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Tragédia Silenciosa: Mortes de crianças e suspeitas de negligência…

Fonte: blogdoacelio.com.br | Data: 14/07/2026 06:52:32

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SÃO LUÍS — Por trás do luto de dezenas de famílias na capital maranhense, esconde-se uma crise grave e silenciosa.

O Hospital da Criança Odorico Amaral de Matos, considerado uma unidade de referência para o atendimento infantil em São Luís, tornou-se alvo de denúncias severas de negligência médica, imperícia e desmonte estrutural após uma série de mortes de bebês e crianças internadas em suas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), tudo mostrado por uma reportagem de Refina Sousa, da TV Mirante,  afiliada da TV Globo no Maranhão.

O caso, que já está sob investigação da Polícia Civil, do Ministério Público Estadual e agora também na esfera federal, ganhou repercussão após a trágica perda de irmãos gêmeos de apenas quatro meses e de relatos de profissionais de saúde que, sob anonimato, confirmam o caos na gestão hospitalar.

A Dor em Dobro: A Perda dos Gêmeos Bento e Bernardo

A história de Ismael, pai dos gêmeos Bento e Bernardo, de quatro meses, ilustra a rapidez com que o atendimento na unidade se transforma em tragédia. No sábado, dia 27, Bento foi internado com suspeita de bronquiolite.

​”Quando eu entro, meu coração esfriou porque eu vi várias crianças entubadas”, lembra o pai. Pouco depois, a médica de plantão indicou a intubação do bebê.

​Apenas oito horas mais tarde, Bernardo, o irmão gêmeo, também deu entrada no hospital com sintomas gripais leves. A partir dali, a situação deteriorou-se rapidamente.

Na terça-feira, Bento sofreu duas paradas cardiorrespiratórias e foi transferido tardiamente para a UTI, onde faleceu. O atestado de óbito apontou pneumonia, pneumotórax, insuficiência renal aguda e choque séptico (o estágio mais grave da infecção generalizada).

Na quarta-feira, enquanto a família sepultava Bento na cidade de Rosário, o estado de Bernardo se agravou no hospital. Ele foi intubado, mas sequer conseguiu vaga para ser transferido à UTI.

Na quinta-feira, Bernardo faleceu por volta das 9h da manhã.

“Uma sensação horrível. Em saber que eu levei meus filhos vivos. Eles me olhavam pensando que lá eles iam salvar a vida do meu filho. Mas não. Perdi meu filho… Enterrei o segundo filho. Isso é inadmissível”, desabafa Ismael.

“Eu entrei com meus filhos no braço e saí com meus braços vazios. E é uma dor que eu não desejo para nenhuma mãe sentir, nenhuma mãe”

​Inconformado, o pai registrou um Boletim de Ocorrência. Segundo ele, ao analisar o prontuário dos filhos, notou algo alarmante para um hospital de referência infantil: a ausência de médicos pediatras no atendimento.

​A Polícia Civil já instaurou um inquérito policial e iniciou a oitiva das testemunhas e familiares. O prazo inicial para a conclusão das investigações é de 30 dias para determinar se houve negligência e indiciar os responsáveis.

​”Eu não posso fazer nada”: A Despedida Precoce de Otto

O drama de Ismael não é um caso isolado. Há seis meses, o casal Leiciane e André perdeu o pequeno Otto. O menino possuía comorbidades, mas, segundo os pais, vivia de forma saudável e cercado de cuidados preventivos. Em janeiro, Otto foi internado com um quadro de infecção intestinal que rapidamente se agravou.

Os pais relatam que exames básicos foram negligenciados pela equipe médica, mesmo após a transferência para a UTI. Fisioterapeutas da unidade chegaram a solicitar radiografias de tórax devido ao estado do menino, mas os médicos de plantão ignoraram os pedidos.

André relembra o diálogo desesperador que teve com a médica plantonista ao questionar o inchaço e a temperatura excessivamente baixa do filho:

​”Doutora, o que podemos fazer? Porque o menino está muito debilitado… Ele está muito inchado”, questionou o pai.

“Pai, eu não posso fazer nada. O que eu posso fazer eu já fiz”, teria respondido a médica antes de dar as costas e se retirar.

Otto faleceu após 17 dias de internação.

