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ENTREVISTA: Executivos da Suzantur, JCA, Rodonaves e LP Guizilim desenvolvem metodologia de inclusão de imigrantes para reduzir escassez de motoristas

Fonte: diariodotransporte.com.br | Data: 07/08/2026 20:59:45

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Publicado em: 7 de agosto de 2026



Projeto faz parte de curso do SEST SENAT. Metodologia é específica para o transporte urbano e rodoviário e gerou até e-book. Especialista em Direito dá dicas de cuidados

ADAMO BAZANI

Colaborou Yuri Sena

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Uma metodologia em quatro etapas para contratação, capacitação, acolhimento e retenção de imigrantes e refugiados no transporte rodoviário de cargas e de passageiros foi desenvolvida por executivos da Suzantur, JCA, Rodonaves e LP Guizilim como uma das alternativas para enfrentar a falta de motoristas e de trabalhadores em outras funções operacionais.

O projeto, denominado Rotas de Inclusão, resultou também em um e-book de 16 páginas destinado às empresas, com orientações sobre documentação, treinamento, acolhimento e mensuração do retorno social da contratação.

Um dos responsáveis pelo trabalho, o gerente operacional da Suzantur, Wagner Militani da Silva, explicou com exclusividade ao Diário do Transporte que o grupo não partiu apenas de estudos teóricos. Foram realizadas pesquisas de campo, entrevistas com imigrantes e refugiados e benchmarking em empresas que já possuem programas de contratação desse público.

Entre as experiências estudadas estão as da JSL (Júlio Simões Logística) e da fabricante de carrocerias de ônibus Comil.

“A metodologia que a gente escolheu foi a seguinte: fizemos um benchmarking nas maiores empresas do mercado, como a Júlio Simões [JSL Logística] e na Comil. A Comil tem um programa para contratação de refugiados e imigrantes fantástico, um case de sucesso. Um terço do quadro da Comil é de refugiados e imigrantes. E eu, pessoalmente, fui a Porto Alegre e depois fui ao centro de refugiados e imigrantes entrevistá-los também”, explicou o gerente operacional da Suzantur, Wagner Militani da Silva, ao Diário do Transporte.

Segundo Militani, a pesquisa também incluiu entrevistas em um centro de atendimento a imigrantes em São Paulo.

“Foi feito benchmarking nas maiores empresas do País que têm programa voltado para imigrantes. Foi feita uma entrevista no Centro do Imigrante, lá em São Paulo, eu também realizei as entrevistas e, diante disso, a gente desenvolveu uma metodologia em quatro etapas para contratação desses refugiados e imigrantes, inserção deles no mercado de trabalho, no transporte rodoviário de cargas e de passageiros, que é uma dor do setor de transporte como um todo”, complementou.

O projeto foi elaborado por participantes da 71ª turma da Especialização em Gestão de Negócios, em São Paulo. O curso faz parte do Programa Avançado de Capacitação do Transporte, coordenado pelo ITL (Instituto de Transporte e Logística), promovido pelo SEST SENAT e ministrado pela FDC (Fundação Dom Cabral).

Participaram do desenvolvimento a gerente de SESMT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho) da Rodonaves, Jacqueline Queiroz; o diretor executivo da Opção JCA, Carlos Lacerda; o supervisor de Logística da LP Guizilim, Bruno da Silva Santos; a coordenadora de Controladoria da JCA, Cibele Thais Telles; e o gerente operacional da Suzantur, Wagner Militani da Silva.

E-BOOK MOSTRA COMO ESTRUTURAR CONTRATAÇÃO

O trabalho não ficou restrito à apresentação acadêmica. Os participantes produziram um manual para orientar empresas interessadas em estruturar programas semelhantes.

O material reúne informações desde o recrutamento até o acompanhamento do profissional depois da contratação.

“No final, a gente lançou um e-book que tem 16 páginas, que é um manual de como você fazer uma contratação de imigrante: a parte de documentação, a parte de treinamento, a parte de acolhimento, a parte do ROI social”, detalhou o gerente operacional da Suzantur, Wagner Militani da Silva, ao Diário do Transporte.

Militani também foi responsável por parte das pesquisas de campo e pela apresentação final do projeto.

A metodologia é dividida em quatro etapas: recrutamento e regularização documental; capacitação técnica e linguística e sensibilização das equipes; mentoria e integração cultural; e avaliação contínua por indicadores de desempenho.

Também estão previstas parcerias com entidades de acolhimento, instituições de formação de motoristas e órgãos públicos.

O guia inclui modelos de plano de ação 5W2H, checklists de conformidade legal, kits de integração e painéis de indicadores que podem ser adaptados pelas transportadoras.

