Depois de um trágico acidente de avião que matou toda a equipa de patinagem artística, Peggy Fleming carregou as esperanças de uma nação
Fonte: cnnportugal.iol.pt | Data: 08/08/2026 07:07:34
Sete anos depois de uma tragédia que devastou a patinagem artística dos Estados Unidos, uma jovem de 19 anos protagonizou uma recuperação histórica. A conquista olímpica de Peggy Fleming tornou-se um símbolo de superação e devolveu ao país a esperança no gelo
Talvez nenhum atleta tenha tido um impacto tão grande na sua modalidade como Peggy Fleming teve na patinagem artística durante a década de 1960.
Para qualquer atleta, chegar a uns Jogos Olímpicos com as esperanças de uma nação sobre os seus ombros é um enorme peso. Acrescente-se a isso uma tragédia devastadora que tira a vida a quase todos os seus contemporâneos, e a situação torna-se completamente diferente.
Foi esse o peso que Fleming, então com apenas 19 anos, teve de suportar antes dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1968, em Grenoble.
Recuemos sete anos, até 14 de fevereiro de 1961. A equipa norte-americana de patinagem artística embarcava no voo 548 da Sabena, de Nova Iorque para Bruxelas, tendo como destino final Praga, na Checoslováquia, onde se realizariam os Campeonatos do Mundo de Patinagem Artística.
A equipa procurava defender o título mundial conquistado por Carol Heiss pelo quinto ano consecutivo, um ano antes. No entanto, nunca teve essa oportunidade, pois o Boeing 707 que operava o voo despenhou-se durante a aproximação ao Aeroporto de Bruxelas, matando toda a equipa norte-americana de patinagem artística.
A nação acabava de perder 18 dos seus patinadores mais promissores, enquanto outras 16 pessoas – entre familiares, dirigentes, juízes e treinadores, incluindo o próprio treinador de Fleming, Bill Kipp – também morreram no acidente.
Até hoje, continua a ser uma das maiores tragédias da história do desporto norte-americano. A patinagem artística dos Estados Unidos ficou devastada de um dia para o outro e, como destaca Christine Brennan, colunista desportiva do USA Today: “Todas as jovens que teriam sido as estrelas de 1962, 1963 e 1964 desapareceram.”
De repente, as esperanças de uma nação recaíram sobre os jovens ombros de Fleming e, como explica Brennan, “aceleraram a sua evolução porque não havia mais ninguém”, acrescentando: “Ela era a esperança para o futuro da patinagem americana. A pressão era enorme.”
Da tragédia ao triunfo
Depois da tragédia, a atenção centrou-se rapidamente na forma como a patinagem artística norte-americana conseguiria reconstruir-se e manter o domínio que tinha desfrutado ao longo da década de 1950.
O programa já contava com Fleming como um talento promissor, mas muitos dos principais treinadores norte-americanos – incluindo Kipp – tinham morrido.
Assim, uma nova vaga de treinadores estrangeiros atravessou o Atlântico, destacando-se o italiano Carlo Fassi, medalha de bronze nos Campeonatos do Mundo de 1953, em Davos, na Suíça, que passou a ser o novo treinador de Fleming.
Assim que Fassi chegou aos Estados Unidos, a “vida de Peggy mudou de forma incomensurável”, afirma Brennan, que acrescenta ainda que os Jogos Olímpicos de Inverno de 1964 chegaram “demasiado cedo” para Fleming, que competiu com apenas 15 anos.
No entanto, depois de conquistar cinco títulos nacionais consecutivos e dois títulos mundiais seguidos rumo aos Jogos Olímpicos de 1968, era evidente que Fleming era agora a melhor patinadora artística do mundo.
Mas os Jogos de Grenoble trouxeram um nível de pressão completamente diferente para a jovem de 19 anos, que patinava em nome de uma nação inteira ansiosa por ver os Estados Unidos recuperar o ouro no palco mundial.
Fazia-o também pelas 18 patinadoras e patinadores que morreram sete anos antes e nunca tiveram oportunidade de lá chegar, bem como pelo treinador Bill Kipp, que nunca viveu para ver aquilo em que ela se tornou.
Tudo aquilo por que Fleming tinha trabalhado desde os 12 anos conduzia àquele momento e, como refere Brennan: “A própria Peggy disse-me: ‘Cada pequeno músculo do teu rosto é visível no gelo. Não há capacete, não há um grande uniforme, não há colegas de equipa – és apenas tu.'”
Apesar de toda essa pressão, Fleming esteve à altura da ocasião naquela noite especial em Grenoble e conquistou a medalha de ouro com uma “graça e serenidade quase divinas”, nas palavras de Kathrine Switzer, a primeira mulher oficialmente inscrita na Maratona de Boston.
De forma notável, essa foi a única medalha de ouro conquistada pelos Estados Unidos nesses Jogos.
O vestido verde-chartreuse deslumbrou os ecrãs de televisão
Na década de 1960, a expansão da televisão teve um enorme impacto na forma como as pessoas acompanhavam o desporto. Os atletas deixaram de ser figuras da imaginação para passarem a poder ser vistos pelos próprios espectadores.
Os Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, foram os primeiros a ser amplamente transmitidos pela televisão nos Estados Unidos. Mas, como explica Brennan: “Em 1968, cada vez mais americanos tinham televisões a cores e havia pessoas a sintonizar os seus televisores para ver a cor do vestido de Peggy Fleming.”
“Foi um momento decisivo na história cultural americana”, afirma.
Mais tarde, Fleming explicou que foi a sua mãe quem escolheu o vestido de cor chartreuse depois de ler sobre a história de Grenoble, acreditando que isso conquistaria a simpatia dos franceses. Mas conseguiu muito mais do que isso: conquistou o coração de milhões de pessoas em todo o mundo.
A patinagem artística norte-americana esteve à beira do colapso depois do trágico acidente aéreo de 1961 que destruiu completamente o seu programa – Peggy Fleming foi a figura-chave que ajudou a reconstruí-lo em apenas sete anos.
Poucos atletas transformaram tanto a sua modalidade como Fleming transformou a patinagem artística nos Estados Unidos durante a década de 1960 e, como sublinha Brennan: “Ela entrou nas salas de estar dos americanos enquanto, literalmente, surgia das cinzas de uma das maiores tragédias da história do desporto americano.”
“É uma história ligada à tragédia, mas é também uma história do triunfo supremo no desporto.”