Tragédia da Voepass expõe falhas no controle de empresas aéreas
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 08/08/2026 00:31:25
PF constatou descaso com manutenção, negligência com segurança e lacunas na fiscalização
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São aterradoras as conclusões dos relatórios da Polícia Federal (PF) e do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre a queda do avião da Voepass que matou 62 passageiros e tripulantes no interior de São Paulo em agosto de 2024. As apurações revelaram um quadro que mistura descaso com a manutenção das aeronaves, negligência com padrões de segurança, lacunas na fiscalização e uma cultura que banalizava falhas graves. É preciso tirar lições do episódio trágico.
A perda de controle no voo, diz o relatório da PF, decorreu do acúmulo de gelo nas asas e de falhas no sistema pneumático de degelo e na execução de procedimentos por parte dos pilotos. As análises mostram que a tripulação tinha conhecimento dos problemas, pois eles eram recorrentes. No voo imediatamente anterior, o comandante fez um desabafo sobre acúmulo de gelo na aeronave: “Chegamos vivos”. Foi constatado que, quando mensagens de alerta apareciam, a tripulação desligava e religava o sistema de degelo na tentativa de restabelecer o funcionamento. No voo anterior ao que caiu, o alerta apareceu oito vezes. Apesar das falhas intermitentes, o avião decolou novamente numa rota para a qual havia previsão de formação de gelo. Segundo o laudo, se as falhas tivessem sido reportadas, a aeronave poderia não ter decolado. A PF indiciou o dono da companhia, José Luiz Felício, e 15 funcionários ou ex-funcionários.
O relatório do Cenipa, divulgado no mês passado, chegou a conclusões parecidas. Segundo a investigação, apesar de falhas graves de manutenção, panes nas aeronaves não costumavam ser reportadas para não impedir a operação. Os investigadores disseram que a Voepass tinha uma cultura organizacional de aceitação dos desvios.
As investigações põem em xeque a fiscalização. De acordo com o Cenipa, auditorias e inspeções da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) antes do acidente expuseram “diversas não conformidades” relacionadas à manutenção das aeronaves, à rastreabilidade de componentes e à prática recorrente de relato informal de panes. Mas as constatações, diz o Cenipa, não resultaram nas decisões necessárias à mitigação e ao controle dos riscos. A Voepass fornecia informações falsas aos fiscais, disse, em entrevista ao Fantástico, o diretor-presidente da Anac, Tiago Faierstein. “Nosso corpo técnico fez análises baseadas em documentos que não eram verdadeiros”, afirmou.
Os passageiros não têm como saber se as companhias aéreas fazem manutenção adequada das aeronaves, se seguem à risca protocolos de segurança ou se agem de boa-fé com a fiscalização. Acreditam que, se a empresa está autorizada a operar, é porque segue as normas. Embora a aviação brasileira seja considerada segura, o acidente com o avião da Voepass serve de alerta. É urgente aperfeiçoar os sistemas de controle. É verdade que o certificado de operação da Voepass foi cassado pela Anac no ano passado, mas isso não encerra o problema. Qualquer empresa que põe em risco passageiros e tripulantes precisa ser impedida de voar.
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