Outra ferramenta prevista é o SROI (Social Return on Investment, ou Retorno Social sobre o Investimento), utilizado para mensurar impactos para trabalhadores, empresas, famílias, comunidades e poder público.

ADVOGADA ALERTA PARA DOCUMENTAÇÃO E IGUALDADE DE DIREITOS

A contratação de trabalhadores estrangeiros, entretanto, exige atenção à situação migratória e à documentação.

Em análise exclusiva para o Diário do Transporte, a advogada especializada em Direito Empresarial, Liana Variani, explica que, uma vez legalmente habilitado para trabalhar no Brasil, o imigrante deve receber o mesmo tratamento trabalhista dispensado ao brasileiro.

“A contratação de mão de obra de imigrantes no Brasil exige garantir que o profissional possua visto ou autorização de residência válida com permissão de trabalho, CPF, Carteira de Trabalho Digital e a Carteira de Registro Nacional Migratório (CRNM). A lei brasileira garante aos estrangeiros os mesmos direitos trabalhistas aplicados aos nacionais. Aplique integralmente a CLT, garantindo salário, 13º salário, férias, FGTS e eSocial sem distinção de nacionalidade”, explica a advogada especializada em Direito Empresarial, Liana Variani.

A orientação também é para que a empresa não considere encerrado o acompanhamento documental depois da admissão.

“Monitore a validade dos documentos temporários do colaborador para assegurar renovações oportunas junto à Polícia Federal. O imigrante precisa ter visto adequado ou autorização de residência para fins laborais, emitido pelos órgãos competentes do governo brasileiro. Exija a apresentação do CPF, da Carteira de Trabalho Digital e do CRNM, antigo RNE. O trabalhador recém-chegado com visto específico deve realizar o registro migratório obrigatório”, acrescenta Liana Variani.

COMIL FOI ESTUDADA PELO PROJETO E JÁ HAVIA MOSTRADO EXPERIÊNCIA AO DIÁRIO DO TRANSPORTE

Uma das referências utilizadas pelos executivos no desenvolvimento do Rotas de Inclusão foi a Comil, fabricante de carrocerias de ônibus instalada em Erechim (RS).

O Diário do Transporte esteve na fábrica em março de 2026 e mostrou como a contratação de imigrantes, principalmente venezuelanos, passou a ser utilizada pela empresa diante da dificuldade para preencher postos de trabalho.

Na ocasião, a Comil informou possuir 2.170 funcionários, dos quais aproximadamente 1.600 atuavam diretamente na produção. Cerca de 600 trabalhadores eram imigrantes contratados com auxílio de projetos de inclusão, sendo a maioria venezuelana. A empresa relatou que havia vagas disponíveis e dificuldade de encontrar trabalhadores locais e afirmou que os imigrantes recebem a mesma remuneração e os mesmos direitos dos demais funcionários.

O programa começou com apoio da ADRA e posteriormente passou a utilizar canais oficiais, entre eles a Operação Acolhida, o Exército Brasileiro e a OIM (Organização Internacional para as Migrações), ligada às Nações Unidas. A Comil também relatou ações de moradia, alimentação, saúde, matrícula de filhos em escolas, treinamento profissional e preparação das equipes locais para receber os novos trabalhadores.

Na entrevista ao criador e editor-chefe do Diário do Transporte, Adamo Bazani, a gerente de Recursos Humanos da Comil Ônibus, Fernanda Parmeggiani, disse ainda que a retenção dos trabalhadores imigrantes era superior à observada entre profissionais locais. Empresas de ônibus que também enfrentam falta de motoristas e profissionais de manutenção passaram a procurar a fabricante para conhecer a experiência.

RELEMBRE:

ENTREVISTA: Com dificuldades para achar mão de obra, Comil encontra solução na contratação de imigrantes, a maioria venezuelanos

FALTA DE MOTORISTAS ATINGE CARGAS E PASSAGEIROS

A iniciativa dos executivos ocorre em um cenário no qual a dificuldade para contratar motoristas deixou de ser restrita a uma empresa ou segmento.

Dados apresentados pela CNT (Confederação Nacional do Transporte) apontam que 65,1% das empresas pesquisadas identificam a função de motorista como a principal carência de mão de obra.

No transporte rodoviário de cargas, 44,6% das empresas mantêm vagas abertas e, entre estas, mais da metade possui cinco ou mais postos sem preenchimento.

O problema também aparece no transporte de passageiros: segundo os dados apresentados pela CNT na divulgação do Rotas de Inclusão, 53,4% das empresas do segmento enfrentam dificuldades para contratar profissionais.

