Relatos que salvam: como histórias de quem esteve em crise podem ajudar na prevenção do suicídio?
Fonte: estadao.com.br | Data: 06/08/2026 06:07:07
Alerta: a reportagem abaixo trata de temas como suicídio e transtornos mentais. Se você está passando por problemas, veja ao final do texto onde buscar ajuda.
“O peito dói, mas não mais me domina. Entre quedas e retornos, escolhi continuar”. O trecho faz parte de um dos relatos do quarto volume do livro Histórias de sobreviventes do suicídio, lançado em julho pelo Instituto Vita Alere, em São Paulo. A obra, que traz narrativas escritas por profissionais de saúde, também inclui capítulos assinados por quem esteve em crise e encontrou razões para se manter vivo – as chamadas “histórias Papageno”.
A origem do termo remonta ao século 18, quando o compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) estreou, em 1791, A Flauta Mágica. Na ópera, Papageno sofre por amor e, por esse motivo, cogita dar fim ao seu sofrimento. No entanto, é convencido a não tirar a própria vida. Em vez disso, se apaixona por Papagena e dá um novo rumo a sua vida.
Em 2010, o pesquisador austríaco Thomas Niederkrotenthaler criou, então, o conceito de Efeito Papageno. Ele descreve o impacto positivo e protetivo que narrativas sobre o suicídio podem ter quando contadas com cuidado e responsabilidade.

Quando contadas com cuidado e responsabilidade, narrativas envolvendo o suicídio podem ter efeito protetor
Foto: gballgiggs/Adobe Stock
“Toda história que vai trazer uma superação, algo que a pessoa aprendeu ou um caminho de busca de ajuda vai se encaixar numa história Papageno”, explica Karen Scavacini, doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), fundadora do Instituto Vita Alere e uma das organizadoras do livro. Ela afirma que tais relatos diminuem o estigma e aumentam a consciência pública em torno do tema, além de ajudar famílias enlutadas – que também são sobreviventes do suicídio.
Para além de experiências individuais, essas narrativas se inserem em um cenário mais amplo, que reforça a necessidade de se pensar medidas de prevenção e posvenção.
Segundo a cartilha Suicídio: Informando para Prevenir, fruto da parceria entre o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), 17 em cada 100 brasileiros têm ideação suicida ao longo da vida. Desses, cinco passam ao planejamento do ato, três realizam a tentativa e um chega às vias de fato, necessitando de atendimento médico de urgência. Em escala global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima 727 mil mortes anuais por suicídio, embora especialistas alertem que o número seja ainda maior devido à subnotificação.
“A todo momento eu vejo pacientes que não estão bem, que relatam que desejam não estar aqui”, diz a psicóloga Luana Barbosa, que entrou na área da saúde mental em 2010, através da enfermagem. “Sempre trabalhei em hospital psiquiátrico. A minha vivência sempre foi com pacientes tentantes”, conta. No livro, ela fala sobre o processo de perceber os limites da própria atuação profissional nessa dinâmica e aborda a importância do acolhimento. “Quando a pessoa sabe que ela é importante para alguém, acho que isso faz toda a diferença.”
Mas o que torna um relato seguro?
Para que uma história sobre suicídio tenha potencial protetivo, não basta que ela termine com uma mensagem de esperança. Segundo Lorena Schettino Lucas, doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), um dos principais cuidados é direcionar a narrativa para as estratégias que contribuíram para a melhora, seja mostrando como foi a busca por apoio ou quais serviços ou profissionais foram acionados, por exemplo.
“Tudo isso é muito útil e potencialmente benéfico porque a gente vai focar no caminho que pode ser feito por outras pessoas que estão em sofrimento”, aponta Lorena. Segundo ela, a ideia é oferecer possibilidades concretas de enfrentamento, sem sugerir que existe uma fórmula única aplicável a todos.
Agora, em relação ao que deve ser evitado, Lorena enfatiza o cuidado para não expor detalhes sobre métodos ou narrativas que atribuem o comportamento suicida a uma causa isolada. Ela ressalta que o sofrimento que leva à ideação é multifatorial e, por isso, reduzi-lo a um único acontecimento pode produzir uma compreensão equivocada.
“A gente pode se basear principalmente nas normativas da OMS”, resume, citando manuais da organização voltados a orientar a comunicação cuidadosa sobre o fenômeno.
