Saúde sufocada: a saga do idoso por um atendimento digno
Fonte: folhape.com.br | Data: 06/08/2026 06:12:31
Envelhecer no Brasil transformou-se em uma corrida contra o tempo e contra o próprio bolso, onde a conquista da longevidade é frequentemente punida pela lógica implacável do mercado financeiro. A opacidade no cálculo de sinistralidade e a negativa abusiva de procedimentos colocam a saúde e a dignidade dos idosos em risco extremo.
É uma contradição perversa: o cidadão é forçado a abandonar o plano justamente quando mais precisa de saúde, sobrecarregando o SUS. O país negligencia quem construiu sua história, transformando a promessa de uma velhice digna em abandono.
O número de beneficiários de planos de saúde com 50 anos ou mais já ultrapassa 13,9 milhões, com crescimento mais intenso nas faixas etárias mais elevadas. Esse cenário aumenta os custos assistenciais das operadoras, já que idosos demandam tratamentos mais complexos e frequentes.
Dados recentes mostram que quase 60% dos brasileiros já deixaram de utilizar planos de saúde devido aos altos custos, levando milhares de idosos a cancelar a assistência privada e retornar a rede pública de saúde.
O Brasil vive um contraste perverso. O custo para manter os 594 parlamentares representa um peso desproporcional para a União: essa despesa equivale a 12% de todo o investimento federal destinado ao SUS, um sistema que hoje convive com insuficiência orçamentária. Esse contraste se intensifica ao analisar o outro lado da balança.
Responsável pela assistência a mais de 190 milhões de brasileiros, o sistema público é a única opção de atendimento para 152 milhões de pessoas. Em 2025, o custo anual de um único parlamentar para o Governo Federal equivale ao atendimento de aproximadamente 31 mil usuários desse sistema. O cenário confirma as médias estatísticas: há décadas, a rede hospitalar pública lida com gargalos estruturais e desgaste contínuo, evidenciados pela superlotação e por deficiências físicas crônicas.
O acelerado envelhecimento da população brasileira esbarra em uma dura realidade financeira: os elevados custos dos planos de saúde privados têm dificultado, e muitas vezes inviabilizado, a permanência dos idosos na saúde suplementar. Embora a legislação proíba a exclusão por idade, os sucessivos reajustes das mensalidades tornam o acesso cada vez mais restrito para grande parte dessa população.
No âmbito legislativo, é urgente a criação de incentivos fiscais para operadoras que ofereçam planos de saúde financeiramente acessíveis aos aposentados de baixa renda. Dessa forma, seria possível ampliar o acesso dos idosos à saúde suplementar, reduzir a sobrecarga do SUS e minimizar a exclusão provocada pelos altos custos da assistência privada.
Sem mudanças estruturais profundas na regulação do setor, o envelhecimento com acesso digno à saúde continuará sendo um privilégio inalcançável para a imensa maioria dos brasileiros.
* Professor emérito da UFPE e membro titular das Academias Brasileira e Pernambucana de Ciências.
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