O modal rodoviário responde por 64,85% da matriz de transporte de cargas do País e emprega aproximadamente 1,3 milhão de trabalhadores formalizados, segundo a Confederação. Em 2025, foram gerados 47.440 empregos no segmento.

Para a gerente de SESMT da Rodonaves, Jacqueline Queiroz, trabalhadores estrangeiros já estão presentes nas operações, mas nem sempre a contratação faz parte de uma política estruturada.

“Falta um programa de acolhimento, capacitação e acompanhamento. Isso dificulta a retenção desses profissionais e limita o potencial de contribuição que eles podem oferecer ao setor”, afirma a gerente de SESMT da Rodonaves, Jacqueline Queiroz.

Segundo a executiva, a falta de profissionais foi considerada pelo grupo ao definir o objeto do trabalho.

“Identificamos a oportunidade de estruturar um programa voltado para esse público em um momento em que o setor enfrenta uma escassez significativa de profissionais e pode se beneficiar diretamente dessa força de trabalho”, acrescenta Jacqueline Queiroz.

O diretor executivo do ITL, João Victor Mendes, afirma que o objetivo do trabalho acadêmico é produzir ferramentas que possam ser aplicadas pelas empresas.

“Nosso objetivo é conectar teoria e prática para gerar resultados concretos. O Rotas de Inclusão transforma conhecimento em uma metodologia capaz de ajudar as empresas a enfrentar a escassez de mão de obra, fortalecer sua competitividade e contribuir para um transporte mais eficiente”, diz o diretor executivo do ITL, João Victor Mendes.

DE ONDE VÊM OS IMIGRANTES

Os dados oficiais mostram que existe uma corrente migratória que pode ampliar o contingente de trabalhadores disponíveis no País, mas é necessário fazer uma distinção: entrada pela fronteira, registro de residência, pedido de refúgio e autorização para trabalho são indicadores diferentes e não devem ser somados como se representassem o mesmo universo de pessoas.

Para observar o perfil de quem efetivamente busca residência no Brasil, uma das referências é o SisMigra (Sistema Nacional de Registro Migratório), da Polícia Federal, sistematizado pelo OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais), ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Os dados de 2025 mantiveram os venezuelanos como principal nacionalidade nos registros de residência. Em janeiro, a sequência das quatro principais origens foi Venezuela, Bolívia, Argentina e Haiti. Já em dezembro, os três primeiros lugares foram Venezuela, Bolívia e Haiti.

Assim, considerando a recorrência entre as principais nacionalidades nos registros oficiais ao longo de 2025, o panorama é:

Posição Origem Situação observada nos registros oficiais
Venezuela Principal nacionalidade nos registros de residência
Bolívia Aparece de forma recorrente imediatamente depois dos venezuelanos
3º/4º Haiti Entre as principais origens; terminou dezembro em terceiro
3º/4º Argentina Entre as quatro principais no início de 2025

O quadro não deve ser interpretado como um ranking de toda a população estrangeira residente no Brasil. Trata-se do perfil dos fluxos recentes registrados pelo sistema migratório. O próprio OBMigra informa que, desde janeiro de 2025, adotou uma nova série para registros de residência que exclui refugiados e determinados registros ligados a alterações de status migratório, razão pela qual comparações precisam respeitar a metodologia.

Há ainda uma dinâmica diferente entre imigração e refúgio. Em dezembro de 2025, por exemplo, venezuelanos, bolivianos e haitianos lideraram os registros de residência, enquanto cubanos foram a principal nacionalidade entre os solicitantes de reconhecimento da condição de refugiado, com volume superior ao triplo dos pedidos apresentados por venezuelanos naquele mês.

No início de 2026, cubanos e venezuelanos continuaram como as principais nacionalidades entre os solicitantes de refúgio, enquanto Boa Vista e Pacaraima, em Roraima, São Paulo e Oiapoque, no Amapá, figuraram entre as principais portas de entrada registradas pelo levantamento oficial.

Esse cenário ajuda a explicar por que programas empresariais de contratação têm recorrido a organizações especializadas e canais oficiais: a existência de fluxo migratório não significa que todo imigrante esteja automaticamente disponível ou legalmente habilitado para ocupar uma vaga de motorista.

No caso específico da condução profissional de ônibus e caminhões, além da regularidade migratória e dos requisitos trabalhistas destacados por Liana Variani, permanecem aplicáveis as exigências brasileiras para habilitação e exercício profissional da atividade.

É justamente a tentativa de organizar esse caminho — da identificação do candidato à documentação, capacitação, acolhimento e retenção — que os executivos responsáveis pelo Rotas de Inclusão dizem pretender oferecer às empresas de transporte por meio da metodologia e do e-book.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes