Foi um crime aéreo’, diz parente de vítima da Voepass
Fonte: dgabc.com.br | Data: 07/08/2026 10:35:36
Fátima Albuquerque, presidente da Associação de Familiares das Vítimas da Voepass, perdeu a única filha em 9 de agosto de 2024. A médica Arianne Risso tinha 34 anos e era uma das passageiras do voo 2283, que caiu em Vinhedo, no interior de São Paulo, há cerca de dois anos.
“Eu falo desde o primeiro dia (após o acidente): eles mataram a minha filha”, disse Fátima em conversa com o Estadão, nesta quinta-feira, 6. Ela esteve na Superintendência da Polícia Federal, em São Paulo, onde foi apresentado o relatório da investigação da PF sobre o acidente.
A Polícia Federal indiciou 16 pessoas, a maioria pelo crime de atentado à segurança no transporte aéreo. Segundo os investigadores, funcionários da Voepass, incluindo diretores da companhia aérea e comandantes, tinham uma “cultura” de não reportar oficialmente falhas nos sistemas das aeronaves.
Isso incluía ocorrências envolvendo o próprio sistema de degelo que, ao não funcionar corretamente durante o voo fatal de Cascavel (PR) para Guarulhos (SP), contribuiu para a queda do ATR.
“Ali, naquela empresa, tinha um modus operandi que fazia os funcionários cometerem crimes”, afirma Fátima. “Eles sabiam que estavam fazendo uma gambiarra, sabiam que estavam burlando a fiscalização e colocaram em risco a vida das pessoas”, afirma Fátima.
O sentimento em relação ao indiciamento, diz ela, é de esperança de que a justiça seja feita.
“Então, isso nos traz, a todos os familiares, uma esperança de que haja Justiça pelos nossos, mas, principalmente, uma Justiça para servir de exemplo, para nunca mais acontecer isso”, diz a mãe de Ariane.
O inquérito será analisado pelo Ministério Público Federal, que poderá pedir a prisão dos indiciados. Por causa de uma medida cautelar, os 16 investigados estão impedidos de deixar o País.
Sobrinha de uma das vítimas da queda do avião, a advogada Bianca Feller também integra a equipe de defensores da associação. Ao Estadão, ela contou que perder um familiar em uma “tragédia que poderia ter sido evitada” é “inexplicável”.
“Ele poderia estar aqui. Tudo isso poderia ser evitado se a empresa tivesse condições de voar. Foi um crime. Não foi um acidente. Foi um crime aéreo”, diz.
Ela acredita que a apresentação do relatório da investigação na semana em que o acidente completa dois anos é simbólica e representa o fechamento de um ciclo.
“A gente encerra uma etapa, mas inicia outra ainda mais importante, que é a luta por justiça. Para que haja a denúncia nos termos do indiciamento, o processo criminal e a condenação, para que eles sejam punidos na forma da lei”, diz.
Para Adriana Ibba, mãe da vítima mais nova da queda do ATR – uma menina de 3 anos que viajava com o pai do Paraná para São Paulo -, foram surpreendentes os indícios de crime apresentados pela polícia.
“Eu já sabia que tinha muita coisa errada, mas não nesse nível. Porque a gente está falando em fingir fazer manutenção de aeronave. É incabível isso. Me surpreendeu muito”, afirmou.
O que diz a Voepass
“A Voepass informa que a segurança operacional sempre foi sua prioridade. Ao longo de mais de 30 anos de atuação na aviação brasileira, a companhia adotou rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações previstos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
A empresa reforça que sua atuação sempre esteve pautada pelos mais elevados padrões de segurança da aviação, contando, desde 2012, com a certificação IOSA (IATA Operational Safety Audit), concedida pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) às companhias aprovadas em rigorosa auditoria internacional de segurança operacional.
Os treinamentos de pilotos contemplavam os procedimentos previstos para o enfrentamento de condições de formação de gelo, incluindo medidas como alteração de altitude e velocidade, conforme as orientações do fabricante da aeronave e os protocolos operacionais aplicáveis. As tripulações eram permanentemente orientadas a cumprir rigorosamente esses procedimentos, de acordo com cada cenário operacional.
A tripulação do voo 2283 era composta por profissionais experientes, devidamente habilitados e certificados, que somavam mais de 5 mil horas de voo, com treinamentos técnicos, certificações e avaliações médicas regularmente atualizados, sem qualquer registro prévio que comprometesse sua aptidão para o exercício da função.
Desde o início das investigações, a Voepass colaborou integralmente com as autoridades, disponibilizando documentos, diários de bordo, registros operacionais e relatórios técnicos ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e à Polícia Federal. A companhia compreende que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente.
A Voepass reitera sua solidariedade às famílias das vítimas e reafirma que permanece à disposição das autoridades, das instituições competentes e dos demais agentes envolvidos para prestar todos os esclarecimentos necessários”.
