Fluminense desafia estigma elitista com série documental exibida no CineFoot
Fonte: otempo.com.br | Data: 07/08/2026 08:27:37
O Fluminense estará representado no Festival CineFoot com a exibição de dois episódios da série “Nós Somos do Rio de Janeiro”. Enquanto o primeiro já está disponível no canal de YouTube do clube, a FluTV, o segundo estreará apenas no domingo (9), às 17h (de Brasília), quando será apresentado em sessão especial do maior festival de cinema dedicado ao futebol na América.
O documentário foi idealizado e é apresentado pelo historiador e sociólogo Leandro Carvalho, também ex-presidente da torcida organizada Young Flu. Ao lado da equipe e convidados, o pesquisador visita diferentes locais do Rio de Janeiro e conta histórias da cidade por meio da ótica tricolor. Os personagens são famosos e anônimos que compartilham a paixão pelo Time de Guerreiros. Assim, a produção reforça a influência do time e questiona o seu estigma de “elitista”.
— Eu não me vejo como um apresentador, mas como um interlocutor do Fluminense com o seu torcedor. A série pensa o Fluminense dentro da cultura do Rio de Janeiro, abordando territórios que são importantes nessa relação: a intenção é apresentar espaços da cidade a partir de personagens que têm uma intimidade muito grande com o clube. Eu aproveitei a minha experiência como pesquisador, historiador, sociólogo e professor da Uerj para pensar esses elementos: cultura, território e a relação do Fluminense com a cidade — explicou ao Lance!.

A ideia surgiu dentro do Fluminense e foi levada pela equipe de comunicação a Sidney Garambone, que assumiu a direção. O jornalista se empolgou com o projeto e vê no formato um diferencial em relação a outros conteúdos que retratam a conexão entre a instituição e as arquibancadas.
— Tem sido uma experiência incrível, porque a gente escolhe o lugar, faz uma pré-produção, mas, no dia em que vai gravar, é surpreendido com personagens novos que aparecem, então tem sido muito gratificante. Normalmente, conhecemos aquela velha história do torcedor indo visitar a Gávea, São Januário, Laranjeiras. A pessoa fica toda feliz, conhece a sala de troféus, a história do clube. Só que essa série propõe o contrário: é o clube indo atrás dos seus torcedores — afirmou ao Lance!.
O primeiro episódio visitou a Favela Guararapes, localizada a apenas 3 km da sede do Tricolor, e propõe que “o Fluminense não mora só lá embaixo”. Por lá, o locutor encontra diferentes moradores apaixonados pelo Time de Guerreiros, faz ligação por vídeo com o atacante John Kennedy, conhece a torcida organizada “Guaraflu” e relata a história de resistência da comunidade.
No capítulo que será exibido no festival, Leandro ganha a companhia do rapper e ator Xamã como anfitrião. A dupla passeia pelas ruas de bairros da Zona Oeste, conhecendo novas tramas e também revisitando o passado do artista, cria de São José e Inhoaíba.
— O Xamã foi incrível: botou a camisa do Fluminense e esqueceu que é rapper, ator. Ele só conseguia lembrar da infância, da adolescência. Foi até lá, encontrou vários amigos. E até fizemos uma pergunta: “Você se sente mais ator, cantor ou tricolor?”. Ele respondeu: “Tricolor, claro! Sou tricolor antes de tudo isso!”. Ele esbanjou carisma, foi muito legal. Então, temos os primeiros dois episódios: um a 3 km do clube e o outro a 50 km — elogiou Garambone.

Fluminense sob outra perspectiva
Ao aprofundar a relação do time com a cidade, a série documental desafia a ideia do Fluminense como um clube elitista, restrito à Zona Sul. O projeto foi pensado por Leandro Carvalho após dirigir e roteirizar outra websérie com a Flu TV, “Herdeiros de Chico Guanabara”, que detalhava a trajetória do primeiro tricolor da história, segundo o próprio Fluminense, que era negro, capoeirista e virou símbolo do futebol brasileiro. Em “Nós Somos do Rio de Janeiro”, ele conecta passado e presente.
— Precisamos partir do pressuposto de que o futebol nasce numa perspectiva de clubes fechados, todos com uma origem elitista. Se acreditamos que o racismo é estrutural e institucional, nenhuma instituição forjada após a escravidão está imune a esse espectro social. No entanto, a abertura do Fluminense à presença de figuras como Chico Guanabara nas arquibancadas e às mulheres como primeiras torcedoras já demonstra um tensionamento histórico e social desses espaços — opinou o historiador.
Garambone também entende que o produto audiovisual contribui para concretizar a visão de um Fluminense popular, com torcedores em todos os cantos da capital.
— Assim como Botafogo, Flamengo e Vasco, o Fluminense é superpopular. E essa série está mostrando isso. Todos os lugares aos quais vamos, encontramos tricolores apaixonados de todas as cores e classes sociais. E é interessante por não ficar uma coisa maniqueísta do tipo: “Ah, estamos vindo aqui para mostrar que o Fluminense não é elitista”. Os próprios personagens falam isso. Tem uma hora que o Xamã diz: “Pô, que papo de playboy o quê! Que playboy! Pô, tem tricolor aqui na Zona Oeste, em Sepetiba, tem lá em Rondônia, em São Paulo! — acrescentou o diretor.
A primeira temporada de “Nós Somos do Rio de Janeiro” terá 11 partes, cinco delas já gravadas. O terceiro capítulo será sobre a Mangueira, comunidade próxima ao Maracanã. Os episódios não ultrapassam 20 minutos de duração, decisão que buscou cativar o público da internet.
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Exibição no CineFoot
A representação do Fluminense no festival acontecerá no domingo (9), no Estação Claro, em Botafogo, às 17h (de Brasília). Além dos dois primeiros episódios da série, também será exibida “Germán Cano: a história por trás do artilheiro”, outra produção da Flu TV, com direção de Caio Blois, que conta a trajetória do atacante argentino por meio de relatos de conhecidos.
— Eu acho que é um presente para a Flu TV, né? Estar no festival é muito legal. Primeiro, porque você vê numa telona. Não tem jeito: é um charme muito grande. Segundo: claro que a série contempla muito o tricolor, mas quem não é tricolor também pode assistir. Porque não é uma ode puramente ao Fluminense, é uma ode à cidade do Rio de Janeiro — concluiu Sidney Garambone.
O CineFoot, que está na sua 16ª edição, começou no dia 6 e vai até 11 de agosto, com outros três espaços no Rio de Janeiro: Centro Cultural Justiça Federal, Ponto Cine e Cine Teatro Eduardo Coutinho. Em São Paulo, a casa do evento é o Museu do Futebol.
