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Hepatite C: existe cura, mas é preciso encontrar quem está doente

Fonte: oglobo.globo.com | Data: 07/08/2026 04:57:34

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Infecção pode permanecer assintomática por anos, o que reforça necessidade de rastreamento


Seringas, alicates e equipamentos de piercings e tatuagens podem oferecer riscos
Seringas, alicates e equipamentos de piercings e tatuagens podem oferecer riscos — Foto: Magnific

Poucas doenças expõem com tanta clareza os paradoxos da medicina quanto a hepatite C: uma infecção capaz de evoluir silenciosamente por décadas, causando fibrose, cirrose e câncer de fígado, mas que hoje pode ser curada em mais de 95% dos casos tratados. O Brasil dispõe de testes diagnósticos precisos, antivirais de altíssima eficácia e um programa público que oferece esse tratamento gratuitamente. O elo que ainda falta é a busca ativa: encontrar, a tempo, quem carrega o vírus sem saber.

O agente causador é o HCV, vírus RNA da família Flaviviridae, transmitido sobretudo por via parenteral: agulhas e seringas compartilhadas, instrumentos perfurocortantes e transfusões anteriores a 1993, ano em que a testagem obrigatória do sangue passou a vigorar no Brasil. Transmissão sexual e vertical (mãe-filho) também ocorrem, com frequência menor. Lâminas, alicates de unha e materiais de tatuagem e piercing sem os devidos cuidados somam-se aos fatores de risco.

Quem recebeu transfusões ou passou por grandes cirurgias antes de 1993, fez hemodiálise, teve exposição ocupacional a sangue ou se submeteu a procedimentos em condições sanitárias duvidosas deve buscar testagem, mesmo sem sintomas.

A maioria dos infectados permanece assintomática por anos. Quando presentes, os sinais são inespecíficos como fadiga, náusea, inapetência, desconforto abdominal, e a icterícia, quando ocorre, costuma ser tardia. Enquanto isso, o vírus mantém replicação persistente e inflamação hepática crônica, que em parcela significativa dos pacientes evolui para fibrose avançada, cirrose, insuficiência hepática e câncer de fígado. Ascite, sangramento digestivo, encefalopatia hepática e emagrecimento acentuado costumam sinalizar doença já avançada. Esperar sintomas para investigar é, portanto, uma estratégia arriscada.

O rastreamento começa com teste sorológico, que detecta anticorpos anti-HCV. Um resultado reagente indica exposição prévia, mas não confirma infecção ativa; parte das pessoas elimina o vírus espontaneamente. A confirmação exige detectar o material genético viral, o HCV-RNA, por biologia molecular; só essa etapa define quem precisa de tratamento.

A terapêutica mudou radicalmente na última década. Os antigos esquemas com interferon peguilado e ribavirina, longos e mal tolerados, foram substituídos pelos antivirais de ação direta (DAA), orais, que atuam sobre proteínas essenciais à replicação do HCV. Desde 2015 o Ministério da Saúde incorpora esses medicamentos ao SUS.

O esquema de primeira linha é, em geral, pangenotípico, como sofosbuvir associado a velpatasvir, por via oral durante oito a doze semanas, eficaz contra os principais genótipos circulantes no país e dispensando, na maioria dos casos, a genotipagem prévia. O protocolo prevê ainda combinações como ledipasvir/sofosbuvir e elbasvir/grazoprevir para situações específicas, contempla retratamento de falhas terapêuticas e disponibiliza formulações pediátricas. O resultado é uma taxa de resposta virológica sustentada superior a 95%, com efeitos adversos muito menores que os das terapias antigas.

Entre 2015 e 2025, o número anual de casos notificados caiu 34%, de cerca de 25,8 mil para 17 mil. A queda é positiva, mas não autoriza acomodação pois parte pode refletir subnotificação, não necessariamente menor circulação viral. O Ministério da Saúde persegue a meta, alinhada à OMS, de eliminar a hepatite C como problema de saúde pública até 2030, o que exige ampliar a testagem, encurtar o intervalo entre triagem e confirmação diagnóstica, buscar populações de maior risco e garantir início rápido do tratamento após o diagnóstico.

Há também uma barreira social a enfrentar: a hepatite C não deveria carregar julgamento. O medo do estigma ainda afasta pacientes dos serviços de saúde.

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