Assim como no caso do gêmeo Bento, a declaração de óbito apontou choque séptico. Os pais afirmam que nunca foram informados pela equipe de que o menino estava com pneumonia ou sepse.

“Para mim, faltou assistência total. Eu tenho a plena certeza, a convicção que meu filho morreu por causa de negligência. Porque ele foi negligenciado”, lamenta o pai.

​Omissão de dados e Mortes Evitáveis no Sistema do SUS

A gravidade da situação ganha contornos ainda mais alarmantes com a descoberta de um apagão de dados epidemiológicos. Das mortes ocorridas no Hospital da Criança, apenas 31 foram formalmente informadas ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Outros 83 óbitos foram totalmente omitidos das plataformas nacionais de saúde.

Especialistas alertam que a subnotificação gera catástrofes na gestão pública, pois o desaparecimento desses dados impede o planejamento de medidas de saúde pública essenciais para evitar novas mortes, compreender a raiz do problema e traçar planos de ação eficientes.

Para além da falta de dados, o Ministério da Saúde identificou que, das 31 notificações que constam no sistema do SUS referentes ao ano de 2025, mais da metade das mortes poderia ter sido evitada. Os dados apontam que a grande maioria das crianças está falecendo por falta de cuidados adequados dentro das UTIs, vítimas de infecções e doenças tratáveis.

A comunidade médica reforça que a UTI hoje deve ser vista como um ambiente de recuperação e reabilitação integral, e não como um lugar de morte programada, tornando injustificável e inexplicável a alta taxa de mortalidade na unidade.

Denúncias de Desmonte e Investigação dos Órgãos de Controle

Nas redes sociais, o clamor de mães que relatam maus-tratos, demora no atendimento e imperícia no Hospital da Criança tem crescido nos últimos meses. Relatos de profissionais que atuam na linha de frente — e que preferem esconder a identidade por medo de demissões ou retaliações — confirmam que a estrutura do hospital está colapsando.

Reclamações formais já foram encaminhadas à Ouvidoria Geral do SUS, detalhando uma série de irregularidades graves na instituição:

Houve o desmonte das UTIs infantis;
​Foi apontada a incapacidade técnica de profissionais escalados para plantões críticos;

Há relatos de casos recorrentes de negligência e imperícia médica;

Registrou-se um aumento expressivo e atípico no número de óbitos internos.

O Que Dizem os Envolvidos e as Autoridades
​Diante da gravidade das denúncias, os órgãos de gestão, fiscalização e controle se manifestaram oficialmente sobre a situação do Hospital da Criança:

Prefeitura de São Luís
​Por meio de nota, a Prefeitura de São Luís informou que não houve aumento de óbitos no Hospital da Criança.

Segundo a gestão municipal, o que ocorreu foi uma variação de 4,5% entre os anos de 2024 e 2025, com o total de mortes passando de 112 para 117.

A administração assegurou que o quadro de profissionais que atua nas UTIs cumpre integralmente todas as exigências da Agência

Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Além disso, destacou que não há registros oficiais de desabastecimento generalizado de insumos e que o fluxo de materiais hospitalares segue um planejamento contínuo.

Sobre os aspectos administrativos, a Prefeitura declarou que a licitação e o contrato com a empresa Ibramed cumprem rigorosamente a legislação vigente, ressaltando que o Tribunal de Contas do Estado (TCE) negou os pedidos de suspensão e determinou o arquivamento das representações contra o município.

Ministério da Saúde
​O Ministério da Saúde informou que já está apurando formalmente as denúncias enviadas à Ouvidoria Geral do SUS sobre as mortes registradas no Hospital da Criança em São Luís.

Ministério Público Federal (MPF)
​O Ministério Público Federal comunicou que recebeu a denúncia sobre o caso. A representação será analisada por um procurador da República, que ficará responsável por avaliar a adoção das medidas cabíveis para a apuração minuciosa dos fatos na esfera federal.
Conselho Regional de Medicina (CRM)

O Conselho Regional de Medicina informou que está acompanhando de perto a situação da UTI pediátrica do Hospital da Criança com o objetivo de garantir a segurança da assistência prestada e as condições adequadas para o trabalho médico.

O Conselho ressaltou que atua em estrita conformidade com a legislação e que adotará as medidas cabíveis caso sejam constatadas irregularidades na unidade.