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Nos trilhos da memória: a história e o apelo do ‘Amor de Trem’ que resiste em Minas

Fonte: itatiaia.com.br | Data: 07/08/2026 05:11:46

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“No trem que vai pra Araguari, eu partia de Goiânia com destino a Uberlândia”. Esses são os versos iniciais da canção “Amor de Trem”, a 16ª faixa do álbum “Tempo”, lançado pelo cantor sertanejo Leonardo em 1999, o primeiro após a morte de seu irmão, Leandro. A letra menciona a saga de um viajante em busca de seu amor perdido em cidades como Patrocínio, Passos e Coromandel, além de Patos de Minas e BH. Essa história, que deixa no ar a dúvida sobre o sucesso da empreitada, bem que poderia ter sido vivida por um maquinista ou ferroviário na Estrada de Ferro Goiás, que encerrou suas atividades de forma gradual durante a década de 1980.

A cerca de 560 quilômetros de Belo Horizonte está localizada a Praça Gaioso Neves, em Araguari, município do Triângulo Mineiro com cerca de 124 mil habitantes, segundo estimativa feita em 2025 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entorno da praça, fica o edifício que originalmente sediava a antiga Estação da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, e que ainda hoje também funciona como base da prefeitura municipal. O espaço abriga o Museu Ferroviário de Araguari, onde turistas e visitantes encontram um acervo de mais de mil peças que resgata a memória local e destaca a relação da cidade com o trem. É lá que trabalha Silvana Montes Pereira Campos, responsável pelo recebimento de viajantes e por não deixar descarrilar a história da Estrada de Ferro Goiás.

“Era muito importante… o objetivo foi ligar o Sudeste ao Centro do país e permitir a troca de mercadorias entre as regiões”, comenta a guia do museu. O prédio da estação “Estrada de Ferro Goiás” foi inaugurado em dezembro de 1928 e, a partir de 1957, passou a ser “Estação da Rede Ferroviária Federal”. Ao mostrar imagens, ferramentas, vestimentas, textos e equipamentos de sinalização e comunicação da época, Silvana atua como uma maquinista que leva o visitante a mensurar o papel do trabalho ferroviário para a cidade e a região. Pelos trilhos da história, o acervo resgata um período em que a ferrovia integrava Minas, Goiás e São Paulo por meio do transporte de passageiros e cargas, viabilizando o escoamento de produtos e a interação humana. Além disso, o local conta com um livro de depoimentos que reúne relatos de ferroviários, familiares e outros visitantes que fazem questão de registrar suas impressões sobre a visita.

O funcionamento de ferrovias em Minas Gerais, já no fim do século XIX, foi fundamental para gerar empregos e permitir o desenvolvimento da região. Segundo Pablo Luiz de Oliveira Lima, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autor do livro “Ferrovia, Sociedade e Cultura: 1850-1930”, o impacto desse modelo de transporte naquela época pode ser comparado ao que vemos atualmente com a Inteligência Artificial (IA). “Foi um instrumento que prometia a modernização de uma sociedade. Minas era predominantemente rural, de grande produção agrícola, mas com muitos problemas de transportes e comunicações internas”, ressalta. Desse modo, durante quase um século a ferrovia teve uma função significativa de inovação estrutural para os mineiros.

“Se antes havia uma dinâmica interna dos meios de transporte já estabelecidos, apesar de serem lentos e precários (como carros de boi e transporte fluvial), a chegada da ferrovia gerou um grande impacto pois muitas localidades acabaram definhando com a migração de suas populações para o entorno de estações ferroviárias”, destaca Pablo Luiz de Oliveira Lima. Esse contraste entre o desenvolvimento de algumas áreas em detrimento da estagnação ou mesmo do “isolamento econômico” de outros territórios mostra um mecanismo que nem as montanhas mineiras conseguiram cercar. “Com o capitalismo, que sempre traz novas formas de produção e que vai gerando transformações, a ferrovia foi substituída pelo transporte rodoviário”.

Diferentemente do que foi feito em países da Europa e nos Estados Unidos, a partir da Ditadura Militar no Brasil foi colocado em prática um projeto de abertura do mercado para a indústria automobilística, trocando a ferrovia pela rodovia, processo que de certa forma já havia sido iniciado durante o governo de Juscelino Kubitschek. “O transporte ferroviário de passageiros foi sendo desativado e, a partir dos anos 1980, foi perdendo importância no país até os dias de hoje, em que temos no Brasil uma malha ferroviária menor que a de 1930”.

No entanto, assim como o título da canção sertaneja lançada em 1999, esse “Amor de Trem” resiste em Minas Gerais. “Trabalhando aqui no museu, aprendi que não se pode dizer a expressão ‘ex-ferroviário’, eles ficam ofendidos. Uma vez ferroviário, sempre ferroviário. A desativação foi um transtorno, gerou desemprego e impactou o turismo local”, afirma Silvana Montes Pereira Campos. O personagem da música sente a falta da amada, e a população sente a falta “do trem que vai pra Araguari”.

A dois meses das eleições estaduais, a Itatiaia publica uma série de reportagens sobre a relação das ferrovias e dos trens com Minas Gerais. A história, os impactos culturais e socioeconômicos e as perspectivas desse modelo de transporte você acessa em nosso Portal (itatiaia.com.br).