Joice Cristina dos Santos, uma das autoras, conta que revisitar o período em que enfrentou depressão e ideação suicida foi um processo intenso. “A crônica que eu escrevi se passa num quarto, então é voltar para lá. Um quarto que nem existe mais, mas existe na minha cabeça. Foi um processo de resgate, de memória. Eu terminei a crônica aos prantos porque foi muito intenso para mim.” Veja a seguir um trecho do texto.
Querida Sanidade: Quando o amanhã chega?
Crônica de Joice Cristina dos Santos
“(…) Vou ao meu quarto, apago a luz e sinto uma sensação estranha – mas isso já não é novidade. No corredor, escuto passos distantes que se aproximam lentamente. Olho pela porta e vejo minha mãe. A nossa relação sempre foi um tanto fria, como se não houvesse vulnerabilidade entre nós. (…) Seguro as lágrimas que querem cair. Seguro o grito que deseja tomar todo o ambiente. Me seguro ao mesmo tempo que desejo me largar. (…) Até que ela decide falar. Ela não me cobra perfeição, não me cobra reação e apenas pergunta como estou me sentindo – não em modo de defesa, mas querendo me acolher. (…) Coloco para fora tudo o que me contém. Os meus medos. As vozes que habitam em mim. Quando achei que era o fim, encontrei o começo. Mal sabia eu que, a partir dali, o desejo de viver tomaria todo o meu ser. (…)”
Ela lembra que, quando viveu esse sofrimento, quase não encontrava relatos semelhantes. “Hoje, existe a possibilidade de outras pessoas entenderem que há histórias parecidas e que a vida ainda vale a pena”, diz.
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Emily dos Santos, que também contribuiu com a coletânea e escreveu o trecho que abre esta reportagem, reviveu emoções difíceis durante o processo de escrita. Mas saber que o que viveu pode ajudar outras pessoas ajudou a trazer esperança.
Levantei dos escombros
Poema de Emily dos Santos
“(…) Meus ombros pedem descanso / Carrego as noites em claro nas costas / (…) Meu grito é mudo, mas me deixa surdo por dentro. / Cansado, porém ainda estou aqui. / Encontrei um sopro quieto de coragem. / É pouco, eu sei, mas é sinal de vida. / Levanto devagar, como quem aprende a andar / E andar nesse mundo./ O peito dói, mas não mais me domina. / (…) E hoje renasço, mesmo que aos trancos, / Mas digo: é sinal de vida, portanto. / Entre quedas e retornos, escolhi continuar.”
Já o psicólogo Fabio Bocchi narrou de forma ficcional o ponto de vista de quem perde alguém para a morte por suicídio. “Foi um processo no qual eu pude visitar uma situação que aconteceu e me colocar na pele de quem fica para poder contar essa história de que sempre há saída. Sempre há saída”, enfatiza.
Todo, mas não a cada quinze
Crônica de Fabio Bocchi
“(…) Demorou, mas aprendi a lidar com a dor por quem partiu e a de quem fica. E hoje, em minha décima quinta reunião, consigo falar sobre isso sem uma crise de ansiedade, pânico ou choro”.
“Ninguém está sozinho. Sempre é possível fazer alguma coisa. Não digo isso de forma leviana, mas porque o livro mostra que existe um caminho depois da crise. Por mais difícil que ele seja, existe um caminho”, destaca Karen.
Quando e onde buscar ajuda
As especialistas ouvidas pelo Pulsa explicam que não é necessário esperar uma crise intensa para buscar apoio.
Mudanças importantes de comportamento, perda de interesse por atividades antes prazerosas, isolamento social, alterações no sono ou na alimentação, desesperança persistente e pensamentos recorrentes sobre morte já são sinais que merecem atenção.
“Quanto antes a pessoa buscar ajuda, maiores são as possibilidades de intervenção”, ressalta Lorena.
Karen reforça que essa orientação vale mesmo para quem ainda não apresenta ideação suicida. “Sempre que a pessoa sentir vontade de pedir ajuda, é a hora. Então, sentiu que não está muito bem, pode pedir ajuda”, orienta.
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar apoio:
Centro de Valorização da Vida (CVV)
Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.
Canal Pode Falar
Iniciativa criada pelo Unicef para oferecer escuta para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.
SUS
Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas ao atendimento de pacientes com transtornos mentais. Na cidade de São Paulo, é possível buscar os endereços das unidades nesta página.
Mapa da Saúde Mental
O site traz mapas com unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.