação. Mesmo com acordos temporários de cessar fogo, a retomada do tráfego marítimo tem sido gradual e vulnerável a reações que podem comprometer o abastecimento e pressionar índices de preços ao consumidor.

Outro ponto de risco identificado é o debate sobre tarifas comerciais anunciadas por representantes dos Estados Unidos, com proposta de alíquotas que atingiriam setores estratégicos da economia brasileira. A aplicação de tarifas elevadas teria efeitos sobre cadeias de produção e sobre a capacidade competitiva de empresas locais, gerando ajustes em programas econômicos e em mensagens das campanhas eleitorais.

O documento aponta que a inserção da geopolítica no debate eleitoral é atípica e pode desconstruir narrativas tradicionais, forçando candidatos a realinhar propostas e posicionamentos públicos de segurança e comércio. Analistas consultados pela Arko Advice afirmam que a dinâmica externa tende a redistribuir riscos entre as campanhas, sem garantir vencedores claros, mas elevando o custo político de decisões sobre cooperação internacional.

O Itamaraty manifestou preocupação diante da possibilidade, em sua avaliação, de usos de força que violariam a soberania territorial, enquanto o governo americano defende a legalidade das medidas de segurança que justificam a intervenção. A tensão diplomática produziu troca de declarações oficiais e reforçou a percepção de risco entre investidores, com efeitos potenciais em decisões de investimento e em operações de comércio exterior.

O relatório atribui nota de risco 48 em escala de zero a 100 e classifica o viés como de alta probabilidade de deterioração ao longo dos próximos meses, exigindo monitoramento contínuo. A avaliação serve como alerta para formuladores de políticas públicas e para equipes de campanha que deverão incorporar cenários externos em seus modelos de risco e em planejamento estratégico.

Entre as recomendações, os autores sugerem intensificação da coordenação institucional e definição clara de prioridades de ação para reduzir vulnerabilidades expostas por medidas externas e por choques de oferta. O documento indica também necessidade de comunicação transparente com a sociedade sobre medidas adotadas, visando reduzir incertezas e permitir respostas coordenadas entre esferas federal e subnacionais.

Os autores destacam que choques externos tendem a ter efeitos assimétricos, afetando de maneira diferenciada setores como agronegócio, indústria e serviços, conforme grau de exposição ao comércio internacional. Para mitigar riscos, sugerem medidas de curto prazo para garantir cadeias de suprimento e de médio prazo para reforço de resiliência macroeconômica e estabilidade de políticas públicas.

O relatório conclui que o contexto internacional é um componente central do risco político brasileiro e que a gestão ativa de relações exteriores poderá influir diretamente em resultados eleitorais e em governabilidade. Os responsáveis pela consultoria recomendam monitoramento permanente dos desdobramentos em Washington e no Golfo Pérsico, e a construção de respostas domésticas que reduzam exposição econômica e social a choques externos.