O médico Gabriel Almeida, conhecido como “doutor Mounjaro” e com 755 mil seguidores no Instagram, ingressou com ação judicial contra a EQR Capital, gestora de investimentos, alegando prejuízo de aproximadamente R$ 10,75 milhões. O caso, registrado no Tribunal de Justiça de São Paulo no último dia 11, aponta que os aportes foram feitos entre 2024 e 2025, atraídos por contratos de mútuo que prometiam retornos mensais de 3% a 5%. A ação requer a devolução integral dos valores, acrescidos de juros de 1% ao mês, multa de 2% e indenização por danos morais de R$ 20 mil.

Segundo a petição inicial, os rendimentos acordados foram pagos apenas nos primeiros meses. Posteriormente, os repasses cessaram, as garantias contratuais nunca foram materializadas e a EQR interrompeu completamente os pagamentos. Com os recursos retidos, outros médicos que haviam investido por intermédio de Almeida passaram a cobrá-lo diretamente, levando ao rompimento definitivo com a empresa. O caso não é isolado: uma empresária de Mato Grosso também move ação contra a EQR, com prejuízo declarado de R$ 2,2 milhões.

Captação bilionária e estrutura de vendas

Fontes indicam que a EQR Capital captou mais de R$ 300 milhões ao longo de sua operação, envolvendo mais de 370 investidores em 19 estados. O Jornal Bastidor teve acesso a mais de 650 contratos de investimento, distribuídos em ao menos 125 cidades. O aporte mínimo era de R$ 500, e o maior contrato individual somava R$ 2,1 milhões. Somente os contratos analisados pela reportagem totalizam R$ 51,9 milhões. O pico de captação ocorreu em junho de 2025, quando a empresa fechou 50 contratos e levantou R$ 4,9 milhões em um único mês.

A taxa média nos contratos examinados era de 2,84% ao mês, equivalente a cerca de 40% ao ano. Em alguns casos, a empresa oferecia 5% ao mês, quase 80% ao ano. Para efeito de comparação, a taxa Selic estava em 13,5% ao ano no início de 2025 e em 15% ao ano no fim do período. A operação contou com ao menos 54 pessoas atuando como consultores ou gerentes, divididas em até 11 equipes. Na configuração mais recente, eram quatro equipes com 18 pessoas ativas.

Remuneração de intermediários e custo total

Parte da captação era realizada por finders, intermediários que traziam novos investidores. Havia contratos com finders em seis estados, com remuneração de 4% sobre o valor captado e 4% ao mês sobre o saldo investido. Somando a taxa paga ao investidor e a comissão ao captador, o custo total da EQR chegava a quase 7% ao mês, mais de 120% ao ano. Esse modelo de remuneração elevada é frequentemente associado a estruturas de captação insustentáveis, típicas de esquemas de pirâmide financeira.

Em julho de 2025, a EQR promoveu um evento chamado “Gestão e Empreendedorismo na Medicina” no Palácio Tangará, em São Paulo, que reuniu 240 médicos. Na ocasião, a palestrante Carolina Cruz discursou sobre investimentos e renda passiva, prometendo ganhos de até 80% ao ano. O caso ganha contornos adicionais ao ser cruzado com outros episódios: em novembro passado, a Polícia Federal deflagrou operação contra uma rede clandestina de produção de canetas emagrecedoras. Nas redes sociais, Carlos Henrique Nunes dos Santos, diretor da EQR, publicou fotos e vídeos ao lado de Almeida, incluindo uma ida de helicóptero até a ilha privativa do médico, na Baía de Todos-os-Santos.

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